Joia do Flamengo, Vinicius Jr. cresceu em área violenta do Rio.

Ao 10 anos, Cacau o levou para fazer um teste no Flamengo. Ele foi aprovado com rapidez.

Vinicius Júnior de boné e óculos escuro - Foto: Divulgação
FOLHA DE SÃO PAULO: Uma casa pequena numa rua de terra batida em uma das regiões mais violentas do Estado do Rio. Ali, no alto do bairro Portão do Rosa, o atacante Vinicius Júnior morou nos seus primeiros 15 anos de vida. Ele dividia a residência de quatro cômodos, localizada no fundo de um corredor, com os pais, os dois irmãos e os avós.

Contratado pelo Real Madrid por R$ 164 milhões em maio, a jovem promessa do Flamengo, de 16 anos, passou a infância numa das áreas mais pobres de São Gonçalo, município da região metropolitana do Rio.

Violência, carência e superação fazem parte da rotina dos moradores do bairro de Vinicius Júnior.

Lá perto, no Salgueiro, complexo de favelas considerado pela Polícia Civil como um dos bunkers do Comando Vermelho no Estado, foi onde o atacante deu os primeiros dribles.

"Não vale a pena ir lá fotografar. Vocês podem tomar um susto [por causa da presença ostensiva de traficantes]. Posso contar a história dele para vocês aqui", disse Vinícius José Paixão de Oliveira, 36, pai do jogador, logo após parar o carro importado vermelho e preto a pouco metros da porta da antiga casa da família.

Com a idade atual do filho famoso, o pai já estava esperando a chegada do primogênito. Vinicius Júnior é o 2º filho do casal.

A rua estreita e sem asfalto, que fica às margens da BR-101, era a área de lazer do garoto nos dias de folga.

"Desde bem pequeno o Vinícius já tinha uma vida com muitos compromissos, futebol, escola. Mas quando dava, brincava por aqui", lembra o pai.

O flamenguista foi o destaque da seleção na conquista do Sul-Americano sub-17, em março, no Chile. Depois da vitória, Barcelona e Real Madrid acirraram a disputa pelo futebol do adolescente.

No Portão do Rosa, Vinicius Júnior sempre foi tratado como craque. "Ele é nosso orgulho. Desde pequeno, já brincava com garotos grandes. Aqui sempre foi celeiro de bons jogadores, mas os meninos não conseguiam ir para frente. Chegou a nossa vez. O Vinicius vai fazer nossa comunidade ser conhecida no mundo todo", orgulha-se o barbeiro Ismael Francisco, 59.

MORTE DO AVÔ

O salão dele fica na avenida principal do bairro, próximo da esquina da rua onde ainda moram os familiares do atleta.

Francisco garante que cortou "muito o cabelo do Vinícius" e não esquece de um dos dramas da infância do atacante: a morte do avô, o caminhoneiro José Neves, numa enchente há cerca de dez anos.

"Ele era muito flamenguista. Quando vejo o sucesso do Vinicius, sempre lembro do seu avô. O velho estaria muito orgulhoso. A morte dele foi uma tragédia", conta o barbeiro.

"Ele desceu essa rua para comprar pão durante a chuvarada. A rua encheu rápido e a velocidade da água o jogou dentro de um canal. O corpo dele só foi aparecer na outra ponte. Como todos aqui, o menino sentiu muito", lembra Francisco.

No começo, Vinicius estudou em escolas públicas do bairro. Na Paulo Freire, ele ficou apenas um ano, mas se tornou "grande referência" para os alunos, segundo a coordenadora Rosângela Mendonça.

"Ele era criança calma, mas estava sempre pensando no futebol. Hoje, o Vinicius é usado como motivação aqui. Numa área conflituosa, estamos sempre tentando influenciar os alunos com exemplos positivos", diz
Rosângela, que coordena escola de quase 800 alunos, a maioria carentes. Discussões de alunos com professores é algo do cotidiano, segundo profissionais do colégio ouvidos pela Folha.

Com mais de 1 milhão de habitantes, São Gonçalo tem altos índices de violência.

Ainda bem pequeno, Vinícius chamou a atenção dos olheiros das peladas do bairro de trânsito confuso, com ruas de terra e casas simples. Aos 6 anos, foi selecionado para treinar na escolinha do Flamengo.

"O garoto já mostrava que seria muito bom. Os fundamentos dele eram perfeitos. Aos 8 anos, o Vinicius disputava campeonatos aqui contra meninos de dez e se destacava. Ele queima etapas desde pequeno", afirma Carlos Eduardo Abrantes, o Cacau, dono da escolinha do clube em São Gonçalo.

"Espantado" com o futebol do menino, ele não cobrou mensalidade de Vinicius. A taxa hoje é de cerca de R$ 100.

"Os pais dele viviam com humildade, mas tinham muita vontade de realizar o sonho do garoto. Tentei ajudá-los como pude", lembra Cacau, que também negociou bolsa integral para o menino estudar num dos melhores colégios da cidade.

Na escola, Vinicius continuou se destacando com a bola no pé. Ele conquistou mais de 20 títulos em torneios regionais. Na sala de aula, era um aluno mediano.

"O Vinícius sempre foi focado no futebol. Ele nunca foi um garoto nota dez, mas conseguia passar de ano. Ele sempre deixava claro que queria viver disso. Quando os professores cobravam mais atenção, ele respondia que seria jogador", diz o diretor da escola, Diego São Paio, 35, dando uma risada.

Ao 10 anos, Cacau o levou para fazer um teste no Flamengo. Ele foi aprovado com rapidez.

O problema seria enfrentar a maratona até o Ninho do Urubu (percorrer quase 150 kms por dia) e conciliar os estudos. Os pais conseguiram montar uma logística para o menino jogar no seu time de coração.
calmaria

A correria diminuiu há cerca de dois anos. Na época, ele foi morar na Piedade, subúrbio do Rio, na casa de um tio para ficar mais próximo do centro de treinamento do Flamengo. Mas as folgas sempre eram em São Gonçalo.

Atualmente, ele mora num confortável apartamento num bairro nobre próximo do clube.

"A família comprou a briga. Para arrumar mais dinheiro, o pai foi trabalhar em São Paulo. O Vinicius faz os seus gols no campo, mas o sucesso não viria sem a ajuda de parentes tão compromissados. Acho que o sacrifício está valendo a pena agora", afirma Cacau, que também receberá uma porcentagem da negociação milionária com o Real Madrid.

Nas negociações, o Flamengo repassa uma comissão para o proprietário do núcleo regional. A quantia é mantida em sigilo pelos envolvidos.

Apesar do negócio ter sido fechado em maio, Vinicius permanecerá no Flamengo por mais dois anos.

No acordo, o jogador terá seus direitos federativos transferidos ao Real a partir de julho de 2018 e ficará no time rubro-negro até julho de 2019.

"O sonho dele é fazer história no Flamengo. O Vinícius ainda quer jogar muito aqui, ganhar títulos antes de viajar para a Espanha", afirma o pai.

"Tudo está acontecendo tão rápido. Ainda nem pensamos o que a vida pode nos reservar", completou.

A NEGOCIAÇÃO

A negociação de Vinicius Júnior é a segunda maior da história do futebol brasileiro, atrás apenas de Neymar.

A derrota do Real Madrid na disputa com o Barcelona pelo ex-santista ajudou o Flamengo a fechar o negócio em R$ 164 milhões.

O adolescente de 16 anos foi sempre tratado como joia na Gávea. Desde os 11, era observado pelos dois clubes da Espanha.

Ele só despontou para os torcedores no início de 2017. Com quatro anos abaixo do limite de idade, ganhou os fãs com as boas exibições em janeiro, na Copa São Paulo.

Em março, ele se valorizou ao voltar do Chile com o troféu de campeão Sul-Americano sub-17 e os títulos de artilheiro e melhor jogador do torneio. Lá, Vinícius chamou a atenção com seus gols e belas jogadas, como a série de chapéus em três adversários na mesma jogada contra o Paraguai.

Vinicius foi testado pelo técnico Zé Ricardo na sexta (9) e pode ser titular do Flamengo na partida contra o Avaí neste domingo.



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