Derrota e classificação com a cara desse Flamengo

Esse Flamengo é o Flamengo de Bandeira, que não cobra Zé, que escala Muralha e Vaz, que colocaram tudo por água abaixo.

Rafael Vaz comemorando vitória do Flamengo - Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press
ESPN FC: Por Marcos Almeida

San Lorenzo, Atlético-GO, Santos. Por 3 vezes, o Flamengo decidiu seu futuro em um campeonato maior do que o Carioca, em 2017. Em todas, deixou o torcedor transtornado. A não ser que um surto de inconformidade tome a Gávea, terminaremos o ano no marasmo. Porque esse Flamengo é fadado ao fracasso.

A boa notícia – talvez a única – trazida na quarta-feira, é que começa a aparecer quem queira mudar a aura negativa do atual Flamengo. O mais disposto é Orlando Berrío. O colombiano chegou parecendo não entender nada de futebol; hoje compreende a coisa mais importante dele: sabe o que é Flamengo. A toda partida, Berrío demonstra uma vontade absurda de vencer. Bate no peito, chama a torcida. Forte, desengonçado, tropeça na bola, faz jogada de craque. Dá o sangue em campo. Folclórico e raçudo, do jeito que a Nação gosta, do jeito que o Flamengo precisa.

Dos pés dele, após bom passe de Diego, nasceu o 1 a 0, que só virou 1 a 1 em chute de extrema felicidade de Bruno Henrique. O Mengo controlava o jogo, e ainda agredia, como pouco tem conseguido fazer. Esse Flamengo das hashtags, que acha que todo vexame pode ser superado com uma nova contratação, tem em Éverton seu melhor jogador. Um cara que está desde 2014, que esteve no hexacampeonato, e que entende melhor que os companheiros como isso funciona – ou como deveria funcionar. Grande jogada dele, Guerrero na rede. 2 a 1 com menos de um minuto do segundo tempo.

O oba-oba acompanha o Flamengo em quase todas as suas caminhadas, mas costuma dar as caras apenas diante de clubes estrangeiros, ou de pouca expressão. Não era para aparecer contra o Santos. Só que, na vida, a gente dá um jeito para tudo. Rafael Vaz resolveu dar o dele. Armou um escanteio inexplicável ao adversário, e aí o oba-oba não perdoa. Tamanha era a liberdade de Copete, no lance, que ele poderia deitar no chão, se quisesse. Ainda seria gol, já que Ricardo Oliveira aparecia atrás, tão livre quanto. O santista nem cabeceou tão bem, mas pouco importava. Ali estava Alex Muralha para se despedir, para sempre, da titularidade, fazendo jus ao que o levou à reserva.

2 a 2, aos 8 minutos, não representava grande ameaça. Faltava tomar mais um gol pra fazer inúmeros filmes de tragédia passarem pela cabeça do torcedor. Assunto resolvido em um piscar de olhos. O Flamengo desistiu de duas bolas no mesmo lance, Pará estacionou e um lateral cobrado na área garantiu a emoção da qual não precisávamos. 9 minutos, 3 a 2.

60 segundos, 2 gols inconcebíveis sofridos. Lembra da boa notícia? Chegou aos ouvidos de todos via Eric Faria, repórter da TV Globo.

Parte do grupo não admitiu o oba-oba, não se conformou com a falta de noção de Rafael Vaz. Éverton, o mais experiente rubro-negro, foi cobrar no banco de reservas, assim como Pará fez depois:

Rafael Vaz tem culpa por se achar gênio da bola, não por jogar mal. Muito menos por entrar em campo. Quem dá a oportunidade é Zé Ricardo, que insiste em uma série de erros irremediáveis. Não existe argumento para justificar a escalação de Rafael Vaz, nem da nossa dupla de volantes. Sou dos que acham Thiago tão ruim quanto Alex Muralha, mas não há razão para trocar o goleiro que vinha tomando gols defensáveis por um que falha duas vezes por jogo.

É óbvio que Muralha falharia a segunda. É óbvio que falharia junto com Rafael Vaz. É óbvio que Gabriel estaria em campo para acompanhar de camarote o quarto gol do Santos. É esse o Flamengo de Zé Ricardo, o #Flamengo2017, o 'Mengão Ostentação'.

No agregado, terminou 4 a 4; avançamos pelos gols marcados fora de casa. Vencíamos por 4 a 1, com a vantagem do gol qualificado, até os 7 minutos do segundo tempo. Quase fomos eliminados. Não há o que comemorar, a não ser que você seja Zé Ricardo. O treinador viu justiça na classificação, viu merecimento. Viu até uma boa partida de Alex Muralha, que falhou em ‘apenas’ 50% dos gols do Santos no confronto.

Zé Ricardo é o Leandro Damião da prancheta. Início de carreira promissor, trajetória dificultada pela incapacidade de compreensão. Se Damião crê que o gol do 5 a 0 sobre o Bonsucesso tem o mesmo peso do que decide um campeonato, Zé Ricardo acredita que todo ser humano é capaz de reproduzir em um estádio lotado o que faz no treinamento. Muralha jogou porque treinou bem, Rafael Vaz cobra falta – imagino eu – porque deve ser uma espécie de Zico canhoto no Ninho do Urubu. A bicicleta vazia de Leandro Damião é a entrevista coletiva de Zé Ricardo, achando sempre que quase tudo está bom, pautando todas as coisas pela “evolução” do time. Logicamente, evoluir é válido, mas o objetivo do Flamengo jamais pode ser “melhorar”. Melhorar é a consequência de quem tem como principal ambição vencer.

Zé Ricardo não está sozinho. Tem o respaldo de Eduardo Bandeira de Mello, organizador do departamento de futebol que forma com 'estratégia ímpar' o elenco do Flamengo. Que montou para o ano passado um time sem zagueiro reserva. Com a lesão de Juan, trouxe César Martins do afastamento à equipe titular. Às pressas, contratou Réver e Rafael Vaz, e botou fé que essa seria a dupla de zaga ideal para conquistar a Libertadores, resguardada por Alex Muralha. Para a reserva do gol, Thiago e Gabriel Batista, dois garotos que ingressaram 2017 com a mesma quantidade de partidas profissionais que o blogueiro, que aqui escreve: nenhuma.

Estava 2 a 1, na Vila Belmiro. Era para o time ter se imposto, avançado com tranquilidade, criado possibilidade de embalar. Mas não. Esse Flamengo é o Flamengo de Bandeira, que não cobra Zé, que escala Muralha e Vaz, que colocaram tudo por água abaixo.

Poderíamos enfrentar o líder Corinthians confiantes, vamos combalidos. Na Copa do Brasil, teremos pela frente o admirável Botafogo, que honra cada poro de seus torcedores a toda partida que disputa.

Sorte nossa que ainda há Copa do Brasil. Sorte que o tempo do futebol é disputado do minuto 0 ao 45, mais acréscimos. Se fosse do 1 ao 46, estaríamos eliminados.


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