Com Caetano, Flamengo gasta quase 1/3 do Palmeiras em reforços

Mostra um pouco das diferentes personalidades da dupla com os cofres mais robustos do futebol brasileiro por mais um ano.

Rodrigo Caetano, diretor executivo de Futebol do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
GLOBO ESPORTE: Entre as entrevistas e conversas para a construção de um perfil de Rodrigo Caetano, diretor executivo do Flamengo, e Alexandre Mattos, do Palmeiras, um dos interlocutores tentou simplificar da seguinte maneira as diferenças entre mais dois personagens do confronto Flamengo x Palmeiras, nesta noite de quarta-feira, às 21h45, na Ilha do Urubu.

- O Alexandre é assim. Ele te procura, fala que está interessado no jogador e diz: "O que precisa para fechar?" O Rodrigo chega e fala: "Eu tenho isso. E aí?"

A sentença é superficial, não leva em conta as diferenças de governança de um clube e outro - nem a diferença de milhões investidos na montagem dos elencos (veja o gráfico abaixo), mas mostra um pouco das diferentes personalidades da dupla com os cofres mais robustos do futebol brasileiro por mais um ano.

O GloboEsporte.com traça abaixo um perfil dos dois dirigentes, que se consolidaram nos últimos anos como principais nomes no mercado de diretores de futebol.


O gaúcho brabo e o mineiro louco

Você conhece alguém que não use Whatsapp? Prazer, Rodrigo Caetano. Com pavio muitas vezes curto - principalmente quando alguma coisa não sai do jeito que tenta alinhar ou nas reações em derrotas -, o dirigente, que costuma se admitir "chato mesmo", compensa a falta do aplicativo com quase 24h de segunda a segunda trocando SMS, e-mails e pendurado no telefone, entre salas de reunião, treinos, hotéis e aeroportos.

- Se eu tiver um negócio desses não consigo trabalhar - costuma dizer para quem lhe pergunta por que não baixa o Whatsapp.

Amigo de Caetano e com bom relacionamento com Alexandre Mattos, Newton Drumond, o Chumbinho, ex-dirigente do Internacional, diferencia de maneira sutil os dois executivos.

- O Alexandre é aquele cara que parece que não perde negócio. Ele está indo ali contratar um atacante, mas se perceber que tem um lateral também não perde a viagem. O Rodrigo é mais pontual. Por exemplo, ele queria um zagueiro, pegou o Rhodolfo. O Conca não deu muito certo, foi atrás do Éverton Ribeiro - avalia Chumbinho.

"Agressivo" em negociações. É assim que muitos tratam de Alexandre Mattos, o dirigente de ascensão fulminante, que coleciona títulos (tricampeão brasileiro, com dois pelo Cruzeiro, um pelo Palmeiras, além da Copa do Brasil com o clube paulista) e foi eleito o melhor executivo do futebol nacional nos últimos quatro anos.

Desde 2015, ele contratou 53 jogadores para o Palmeiras – no mesmo período no Flamengo, Caetano trouxe 39 atletas. No Cruzeiro, Mattos também imprimiu ritmo forte de chegadas – e também de saídas, como gosta de lembrar, fazendo a "roda girar".

Se o ex-meio-campista Rodrigo Caetano, formado em gestão empresarial pela FGV, começou a carreira fora de campo no RS, clube de futebol de Paulo Cesar Carpegiani, aos 33 anos, Alexandre Mattos se tornou executivo ainda mais cedo.

Sem sucesso na tentativa de infância de jogar bola, o mineiro partiu para a área acadêmica. Em 2005, aos 29 anos, depois de estudar Educação Física e Administração e se especializar em Gestão Estratégica em Esportes pela FGV, foi contratado como estagiário no América-MG. Subiu de cargo (chegou a ser assessor da presidência) até sair no final de 2011 para o Cruzeiro. Na época de pouca grana, o oposto do que vive hoje, acostumou-se a soluções criativas.

- O América vivia um momento muito complicado, com dívidas trabalhistas imensas. O Alexandre aprendeu a lidar com isso, negociando salários pequenos, lidando com familiares. De vez em quando, ele falava: "Presidente, esse rapaz eu trago, no salário que você quer, mas preciso que você arrume emprego para o pai ou irmão do jogador no hospital" - conta o ex-presidente do clube mineiro, Antonio Baltazar, que já presidia também o Hospital na Residência em Belo Horizonte.

Mattos mais dócil; Caetano nem tanto

Falecido no fim do ano passado no voo da Chapecoense, Mário Sérgio Pontes de Paiva foi outro craque a levantar Caetano no início da carreira. Quando deixou o Grêmio para voltar a trabalhar na TV, disse a Paulo Pelaipe, então dirigente amador, e a outros no Tricolor gaúcho, que não precisava contratar ninguém para comandar o futebol.

- Carpegiani me referendou ao Mário Sérgio, que depois me indicou para continuar. Tinha 35 anos. O Grêmio tinha caído em 2004, era um momento de reestruturação. Aprendi muito ali, com Pelaipe, com outros - lembra Caetano.

Caetano e Mattos tiveram relação estremecida nos últimos anos – principalmente com a guerra de nervos da disputa de título no ano passado. Mas se respeitam. Cícero Souza, gerente de futebol do Palmeiras, é vice-presidente da Abex, associação de executivos de futebol presidida por Caetano. No dia a dia, Mattos é considerado mais dócil, contam pessoas que já negociaram com os dois dirigentes. Principalmente quando perdem alguma disputa em negociação.

- É do estilo do Mattos. Mineiro, né. Aceita melhor. O Rodrigo fica brabo, dá murro na mesa até - conta um dos empresários que preferiu não se identificar à reportagem.

Fase instável põe dupla no alvo da política dos clubes

Com orçamento mais limitado, Caetano também alimenta a fama de pão-duro. Se for preciso espera dias, semanas, até meses. Ele estica a corda ao máximo e aumenta pouco a proposta. Foi assim que agiu quando iniciou namoro por Éverton Ribeiro numa janela e fechou na outra, quando os árabes finalmente se dispuseram a negociar. Caetano passou uma semana nos Emirados Árabes.

- Ele é bem direto. Quando falamos do jogador, ele disse: "Interessa. Mas tem que baixar esse preço". Ele pechincha o máximo possível - conta outro agente.

No contato com a imprensa os dois se assemelham, com reclamações pontuais e diretas a jornalistas. Com os títulos no Palmeiras e o ritmo impressionante de contratações, Mattos virou garoto-propaganda do comercial de sócio-torcedor do clube, ganhou memes - como o "vou te contratei" - e passou a ser chamado de Mittos.

Caetano teve fase de maior reconhecimento nos tempos de Vasco, quando montou o time campeão da Copa do Brasil em tempos de vacas magras e salários constantemente atrasados em São Januário. A renovação de contrato na gestão Dinamite teve direito a coletiva de imprensa e camisa de jogador entregue em suas mãos.

Apesar dos altos investimentos - e de mais duas contratações recentes (Diego Alves, no Fla, e Deyverson, no Palestra), a dupla enfrenta problemas diferentes. A eliminação do Rubro-Negro na Libertadores atingiu o clube todo, com novos pedidos de mudanças no futebol - como nos cartazes em Florianópolis, com viés político contra Bandeira e Rodrigo Caetano.

Mattos é alvo de conselheiros e ex-dirigentes do Palmeiras por ser considerado "gastador". Mas não se intimida e põe sua vontade nas tratativas, com carta branca e liberdade bem maior concedida pela diretoria palmeirense. Foi assim que viajou até a Colômbia para negociar por Borja, fechou com Barrios na Copa América do Chile e até foi à Europa frear saídas de jogadores nas janelas - sem falar nos voos com o jatinho de Paulo Nobre, ex-presidente, para dar suporte a Gabriel Jesus no retorno da Seleção.

- Quando tentei o Mina, o tio dele disse que eu era louco, que o sobrinho dele iria jogar no futebol europeu. Eu disse para ele: 'louco é você de perder (a oportunidade de ir para o Palmeiras)'. Hoje, ele (Mina) está amando isso aqui – contou Mattos, na semana passada.

Bons vendedores

Embora sejam marcados - e chamem mais atenção - pelo número de contratações, os dois executivos usam o poder de persuasão no caminho inverso. Em 2016, Mattos e a diretoria alviverde fecharam a maior venda da história do Palmeiras ao negociar o atacante Gabriel Jesus com o Manchester City por 32,75 milhões de euros (cerca de R$ 121,1 milhões). Neste ano, Caetano e a cúpula rubro-negra acertaram a venda de Vinícius Junior ao Real Madrid por 45 milhões de euros (R$ 164 milhões). Em ambos os casos, a saída não foi imediata.


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