A reta final de um trabalho esfarelado no Flamengo

Caberá a ele refundar o trabalho de Zé Ricardo, tarefa adiada pelo técnico depois de sucessivos fracassos.

Berrio em Atlético-MG x Flamengo - Foto: Staff Image
CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

O currículo recente do adversário era convidativo: o Atlético-MG borbulhava em crise, não vencia há cinco jogos no Campeonato Brasileiro, onde era o pior mandante, e acabara de ser eliminado da Libertadores para uma equipe boliviana. Cardápio irresistível não fosse o Flamengo um time que agoniza a olhos vistos em um trabalho esfarelado. Em um turno, tudo mudou. Logo depois do encontro com o Galo na estreia do Brasileiro, o clube rubro-negro viveu seu ponto de ruptura na temporada que culmina em uma equipe recheada de talentos, mas frágil mesmo diante de um adversário pressionado por maus resultados.

É interessante notar como em exatos três meses o Flamengo se desfez. O jogo contra o Atlético-MG no dia 13 de maio, na estreia do Campeonato Brasileiro foi o último que seguia a linha de desenvolvimento do trabalho de Zé Ricardo. Era, até ali, um time que privilegiava a posse, buscava tabelas pelos lados e se impunha ao adversário. Havia um padrão, uma ideia a ser seguida, momentaneamente abalada com a lesão de joelho de Diego contra o Atlético-PR. Por alguns jogos, o time se acostumou a utilizar além do recomendável cruzamentos e bolas alçadas como atalho para o ataque. Mas colecionava boas atuações na temporada. Jogos da Libertadores, semifinal e finais do Carioca. Estava em desenvolvimento. Sofreu pela primeira vez, de verdade, contra o Galo. Três dias depois, a ruptura definitiva.

O vexame ao ser eliminado totalmente acuado diante do San Lorenzo na Libertadores deixou marcas nunca mais cicatrizadas. O Flamengo, por inteiro, se perdeu. Deixou de ser uma equipe que buscava a posse, o girar de jogo, trabalhava com paciência por espaços e com um sistema defensivo bem organizado. Perdeu a confiança. Com o recado do topo do comando para seguir a vida sem maiores transtornos ou absorver o impacto do trauma pagou um preço. Tornou-se uma equipe por vezes resignada com o fracasso. E perdeu completamente o rumo, escorando-se em brilharecos individuais.

A rigor, apenas a partida contra o Santos, na ida do confronto da Copa do Brasil, apresentou resquícios do Flamengo que se desenvolvia desde 2016. Troca de passes, meio criativo, gols em jogadas trabalhadas. De resto, um time que se esfarelava. Não se encontrava nem mesmo no 4-2-3-1 já tradicional. Abusava de cruzamentos. Avançava ao campo adversário, mas era surpreendido facilmente em contra-ataques, com bolas enfiadas nos espaços entre zagueiros e laterais. Um esboço de time, de apresentações abaixo da crítica como as diante de Bahia e Coritiba, que desce degrau a cada jogo de forma desenfreada. Não seria contra o Atlético-MG que a sangria iria parar.

Pois Jayme de Almeida nada fez em dois jogos a não ser dar continuidade à reta final do trabalho ruim Zé Ricardo. A pitada que deixou o time ainda mais confuso foi forçá-lo a esperar mais a bola, buscar o contra-ataque, abdicar da maior posse, característica genuína deste elenco. Diante de um adversário semiamador como o Palestino, do Chile, no meio de semana, é possível que funcione com folga. Em um campeonato onde o patamar é maior, não. Mesmo em crise, observe o elenco do Alético-MG de Rogério Micale. Há ótimos jogadores. Sem qualquer tipo de resistência do Flamengo, com campo entregue, o nervosismo devido ao extracampo se dissipou. E o Atlético ficou à vontade.

Claro, está longe de ser um time de alto padrão. Do primeiro turno para cá, o Galo também se desconstruiu nas mãos de Roger. Tentou muito chutões da defesa para o ataque, apostando na correria de Luan nas costas de Trauco e Cazares com Pará pela esquerda. Na desorganização rubro-negra, deu certo. Em um dos lançamentos, Rafael Moura ganhou de Réver quase na intermediária e deu uma casquinha para a área, onde Luan ganhou na corrida de Trauco, que o puxou infantilmente. Pênalti claro, bem cobrado por Fábio Santos. 1 a 0.

O gol sofrido de forma precoce tornou o Flamengo ainda mais desorganizado. Em vez de esperar a bola, lançou-se ao ataque sem o mínimo de coordenação. No buraco às costas de Arão e Márcio Araújo, Elias se fartou de ter campo para avançar pelos dois lados, buscando a aproximação de Luan e Cazares. Mas o vício do chutão fala alto, o que tornou a partida um contraste radical com o confronto do primeiro turno.

Na volta para a etapa final, o Flamengo de novo indicou que a falta de cobrança resulta em postura displicente, com reflexo direto nas ações dos jogadores em campo, comprometendo resultados. Se sonhava com uma reação, tudo foi por água abaixo com uma sequência bisonha de Trauco. Ao tentar um passe sem segurança para Geuvânio, o lateral entregou a bola nos pés de Marcos Rocha. Ao ser driblado, ignorou o amarelo do pênalti na primeira etapa. Partiu para o confronto de matar o ataque atleticano na trombada. A expulsão era óbvia. A falta de inteligência minou o Flamengo, principalmente com o segundo gol do Atlético exatamente no setor de Trauco.

Bola em Luan, Réver tentou cobrir o buraco e foi derrubado por um atacante com a metade de seu tamanho e força. O cruzamento da direita para o gol de Rafael Moura refletia não um bom futebol do Atlético, mas o esfarelar do Flamengo. Nem mesmo para defender com dois blocos de quatro e um jogador à frente, devido à expulsão de Trauco, o time mostrava ser possível. Perdeu toda e qualquer capacidade de organização. Em um camarote do Horto, Reinaldo Rueda, inteligente que é, já deve ter entendido o tamanho de seu desafio.

Caberá a ele refundar o trabalho de Zé Ricardo, tarefa adiada pelo técnico depois de sucessivos fracassos. O elenco é recheado, com boas opções, mas não apenas se desconstruiu taticamente, formando uma equipe claramente desorganizada e confusa ao atacar e defender. Sem identidade. Há jogadores sem confiança, em péssima fase técnica. A falta de sorte de Rueda é que o primeiro confronto será um clássico local, em semifinal de Copa do Brasil, contra um adversário extremamente organizado. Será necessária extrema paciência e talvez o choque de novos fracassos. Preço a ser pago diante de um processo de esfarelamento que teve a conivência do topo do comando do futebol rubro-negro.


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