Mauro decreta o "fim" de jogadores como Márcio Araújo.

O Flamengo desenvolveu uma espécie de dependência espontânea de um "carregador de piano".

Márcio Araújo levantando pesos - Foto: Gilvan de Souza
ESPN: Quando o assunto é futebol, ainda lemos e ouvimos "coisas" que remetem ao passado. Não é preciso se tornar usuário de expressões como "triângulo de base alta" ou ser um adepto ortodoxo do dialeto tatiquês para entender que alguns conceitos ficaram lá atrás. E há tempos não se encaixam no futebol atualmente praticado.

Muletas como "alguém tem que carregar o piano", são apoiadas em ideias superadas, e favorecem jogadores ruins. Hoje todos carregam o tal piano, certamente mais pesado do que há algumas décadas, graças ao jogo muito físico, intenso, sem espaços generosos por onde um dia desfilaram craques e pernas-de-pau que para eles e por eles corriam.

Claro que no futebol nem todos se movimentam da mesma forma ou percorrem distâncias idênticas. Características, idades e funções decretam diferenças específicas. Mas na montagem de um time, fica cada vez menos aceitável estrutura-lo em função de um ou dois que "não correm" para que outros cumpram a quilometragem mínima por eles.

Obviamente há casos específicos nos quais alguém muito talentoso, realmente acima da média, veterano ou de perfil pouco participativo cria uma zona de conforto. O conjunto se adequa a tal elemento ao reconhecer seu poder de desequilíbrio dentro de um cotejo. E alguns se matam quando a pelota está com o adversário para o tal descansar, até que a mesma seja recuperada e o campeoníssimo volte a jogar.

Mas isso é cada vez mais raro. Não apenas pela dificuldade de se conseguir alguém de fato tão acima da média, como pela necessidade de participação coletiva. O que é comum, óbvio, rotineiro em vários países ainda é visto como tema de discussão no Brasil.

Importante na vitória sobre o Avaí, sábado, pela Série A, Nenê cumpriu função diferente do habitual. Não marcou alucinadamente como se fosse um desses pontinhas velozes, que "fecham o corredor", como dizem os "professores". Mas fez o lado esquerdo, fechando espaços sem a bola e abrindo-os na jogada decisiva em que serviu Yago Pikachu, lance do tento único da peleja.

O Vasco não gira mais em torno de seu veterano camisa 10. Nenê começa a contribuir jogando para o time, não mais o time para ele. Sequer precisa correr tanto quanto o volante Wellington, por exemplo. E aí entram as diferenças citadas, pelo perfil, idade e função em campo. Mas não cabe mais o jogador que age apenas quando sua equipe está com a bola.

O exemplo vascaíno, em fase de mutação, faz contraponto com o rival Flamengo, que desenvolveu uma espécie de dependência espontânea de um "carregador de piano". Márcio Araújo se sustenta como titular em função da rapidez e capacidade de recuperação na retomada da posse de bola, que muitas vezes ele mesmo perde, por sinal.

Jogadores com tal perfil vão ficando para trás a cada dia, pela dificuldade que apresentam quando a equipe está com a pelota. Fazem pouco com ela nos pés. Não sabem tocar o piano. E jamais aprenderão.

Não estranhemos ver até o pianista mais talentoso segurar uma das pernas do pesado instrumento para deixá-lo no melhor lugar. E é melhor assim do que o carregador cumprir quase solitariamente tal papel. E por tê-lo levado até lá no muque, sem ajuda do "músico", ganhar um lugar na orquestra para a qual não está qualificado.

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