A diferença entre soma de talentos e a construção de um time

Num Flamengo de reforços recém-chegados, fazer a soma de Éverton Ribeiro, Diego e Guerrero resultar em time afinado é desafio.

Diego, Éverton Ribeiro e Diego após gol do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
CARLOS EDUARDO MANSUR: Eleito o melhor treinador de vôlei do Século XX, o argentino Julio Velasco, dono de uma mente privilegiada, é fonte em que até renomados técnicos de futebol bebem quando o tema é formação e gestão de equipes. É dele uma reflexão que fornece valiosas lições sobre instabilidades e pressões vividas nesta temporada por clubes do Rio.

Em entrevista à Fox Sports argentina, Velasco disse: “Dez Maradonas e um bom goleiro formam o melhor time possível? Não. Todos os grandes jogadores da história levavam na palma das mãos outros não tão bons quanto eles. Porque precisavam de quem corresse, passasse e os protegesse... Um time se faz com jogadores diferentes. E a diferença faz a equipe funcionar. No futebol, o peso da opinião pública é enorme ao perguntar: ‘Por que não joga esse?’. Agregar de qualquer maneira não funciona. Há papéis a desempenhar. O técnico distribui papéis. Que se complementam”.

Há um senso comum de que a simples reunião de talentos, quaisquer que sejam suas características, resulta no melhor time possível. Nem sempre é verdade. Também não é impossível, embora, por vezes, exija tempo, um bem precioso mas escasso no Brasil, com sua rotina de jogos em excesso, falta de treinos e trocas de elencos e treinadores. Camilo, que deixou o Botafogo, e Nenê, em vias de sair do Vasco, foram pivôs de debates do gênero.

A chegada de Montillo ao alvinegro criou um clamor, um decreto de que ele e Camilo tinham que coexistir obrigatoriamente num time adestrado para um jogo de marcação e contragolpe. Jair Ventura que se virasse. Sem tempo, o Botafogo nunca jogou bem com os dois juntos. Camilo tentou se adaptar a outra função, sofreu uma lesão, voltou à posição habitual, mas perdeu espaço no time.

No Vasco, Nenê era o jogador com mais recursos para solucionar jogos, apesar do peso de seus 36 anos. Milton Mendes tentou dosar seus minutos e preservar o físico para as horas-chave. Mas inaugurava-se a polêmica: era preciso acomodá-lo junto a Luís Fabiano num time que carecia de vigor e formado com a temporada em andamento. Iniciando como reserva, Nenê teve bons momentos, como no clássico com o Fluminense. Escalado de início e numa desgastante função pela ponta, sentiu.

Num Flamengo de reforços recém-chegados, fazer a soma de Éverton Ribeiro, Diego e Guerrero resultar em time afinado é desafio ainda não cumprido. Pesam a falta de treinos e de entendimento com Éverton Ribeiro, este vindo de um calendário e uma realidade competitiva muito distintas no Oriente Médio. O que não arrefece é a pressão: aos olhos do público, tal soma de talentos precisa resultar em vitória imediatamente.

Já a polêmica escalação de Márcio Araújo, que contribui pouco para um jogo de troca de passes, é justificada por Zé Ricardo, entre outros argumentos, pela tal complementaridade de que fala Velasco: dar sustentação a Diego e Éverton Ribeiro.

Amanhã, o Fluminense enfrentará um líder do Brasileiro que não tem a mais generosa soma de talentos individuais. Mas tem a força coletiva. E a estabilidade de um time montado desde janeiro.

Vaidade e desapego

Mas não é só a opinião pública. Atletas também têm dificuldade de lidar com os papéis a eles atribuídos num time — em especial, quando deixam de ser protagonistas. Pode ser obra da vaidade ou mera consequência de um futebol que se habituou a resolver todo tipo de problema no mercado de transferências. Doze meses ao ano.

A falta de cerimônia com que os vínculos de Camilo e Nenê com seus clubes foram rompidos é parte da rotina do futebol brasileiro. A porta de entrada ou de saída é solução para qualquer instabilidade ou melindre. E a ciranda de jogadores parece interminável.

A permissividade dos regulamentos, que criam uma janela sempre aberta no país, viciaram clubes e jogadores, condicionaram atitudes. Há menos cuidado na formação dos elencos, diante da certeza de que não é difícil encaixar, em qualquer rival, aquela peça que pareceu não funcionar à primeira vista. Uma tentativa e erro. E há cada vez menos apego dos jogadores aos contratos: são rompidos de forma tão natural quanto são assinados.


Histórias de recuperação, de redenção junto a uma torcida, são cada vez mais raras. Talvez seja a forma de o futebol refletir a ansiosa relação que hoje temos com o tempo. Nunca há tempo, apenas pressa: do dirigente, da torcida, do jogador. Tudo é para ontem nesta era de intolerância, que a cada semana faz saírem de campo, sob uma saraivada de ofensas, ameaças e agressões, clubes de Norte a Sul: ABC, Internacional, Palmeiras, Flamengo... É preciso vencer rápido, embora fazer um time vencedor leve tempo. E no futebol e na vida de hoje, nunca há tempo.

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