0 x 0 para dormir

Pegue o jogo de ontem, entre Botafogo e Flamengo. Noventa por cento dos que tentaram assisti-lo acordados só resistiram, com muito esforço.

Diego em Botafogo x Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
GLOBO ESPORTE: Eu sei, a crise não é de hoje, e só consegue piorar. Por causa dela, você está ansioso, dormindo mal, e só falta sair por aí chutando baldes. E, como o problema é geral, algumas das maiores atrações atualmente das farmácias são os remédios para a ansiedade e a insônia --- os ansiolíticos e os hipnóticos. Ao tomá-los, você fica num estado assim entre o sono e o sonho, e, com isso, atravessa mais uma noite e vai levando. O problema é que esses remédios são perigosos. Têm um alto poder de sedução e, pelo abuso, podem levar você a não querer passar sem eles.

Bem, se o negócio é relaxar e dar um descanso ao velho sistema nervoso, o futebol pode ser uma grande alternativa. É mais seguro. Pegue o jogo de ontem, entre Botafogo e Flamengo. Noventa por cento dos que tentaram assisti-lo acordados só resistiram, com muito esforço, durante o primeiro tempo. Mas, assim que o jogo voltou, começaram a dormir lindamente. Aliás, entraram num torpor tão parecido com o rigor mortis que, se saísse um gol para qualquer dos lados, teriam continuado em estado de coma.

Posso dizer isso de cadeira. Literalmente, porque, como membro da torcida organizada Fla-Sofá, precisei ser sacudido ao fim do jogo para saber que ele acabara. Quando voltei à vida e me disseram que terminara 0x0, achei injusto. O 0x0 é um placar digno --- já foi o resultado de grandes partidas que poderiam ter terminado 10x10. O de ontem só merecia ser chamado mesmo de ôxo.

Tudo bem, dormi durante o jogo, mas não perdi nada. Os 28 jogadores que estiveram em campo também dormiram. E, ao ser informado de que Muralha e Carli tinham sido expulsos, também achei perfeito. Se era para dormir, os dois preferiram sair mais cedo para ir dormir em casa.

RUY CASTRO é escritor e jornalista. É autor de “O vermelhe e o negro --- Pequena grande história do Flamengo” e “Estrela solitária --- Um brasileiro chamado Garrincha”, ambos pela Companhia das Letras.


Marcadores:

Postar um comentário

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget