Flamengo, quem quer ser campeão tem de ganhar jogo grande

Mas, convenhamos: para haver um Flamengo vencedor, antes de vencedor é preciso ser Flamengo.

Everton, do Flamengo, se lamentando - Foto: Buda Mendes/Getty Images
ESPN FC: Por João Luis Jr.

Muitos colocarão na conta da arbitragem, que deixou Guerrero apanhar e marcou 315 faltas de ataque do peruano. Não marcou as duas que sofreu de Mina, nos lances que originaram os gols deles. Talvez informado de algo, no intervalo, Jailson Macêdo Freitas compensou amarelando 9 palmeirenses – 8 no segundo tempo –, deixando 5 fora da próxima rodada. Assim ambos os lados teriam do que reclamar. Acertou ao apitar penalidade máxima a nosso favor.

Aparecem, então, os que responsabilizam o azar, o pênalti perdido. Mesmo azar que nos impediu de pontuar nas duas “boas” partidas que jogamos fora de casa, na Libertadores. E que faz nossos corações sangrarem até hoje com o gol do San Lorenzo, no último minuto; e do Atlético-PR, no penúltimo. Fraco time, capaz de realizar o que nosso Flamengo não conseguiu.

Aí surgem aqueles que, como eu, culpam a aura desse Flamengo. Uma equipe que aceita todo e qualquer resultado adverso, que engole facilmente o revés, que já tem pronta a desculpa para o fracasso antes mesmo de a partida começar. O “Flamengo ostentação”: do twitter descolado, dos jogadores badalados, de Eduardo Bandeira de Mello, de Zé Ricardo.

“Você entrar em uma competição e ser campeão é uma coisa. Entrar em uma competição com a pressão de ser campeão é outra coisa.”

Proferida após o empate com o Cruzeiro, domingo, a frase de Zé Ricardo diz muito sobre o atual Flamengo. Um clube não apenas sem preparo para lidar com a pressão, mas que sequer compreende a pressão que existe sobre o Flamengo. Um clube despreocupado com o hoje, pois haverá o amanhã; despreocupado com o amanhã, pois haverá o depois de amanhã. Que acha que reparar os erros de janeiro em julho está de bom tamanho, que não entende o tamanho do vexame de ser eliminado pela terceira vez seguida na fase de grupos da Libertadores da América.

Zé Ricardo é o espelho de Eduardo Bandeira de Mello, seu fiel defensor. E a aura dos dois reflete na equipe do Flamengo. Grupo de inegável talento, mas incapaz de despertar o chamado “algo a mais”. Não basta vontade de vencer, é preciso ter alma de vencedor. Enquanto houver o espírito de que o dinheiro será capaz de comprar tudo, pode trazer o Messi que o Flamengo continuará sendo o time do empate.

Isso aqui não é uma ode à filosofia “Flamengo é bagunça”, tampouco defesa de más administrações financeiras, que afundam o clube em dívidas por meio de loucuras imediatistas. A mentalidade de Bayern de Munique pode sim trazer excelentes frutos, mas é necessária a alma de Flamengo.

Flamengo tem folclore, perna de pau iluminado, jogador que dá carrinho de cabeça. Pode trazer um ou outro de fora, mas craque do Flamengo se revela craque justamente ao vestir rubro-negro. Flamengo é alegria que não se compra, não se vende, não se paga. Flamengo é preto e branco, rico e pobre, vovô e garoto. Flamengo é time grande. Gigante.

O Flamengo de hoje tem pouco disso. Vive uma realidade europeia na América do Sul. Há muito a se importar de lá, é verdade, mas que país da Europa tem 12 times considerados grandes? Que campeonato europeu começa com, no mínimo, 5 reais candidatos ao título?

No Brasil não basta ser grande. Aqui, querer vencer é pouco. Se a vitória, a taça, não veio hoje, não adianta somente esperar por uma nova chance. Enquanto um aguarda pela manifestação da própria grandeza, outros vêm exercendo a grandeza deles. E aí a gente esbarra em um ponto crucial que nos distancia do título nesse ano, como fez no ano passado: o Flamengo tem imensa dificuldade de derrotar times grandes.

No Brasileiro de 2016, vencemos 7 das 20 partidas contra grandes. Perdemos 5, empatamos 8. Bom para quem quer ir para a Libertadores, pouco para quem almeja ser campeão.

Já na edição desse ano, disputamos 8 jogos. Perdemos 1, empatamos 5 e vencemos apenas Vasco e São Paulo. 2 clubes grandes pela história, mas que hoje possuem times fracos. Ainda demos a sorte de não sairmos derrotados por Fluminense e Cruzeiro.

Ó só. Logo eu, que desdenhei do azar, falando em sorte. Confesso que acredito em ambos, assim como creio que a arbitragem nos prejudicou no jogo de ontem. Mas, convenhamos: para haver um Flamengo vencedor, antes de vencedor é preciso ser Flamengo.


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