Marcinho Pitbull relembra passagem pelo Flamengo.

Passei 12 anos no Flamengo. A gente acha que vai estar ali para sempre. A mentalidade é que o Flamengo é mais um clube.

Foto: Reprodução/Facebook
GLOBO ESPORTE: Irreverente até no nome, Marcinho Pitbull guarda uma porção de histórias na bagagem. A maioria delas, contadas com muito bom humor e doses de nostalgia. O volante, atualmente na Portuguesa-RJ, inclusive, faz questão de não esconder a saudade do período em que surgiu na base do Flamengo e fez parte do grupo que faturou a Copa do Brasil pelo time principal em 2006. E narra a aventura vivida em Omã, país localizado na costa sudeste da Península Arábica, onde atualmente é uma "persona non grata", por conta de uma confusão de trânsito que se envolveu em 2014 e teve que chegar às vias, de fato, conforme o próprio revela em um bate-papo sobre a carreira com o GloboEsporte.com.

- Um cara me cortou na pista só que muito devagar, e eu fui buzinando desde longe. Ele não tirou o carro e eu tive que parar para ele sair. Eu abaixei o vidro e, como eu já sabia falar um pouco de inglês, perguntei se ele estava louco. Ele saiu do carro transtornado. O cara viu que eu era baixinho e já foi colando a testa na minha, me xingando em tudo que é língua possível. Eu estava com a minha ex-mulher e os meus dois filhos. Pensei: "Esse cara vai me apagar aqui". E lá eu não conhecia ninguém, se acontecesse alguma coisa comigo, eu não sei o que seria deles. Foi antes ele do que eu. Me xingou três vezes e eu acertei ele. Ai começou a briga na rua, e trocamos socos - relembra o jogador que, por lá, atuou pelo Al-Shabab Seeb e pelo Al-Musannah.

Nascido em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, Marcinho Pitubull, de 30 anos, começou a carreira nas categorias de base do Flamengo na mesma geração que revelou nomes como Renato Augusto, Egídio, Paulo Victor e Vinicius Pacheco, por exemplo. Chegou a receber oportunidades no time principal e, em 2006, fez parte do grupo rubro-negro que faturou a Copa do Brasil daquele ano sobre o rival Vasco. Apesar de ter recebido algumas chances, conviveu com erros, se equivocou nas escolhas e rodou: Macaé, Social, Botafogo-DF, Figueirense, Duque de Caxias, America-RJ, Crac-GO, Villa Nova-MG, além do futebol da Macedônia.

- Passei 12 anos no Flamengo. A gente acha que vai estar ali para sempre. A mentalidade é que o Flamengo é mais um clube. Por sermos criados ali, a camisa não pesa, estamos acostumados, mas ficamos vislumbrados. Eu pensava "caraca, tenho que conseguir algo melhor quando sair daqui". Não tínhamos essa dimensão do que era o clube - garante o jogador.

Longe das aventuras de outrora e atualmente na Portuguesa, da Ilha do Governador, que disputa a Série D do Brasileiro, Marcinho Pitbull já tem planos para o dia em que decidir pendurar as chuteiras. Tem feito curso atrás de curso para ser técnico de futebol. Recentemente, participou de uma palestra que é voltada para a discussão do futebol sob a perspectiva de quem trabalha com o esporte, e sonha com a vida na beira do campo.

- Estavam todos os treinadores que trabalhei e joguei contra. Eu fui o único jogador presente. Gostei muito, foi um aprendizado muito bacana. O Jorginho (atual técnico do Bahia) foi o palestrante e foi muito interessante. Abriu a minha mente. Aprendi com quem está no meio - declarou Marcinho Pitbull em entrevista que você confere abaixo na íntegra.

Subida aos profissionais

- Na minha época, eu peguei a geração do Renato Augusto, Paulo Victor, Vinícius Pacheco, Wiilian Amendoim, Egídio... O Renato Augusto já subiu no primeiro ano dele de juniores. Ele sempre gostou de treinar e detesta perder. É um cara de grupo. O moleque é bom, todo mundo gosta dele.

Título e erros no Flamengo

- Eu subi no final da Copa do Brasil, já estava acabando a competição, mas cheguei a jogar com o Ney Franco pelo Campeonato Brasileiro. Passei 12 anos no Flamengo. A gente acha que vai estar ali para sempre. A mentalidade é que o Flamengo é mais um clube. Por sermos criados ali, a camisa não pesa, estamos acostumados, mas ficamos vislumbrados. Eu pensava "caraca, tenho que conseguir algo melhor quando sair daqui". Não tínhamos essa dimensão do que era o clube.

Saída do Rubro-Negro

- Queria que tivesse sido diferente. Recebi algumas opções para sair por empréstimo, já que eu não estava jogando tanto. Eu era novo, com 20 anos, flamenguista doente. Não queria sair por empréstimo. O certo seria dar uma rodada, mas eu não queria isso. O meu empresário da época tinha me aconselhado a sair, ele conhecia os bastidores do clube. Mas eu não dei importância. Hoje em dia, não adianta só ter vontade, uma série de fatores que te fazem permanecer ou não em um clube. Não funciona da forma como eu imaginava. O meu mal foi esse. Por ter uma família flamenguista, queria ficar e mostrar o meu valor. Mas o meu contrato acabou e eu fiquei desempregado.

Escolhas erradas

- Eu me arrependo do que fiz quando era novo. Toda ação tem uma reação. Ao sair do Flamengo, a minha carreira foi prejudicada. Tomei atitudes que achava que eram certas. Eu queria bater de frente. Hoje, se tivesse que fazer diferente, eu faria. Sempre falo isso para a garotada. Temos que buscar fazer as escolhas certas.

Experiência em outras equipes do Brasil

- Como eu tinha passado muito tempo no Flamengo e jogado no profissional, achei que receberia boas propostas. Mas a verdade é que eu rodei por algumas equipes de menor expressão. Foi nessa época que rescindi com o meu antigo empresário e passei a trabalhar sozinho. Vivi um bom momento no Figueirense e conseguimos o acesso para a Série A. Era um timaço! Tinha o Maicon, que joga no São Paulo, o Willian Bigode, o goleiro Wilson...o time era ótimo em 2010.

Torcida pelo Rubro-Negro

- Hoje em dia, não acompanho tanto. A gente torce para o time que trabalha. Agora, sou Portuguesa. Meu sonho era jogar no Flamengo e, de certa forma, eu realizei isso. Já joguei em um Maracanã lotado. Gostaria de ter tido mais oportunidades, mas não aconteceu. Meu filho é flamenguista, quero muito que ele continue sendo quando crescer. Sinto um carinho grande pelo clube, mas já não sou tão torcedor assim. Acompanho mais as Séries B e C. É a minha realidade. Preciso acompanhar o mercado para aproveitar melhor as oportunidades.

Ida ao mundo árabe

- Na verdade, eu gostei do mundo árabe. Eu tive que me readaptar como jogador. Lá, todo mundo marca, todo mundo corre. E como não sou muito técnico, tive uma evolução muito boa. Mas no começo, foi doideira para se adaptar. Os primeiros seis meses foram muitos difíceis. Depois, quando troquei de clube, estava com tanta moral que virei até capitão. Levei minha família, estava como camisa 10, liderando o time. Tudo estava dando certo. Eu já estava adaptado ao país, mesmo com as dificuldades de alimentação, a religião diferente... Todo dia de manhã eu ia para a praia com a minha família. Era praticamente uma praia particular, o pessoal de lá não gosta de praia. Era tão perto de casa que eu nem levava passaporte.

Briga em Omã

- Um cara me cortou na pista só que muito devagar, e eu fui buzinando desde longe. Ele não tirou o carro e eu tive que parar para ele sair. Eu abaixei o vidro e, como eu já sabia falar um pouco de inglês, perguntei se ele estava louco. Ele saiu do carro transtornado. O cara viu que eu era baixinho e já foi colando a testa na minha, me xingando em tudo que é língua possível. Eu estava com a minha ex-mulher e os meus dois filhos. Pensei: "Esse cara vai me apagar aqui". E lá eu não conhecia ninguém, se acontecesse alguma coisa comigo, eu não sei o que seria deles. Foi antes ele do que eu. Me xingou três vezes e eu acertei ele. Ai começou a briga na rua, e trocamos socos.

Chegada à delegacia

- Chegou a polícia e eu disse que jogava no clube, mas estava sem os documentos. Fomos para a delegacia e eles só riam, mas eu sabia que ia dar problema. A primeira coisa que eles perguntaram foi qual era a minha religião. Eu disse que era cristão e eles já deram aquela risada de canto. Acabou o campeonato e, no dia da minha viagem, eu estava com o passaporte retido, não podia sair do país. Eu tinha que esperar a audiência. Fiquei mais um mês no país com as malas na sala, sem saber quando iria sair. Se o cara não retirasse a queixa ou entrasse em acordo com o clube, eu pegaria seis meses de prisão.

Persona non grata em Omã

- No dia da audiência, o cara disse que ia retirar a queixa e que queria que eu soubesse que, se ele não tirasse, eu ficaria preso. Causei um transtorno para o meu clube. Acho que eles gastaram um dinheirão no processo e eu acabei fechando essa porta. Mas isso acontece. Tinha tudo para dar certo no país. Nessa confusão, ou era ele ou era eu. Na época, eu achei que não fosse dar nada. Aqui, no Brasil, estamos acostumados. Lá, não é bem assim. Mas foi uma experiência bacana nesses dois anos e meio.

Curiosidades do país asiático

- A cultura lá é bem diferente. Aqui nós vamos à praia e vemos pessoas passeando com cachorro. Lá, eles levam touro para passear na praia. Dão banho de mar no touro e tudo. Cheguei para almoçar na casa dos caras e vi que os homens não se misturavam com as mulheres, era cada um para um canto. Na época, estava em meio a um período festivo, o Ramadã. Perguntaram se eu estava com fome e me levaram para o quintal. Do nada, me deram uma pá e começamos a cavar. Eu comecei a cavar pensando: "O que eu estou fazendo aqui?". Não sabia, né? Daqui a pouco a gente acha um papel daqueles de comida, do tipo que coloca no forno. Puxamos e saiu um carneiro debaixo da terra. O cara disse que estava há três dias no sol. Me deu um nojo do caramba de comer aquilo, mas até que era gostoso. Ah, e o homem de lá pode casar até com quatro mulheres.

    Perguntaram se eu estava com fome e me levaram para o quintal. Do nada, me deram uma pá e começamos a cavar. Daqui a pouco a gente acha um papel daqueles de comida, do tipo que coloca no forno. Puxamos e saiu um carneiro debaixo da terra. O cara disse que estava há três dias no sol.

Marcinho Pitbull "alienígina"

- Tinha umas situações esquisitas em Omã. Como eu sou todo tatuado, as pessoas me olhavam como se eu fosse um alienígina. Certa vez, fui ao mercado e um cara veio me perguntar se as minhas tatuagens eram de verdade. Eu disse que sim e ele começou a tocar nelas. Achei estranho, mas fiquei na minha. Depois ele apareceu com um sabão e ficou tentando lavar as minhas tatuagens para ver se saíam (risos). Quando eu andava com o meu filho nas ruas, as pessoas colocavam dinheiro no bolso dele. Até hoje eu não entendo isso. Mas já que davam dinheiro, eu comprava bala para o garoto (risos). Mas Omã é um ótimo lugar para se viver, é realmente muito tranquilo. Você pode sair e deixar o carro ligado que ninguém vai mexer.

Estudos e sonho em se tornar treinador

- Estou fazendo faculdade de educação física e pretendo me especializar como treinador. Já comecei a ir em palestras e quero tirar a Licença B da CBF. Tem tudo a ver comigo. Gosto de táticas e de trabalhar com pessoas. Pretendo finalizar a minha carreira com uns 35 anos e entrar firme nessa proposta. Participei da Footlink 2017 e estavam todos os treinadores que trabalhei e joguei contra. Eu fui o único jogador presente. Gostei muito, foi um aprendizado muito bacana. O Jorginho (atual técnico do Bahia) foi o palestrante e foi muito interessante. Abriu a minha mente. Aprendi com quem está no meio.


Marcadores:

Postar um comentário

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget