Ederson, meu pai e o conceito de Família

Falo do Flamengo porque é o meu time, mas este sentimento de pertencimento é típico da torcida por um clube de futebol.

Foto: Divulgação
PEDRO MIGÃO: A foto ao lado relembra um dos dias mais felizes de minha vida esportiva: o dia em que trouxe meu pai pela primeira vez ao “novo” Maracanã, reconstruído para a Copa do Mundo de 2014. Como se não bastasse, era 12 de agosto de 2015, dia em que ele completava 64 anos.

Foi ele quem me introduziu ao chamado “rubronegrismo”. Obviamente, sendo criança e pré adolescente justamente nos anos mais vitoriosos da história do clube, ficou mais fácil tomar o vermelho e preto (e o amarelo e azul, mas isto é assunto para depois) como minhas cores. Entranhadas na alma.

E, de certa forma, o clube que adotamos para torcer se torna uma espécie de segunda família. Torcemos, vibramos, acompanhamos o dia a dia quase com o mesmo interesse que acompanhamos nossa família de sangue. Havia um ditado antigo que dizia “onde encontrares um Flamengo, encontrarás um amigo” e é a pura verdade.

Falo do Flamengo porque é o meu time, mas este sentimento de pertencimento é típico da torcida por um clube de futebol. Ou por uma escola de samba. Ainda que em tempos modernos, de paixões difusas.

Aquele 12 de agosto de 2015, em tempos onde a prioridade do clube ainda era quase que exclusivamente o pagamento de dívidas, trazia a estreia do jogador que era, ao lado de Guerrero, a grande contratação daquela janela de transferências: o meia Ederson.

Vindo da Lazio, era pouco conhecido no Brasil, mas sabia que era bom jogador por (não ria, leitor, por favor) já tê-lo comandado no Football Manager. Ganhara a mitológica camisa 10, como símbolo do “novo” Flamengo que se avizinhava.

Naquele 3 a 2 daquela noite de quarta feira, Ederson jogou durante 56 minutos, sendo substituído por Kayke. Participou dos lances de dois gols (inclusive sofrendo a falta que resultou no terceiro) e, dada a inatividade, teve uma boa atuação. Eu me recordo de tê-lo elogiado a meu pai ao final do jogo, ele ranzinza achando que era pouco.

Voltamos felizes para casa e a vida seguiu. Ederson sofreu duas contusões sérias de lá para cá, viu novos jogadores chegarem e assumirem o protagonismo em um momento onde há mais recursos para se investir, mas em nenhum momento esmoreceu. Estava novamente à disposição e, mesmo pouco utilizado, seguia um jogador de grupo.

Até o diagnóstico revelado hoje. De um tumor nos testículos, que demandará cirurgia e possível tratamento posterior. Mais uma provação em sua carreira, mas sabemos que somente temos o que podemos suportar; nem mais, nem menos. Logo, se Deus quiser, estará de volta aos treinos e partidas – embora o mais importante seja sua saúde.

E a maneira como todos sentimos o anúncio reforça exatamente o que escrevi acima sobre o pertencimento: todas as reações que vi em redes sociais foram de tristeza quase como se estivesse acontecendo com um membro da família. Mesmo que ele não saiba quem é Pedro, Paulo, Nívea, Marcelo, Bruno, André, Tatiana, Karol e tantos outros, estes sentiram como se fosse alguém íntimo.

Certamente, também será este o espírito do elenco a partir de agora: vencer por ele, pelo membro da família que está em licença médica. Correr por ele, ganhar por ele. Por ele e por todos nós.

O esporte é uma família, o futebol é uma família, o Flamengo é uma família. E com o pensamento positivo de todos nós, tudo vai ficar bem. Volte logo, Ederson!

P.S. – Infelizmente perdi na noite de ontem, após longa enfermidade, um dos professores que mais me auxiliaram em minha trajetória no Colégio Pedro II. Descanse em paz, Paulão.



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