O 'sobrenatural' salvou o Flamengo de seus próprios erros.

Arremate de Trauco; desvio consciente, certeiro, preciso, de Evaldo Monte. Ainda bem que era Fla-Flu.

Miguel Trauco chutando para empatar para o Flamengo contra o Fluminense - Foto: Alexandre Loureiro/Getty Images
ESPN FC: Por Marcos Almeida

Poderia estar para nascer jogo mais místico que o Fla-Flu, mas é 2017. Não dá para algo tão tardio superar um clássico surgido 40 minutos antes do nada, quando as multidões despertaram. Rivalidade que consagrou Sobrenatural de Almeida e faz todo flamenguista entrar em pânico quando Gravatinha é visto nos entornos do estádio. Encanto que ganhou traços de lenda nas crônicas do brilhante Nelson Rodrigues, tricolor ferrenho, mas mortal. Incapaz de se blindar completamente do deleite de ser Flamengo. Irmão de alguém que nunca desejou se esvair disso: Mário Filho, rubro-negro agraciado com o nome do Marcanã, palco sagrado das histórias de Flamengo e Fluminense.

No Maracanã – com valores de ingressos muito mais compatíveis com a realidade que os estabelecidos para a Ilha do Urubu –, novo capítulo da centenária história foi escrito. Com ares de Fla-Flu.

Fla-Flu que na maior parte das vezes dá Flamengo, mas nas mais decisivas tende a dar Fluminense. Fator que dá a eles o gosto de ter os 2 gols mais icônicos do clássico: Renato, em 95, e Assis, em 83; ambos próximos ao apito final. A nós, os tentos mais belos, ao apagar das luzes: chutaço de Leandro, em 85; dobradinha vitoriosa de Darío Bottinelli, mais recentemente, em 2011.

Se 2017 não tem sido um bom ano ao Flamengo, tem sido digníssimo para o Fla-Flu: 5 jogos, 3 vitórias rubro-negras, 2 empates. Um título a nós, uma taça a eles. 3 gols decisivos marcados nos acréscimos, todos pelo Flamengo. Arão aos 45’, Rodinei aos 50’ e agora Trauco, aos 49’. Na verdade, passe de Trauco para o ‘morrinho artilheiro’ concluir. Morrinho artilheiro que na época de Nelson Rodrigues se chamaria, quem sabe, Evaldo Monte.

Foi necessária a presença de Evaldo Monte para o nosso Flamengo não sair derrotado pelo Fluminense. Apenas 11 jogadores não dariam conta. Vimos uma pequena dose de acertos e grande repetição dos erros de sempre. Márcio Araújo, falta de criatividade, 2 volantes e 2 atacantes velozes, abertos para produzir uma tempestade de cruzamentos vazios. Guerrero enfiado, pouco participativo, mais escondido ainda por se tratar de clássico. A ciência exata de Zé Ricardo, que até tem mudado as peças, mas mostra-se irredutível à ideia de trocar uma Brasília-76 pelo carro do ano.

O Flamengo segue ultradependente de Diego, vai bem se ele vai bem. Diante da Ponte Preta, teve o contraponto na bela atuação de Vinícius Júnior – promessa de craque, é verdade, mas um garoto de 16 anos. Diego voltou de lesão há duas semanas, ainda não reencontrou o bom futebol. Consequentemente, o time continua mal. A falta de criatividade do ano passado hoje parece mais grave. Não há passe vertical, quebra de linha defensiva. As triangulações pelos lados – nossa principal arma – foram extintas.

O “Diego deles” funcionou. Dos pés de Gustavo Scarpa saíram os 2 gols do Fluminense. O segundo, difícil de evitar. Contra-ataque, Richarlison na corrida, pênalti, Henrique Dourado na cobrança. Thiago falou que estudaria o artilheiro e assim fez, exemplarmente. Foi bem na bola, chegou a tocá-la, mas o tricolor é realmente o melhor cobrador em atividade no Brasil. Já o primeiro gol foi uma catástrofe.

Começa com Guerrero, como sempre, perdendo a bola na área, quando ela cai para ele de costas para o gol. Contra-ataque e Márcio Araújo foi visionário: decidiu parar antes dos companheiros. Não acompanhou Wendel, que entrou sozinho. Aí toda a defesa rubro-negra congelou. Não ouviu um apito, não viu uma bandeira erguida. Apenas acreditou em Nelson Rodrigues, mas Sobrenatural de Almeida resolveu assistir ao clássico pelo pay-per-view. Segundo gol de Wendel como profissional, segundo gol de Wendel contra o Flamengo. Coisas do Fla-Flu.

Nossos gols foram fruto dos 2 acertos do Flamengo evidenciados no clássico. O primeiro deles: deixar Willian Arão no banco. Desde o meio do ano passado, o volante não desempenhava regularmente o futebol que o fez cair nas graças da torcida e imprensa. Barrado do time titular, precisaria entrar bem para recuperar a posição. Entrou, e foi o responsável pelo passe para Diego, que acabou em Éverton. O atacante estava impedido, em lance de difícil marcação. O centro das atenções não era ele, que “acidentalmente” ficou com a bola, segundos antes de Diego tocar para a rede.

O outro acerto foi criar oportunidades para Trauco bater de fora da área. O peruano é nosso melhor finalizador de longa distância. Teve 3 chances, levou perigo em todas. Na terceira, contou com Evaldo Monte para garantir um ponto ao Mengão, aos 49’ do segundo tempo. Aí o torcedor para pra pensar na razão pela qual ele nunca cobra faltas frontais. Toda vez que um canhoto vai para a bola, esse canhoto é Rafael Vaz.

Mania de Zé Ricardo, que tem se provado incapaz de fazer esse time evoluir. Muitos supõem que as “não derrotas” para Avaí e Fluminense o mantêm no cargo. Ao que parece, ele só segue no comando porque não há treinador em que valha a pena apostar, dentro ou fora do clube.

Com Zé Ricardo e os erros de sempre, o Flamengo se safou do pior no último suspiro, como em tantas vezes contra o Fluminense. Arremate de Trauco; desvio consciente, certeiro, preciso, de Evaldo Monte. Ainda bem que era Fla-Flu.

Marcadores:

Postar um comentário

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget