A louca noite em que o Flamengo redescobriu a América.

Mas num mundo em que Rafael Vaz faz um gol pelo Flamengo eu acho nada mais do que justo acreditar que tudo é sim possível.

Foto oficial do time do Flamengo que enfrentou o Palestino na Sul-Americana 2017 - Foto: Staff Image
ESPN FC: Por João Luis Jr.

Como dizia a sábia letra de um pagode, certas coisas são “pra sentir, não pra entender”. E o mesmo pode ser dito da partida de ontem em que o Flamengo, fora de casa, abriu o placar contra o Palestino, apenas para levar uma virada e aí então aplicar uma sonora goleada, que permitiu que a formação mista da nossa equipe trouxesse de volta para o Brasil uma vantagem de três gols.

Como racionalizar uma partida em que Leandro Damião faz um golaço de letra tão plástico que conseguiu girar o corpo ainda a tempo de ver a bola que ele chutou batendo nas redes? Como explicar uma noite em que você olhava para a escalação do Flamengo e não via Márcio Araújo entre os titulares e nem mesmo no banco, o que talvez tenha levado Zé Ricardo a carregar uma foto de nosso volante em sua carteira para não sofrer de abstinência? Como descrever para seus filhos pequenos a emoção de ver Rafael Vaz não apenas fazendo um gol como não sendo contra e não desencadeando o apocalipse, que é o que a maior parte de nós esperava que fosse acontecer se algum dia o nosso zagueiro finalmente acertasse uma jogada ofensiva?

Na jornada louca vivida no Chile, o Flamengo levou o torcedor da irritação com o jogo morno até a alegria pela vantagem no placar, seguido do terror de viver novamente uma virada bizarra diante de um time estrangeiro, para só então resolver o jogo e criar um placar que, visto de longe, reflete sim a superioridade da equipe rubro-negra, mas não os momentos de suspense, tensão e confusão vividos pelo torcedor, que está até agora tentando, por exemplo, entender todas as coisas que Berrío chutou na jogada do segundo gol, incluindo desde a bola até a grama, adversários e talvez colegas de trabalho.

Mas ainda assim, mesmo com o placar dilatado, o Flamengo deu apenas um dos passos que ainda precisa não só diante da classificação como também se quer mesmo conquistar essa Copa Sul-Americana. Afinal, como todo bom flamenguista sabe, se tem uma coisa que o Flamengo não sabe lidar é vantagem, se tem um tipo de vantagem que ele não sabe lidar é contra time estrangeiro, se tem um tipo de vantagem que ele não sabe lidar contra time estrangeiro é aquela que permite decidir dentro de casa. Flamengo combina com luta, dedicação, coragem, suor e jamais com salto alto, e todas as vezes em que tentamos essa combinação tivemos resultados não apenas negativos como traumatizantes e que fazem esses filmes de terror envolvendo cabanas terem um significado duplamente assustador para todos nós.

Outro motivo, e que talvez sirva para manter os pés no chão mesmo após a goleada, é a clara fragilidade da equipe do Palestino, que parecia ser composta basicamente por um misto de jogadores cansados demais para sair do clube ou jovens demais para poderem desobedecer suas mães e procurar alguma outra coisa pra fazer na noite de ontem, e ainda assim fomos capazes de sofrer dois gols dos caras, em falhas que não podem se repetir contra times cujos titulares já puderem votar ou tirar carteira de motorista.

Ainda assim, é merecida a comemoração pela goleada. Não só pela vantagem que ela oferece, o que garante uma certa tranquilidade ao Flamengo, como também pela oportunidade de rodar a equipe, dando ritmo de jogo para atletas que estavam na reserva ou precisam ainda atuar mais, além de elevar a confiança do time para o clássico contra o Vasco, sábado, mais uma etapa importante da caminhada rubro-negra no Campeonato Brasileiro.

Após uma despedida traumática o Flamengo reencontrou a América e ficou claro que, se a equipe souber se comportar, o continente não é tão assustador quanto parecia e pode ser dessa campanha que virão as lições para um futuro título da Libertadores. Parece um pouco precipitado? Talvez. Mas num mundo em que Rafael Vaz faz um gol pelo Flamengo eu acho nada mais do que justo acreditar que tudo é sim possível.

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