Todo sentimento ou amor de Tia Léa.

Envolta com as cores do Flamengo, aquecida pela bandeira rubro-negra, Tia Léa esperou o apito final do juiz e viu seu último jogo do Mengão.

Foto: Reprodução
REPÚBLICA PAZ E AMOR: Eu já disse aqui. O Flamengo tem razões que a própria razão desconhece. Eu, por exemplo, vivi todos os 121 anos de história do Clube que comemoramos nesse 15 de Novembro. E 17! De alguma maneira estava naquela embarcação com os outros seis. Eu sou a 7ª remadora. Só não vê quem não quer.  Nós somos a história do Flamengo. O Flamengo é a nossa história. Vestida com a papagaio de vintém acompanhei os 16 x 2 em cima do time Lá de Mangueira. Meu coração portelense exultou. O Estádio da Campos Sales tremeu. Nessa partida fui jurada para morrer de amor pelo Flamengo. Com aquela boa e velha sensação que o mundo pode acabar num jogo, numa comemoração de gol nosso. Caminho pela Lagoa e lembro de cada bola que tive que ir buscar naquele Fla x Flu.  Eu vi o Gilberto Cardoso falecer ali…na quadra…bem na minha frente. E chorei. Vibrei com cada Tri conquistado. Abracei o Dida no vestiário. Ovacionei um Urubu jogado em campo. Combinei cada detalhe com o Ladrilheiro. Ainda não me conformo com a morte do Geraldo. Gritei mais um, mais um, nos 6 x 0. Chorei abraçada a um geraldino sem dentes e descalço no gol do Andrade. O Bujica me dedicou aqueles gols. Vi o jogo de despedida do REI Zico de costas para o gramado, me recusando a aceitar a realidade. Eu nasci há 121 anos atrás. E não tem nada, nem ninguém, nesse mundo rubro-negro que eu não saiba…e não ame demais. Eu vi o amor nascer e ser assassinado. Como na história da Tia Léa…

Eu estava naquele jogo místico em Edson Passos. Sensação térmica de 49º graus. É um estado de estar Flamengo que faz você apagar o tempo todo. Com ou sem gol. É daquelas coisas que sentimos na explosão de um título. Ou assistindo um jogo do Mais Querido no calor, e no amor da Baixada. SobreVIVI. Com o fim do estoque de água na torcida, a beira de uma ensolação, “vi” uma senhorinha de uns 80 anos, aproximadamente, se escondendo do calor e do sol escaldante na sombra dos instrumentos da bateria. Ela estava ali AMANDO o Flamengo incondicionalmente. De trem…de ônibus…de qualquer jeito ou lugar…SEGUINDO o Flamengo A TODO LADO. Tia Léa, mãe de uns quatro ou cinco filhos, trocada e abandonada pelo marido, reuniu todos na sala e comunicou solenemente: “O pai de vocês me largou. De hoje em diante eu sou CASADA com o Flamengo.” Que seja infinito enquanto dure. E o amor durou.

Tantas vezes Tia Léa teve que explicar: “Não quero mais saber de homem. O meu homem é o Flamengo”. [Dá pra ter os dois, Tia Léa?] Ela tinha sido traída pelo marido com uma vizinha “da rua de trás”, e o infeliz ainda foi morar com a dita cuja bem ali, na cara dela. Aquele sentimento de Márcio Araújo titular. De Cirino aquecendo para entrar. De apenas três pontos conquistados nos últimos jogos. Somos todos Tia Léa. Mas, a vida de quem torce para o Flamengo é tipo um...preciso não dormir até se consumar o tempo da gente. Um dia, a uma certa altura do campeonato, a vizinha quis “devolver o marido da Tia Léa” que já vivia em eterna lua de mel com o Flamengo, viajando com as torcidas, frequentando estádios, fazendo amor e sexo animal com o Mengão. Nós sabemos bem o que é isso. Tia Léa reuniu os filhos, mais uma vez, e decretou: “Ele é o pai de vocês. Não quero mais. Receber esse homem aqui é trair em “alto grau” o meu time. E isso eu não faço. Ele pode ficar, vocês que tomem conta, que eu vou continuar cuidando do MEU Flamengo.” Que Mulher.

Léa era o nome da minha vó paterna. Coisa do destino em preto e vermelho. A mãe do meu pai gerou um filho que esperava o trem chegar numa estação do Espírito Santo, levando o jornal com notícias velhas do Flamengo. O escudo. As bandeiras. As fotos do Flamengo estavam lá. Tia Léa tem nome de vozinha que ama neto e neta do Flamengo.

Em casa, fora dos estádios, Tia Léa via o jogo toda de Flamengo. Uma unha preta, outra vermelha. Com seu manto sagrado e um bandeirão para se esquentar. De Flamengo. Naquele dia foi convocada para a um jogo em Volta Redonda. Negou. Cansada, já sem forças, escolheu ver o jogo em casa. Amando o Flamengo devagar e urgentemente. Foi o último jogo dela. Envolta com as cores do Flamengo, aquecida pela bandeira rubro-negra, Tia Léa esperou o apito final do juiz e viu seu último jogo do Mengão. Tombou para o lado. E morreu.

Nesses 121 anos de história sigo amando o Flamengo com amor de Tia Léa. Com amor de Alvarenga, que viveu e me contou essa história, e de todos aqueles da Urubuzada que acolheram e amaram essa torcedora TODO SENTIMENTO. Eu vivi os 121 anos da história e das histórias do Flamengo. Como a dessa mulher casada com o Clube de Regatas do Flamengo. Eu vivi esse tempo de delicadeza. De cheirinhos. De sensações. De amor galático. De amor universal. De amor de Tia Léa. De amor de 11 leitores. Ou de um pouquinho mais. Eu vivi os 121 anos de um amor do tamanho da Torcida do Flamengo. Com TODO SENTIMENTO. E nas próximas rodadas, seja qual for o resultado, não diremos nada, nada aconteceu. Apenas seguiremos, Flamengo, como ENCANTADAS e ENCANTADOS…ao lado teu.

Para vocês,

Paz e Amor. De Tia Léa.

Vivi Mariano

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