Berrío Maravilha, nós gostamos de você

O sábio treinador colombiano simplesmente ordenou erguerem a placa de substituição do camisa 28 do Flamengo.

Berrio, jogador do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
REPÚBLICA PAZ E AMOR: Eu queria escrever uma crônica pura e imprevisível como o drible do Berrío, que fizesse o leitor ir para um lado, inocente e apressado como um lateral do Botafogo, e de repente, não mais que de repente, eu caprichasse na letra e o texto estancasse; dali eu tomaria uma direção totalmente diferente, deixando o leitor perdido, só observando meu toque açucarado, à feição para o gol. Porém, como isso seria impossível, catei o telefone e liguei para o Jardim Zoológico.

Ocorre, amigo leitor, que dentro de todo cronista dorme um intrépido e curioso repórter investigativo, que acorda tarde e, pior, atrasa o aluguel. Como gosto da apuração aprofundada, diplomado que sou no Telecurso Cícero Mello de Jornalismo Esportivo (via ESPN Brasil), disquei 3878-4200 e mandei ver.

“É do Zoológico?”. Sim, respondeu a voz gentil. “Quantos bichos chamados Berrío nasceram esta semana? Ué? Nem um bebê guepardo? Uma eminha? Nenhum filhote do Zé Colmeia? Nem um mísero cágado barbudo?”. A voz gentil me mandou pentear macaco e desligou.

Pois é, compadres flamengos e comadres flamengas, o carioca já não é mais o mesmo. Em outros tempos, o centauro Orlando Berrío, metade poeta, metade velocista, seria homenageado de todas as maneiras na Cidade Maravilhosa, após o drible desconcertante na semifinal da Copa do Brasil, que o leitor ou leitora provavelmente já viu umas 10 milhões de vezes, desde a quarta-feira 23 de agosto.

Renato Maurício Prado garantiu em seu blog só ter visto poesia parecida escrita pelos pés de João Batista de Sales, o Fio Maravilha, nos anos 1970; Juca Kfouri escreveu que desde o elástico de Romário em Amaral em 1999 não via nada igual em gramados tupiniquins. De fato, a técnica de driblar parecia ter embarcado com as bagagens e os amigos do Neymar em direção à Europa. Até a última quarta-feira, quando foi novamente importado pelo colombiano Berrío.

Mas cadê que o forasteiro recebeu as devidas homenagens? Berrío não virou nome de bicho no Zoológico do Rio, não foi convidado pelo Louro José para mostrar sua receita favorita na TV, não recebeu nenhuma moção ou placa na Boca Maldita da Gávea. Incrivelmente, nem foi acompanhado por 217 fotógrafos na visita que fez ao Cristo Redentor, na quinta-feira após a partida. Lamentável.

Sim, porque a arte de Orlando Berrío merecia ser louvada, ainda que sem oba-oba ou palhaçadinha. Afinal, não é sempre que vemos uma luminosa jogada de 9 segundos ofuscar 90 minutos de travas e trevas profundas no Maracanã. Sim, amigo leitor trabalhador que não aguentou varar a madrugada: aquele Flamengo x Botafogo descambava para uma pelada de uma pobreza franciscana – se São Francisco usasse caneleiras e botinas, claro.

Até o lance de mestre que começou com o recém-chegado treinador Reinaldo Rueda. Sim, o Rueda. Ao ver seu compatriota Berrío implacavelmente marcado pelo velocíssimo lateral alvinegro, defensor quase tão rápido quanto o atacante rubro-negro (Berrío, por sinal, foi eleito outro dia o segundo jogador mais rápido do mundo, por algum veículo sem ter o que fazer), o que Rueda arquitetou?

O sábio treinador colombiano simplesmente ordenou erguerem a placa de substituição do camisa 28 do Flamengo. Imediatamente, o latera de penugem descolorida do Botafogo relaxou, como qualquer um presente no Maracanã reparou. E só por isso Berrío pôde arrancar com um nanoespaço entre ele, o defensor e a bola, o que foi suficiente para o colombiano realizar sua arte.

Ainda não estou certo se a jogada foi tão magistral assim ou se o jogo é que era tão pavoroso, mas que contraste, que contraste! O brilho de Berrío foi como o luar na noite escura, um sorriso de ring-girl interrompendo uma luta sangrenta de boxe tailandês, um solo de violino no palco com Wesley Safadão, uma moeda de ouro numa fossa cheia de mer… OK, você já entendeu.

Mas que grande arte não nasce das trevas, não é mesmo? O poeta Vinicius de Moraes costumava afirmar que Pelé foi “um gênio completo, porque o seu futebol representa um reflexo imediato de sua cabeça nos seus pés. Eu não sou gênio, não”, garantia Vinicius, “Eu tenho que pensar um bocado para que a mão transmita direito o que a cabeça lucubrou.”

Outro genial torcedor, Nelson Rodrigues, explicava de forma sucinta o lampejo dos craques da bola: “No futebol, o raciocínio é uma carroça diante da velocidade vertiginosa do instinto”.

Arte instintiva ou genialidade insuspeitada? O que teria levado o apagado Berrío a se atrever naquela jogada mirabolante diante de 53 mil almas, num lance em que qualquer um periga tropeçar na bola, cair de bunda no chão e nunca mais recuperar-se do tombo?

“Não foi atrevimento”, disse um sereno Berrío logo após o jogo, em conversa com um amigo colombiano pelo telefone. “Acontece, amigo, que o campo estava acabando, e o único lugar por onde eu poderia passar com a bola era por ali”.

Orlando Berrío é assim: não tenta impressionar, jamais busca a magia pela magia. Pode acontecer a mágica, mas ele persegue a lógica – talvez por ser filho de dois professores na Colômbia. Sim, amigos, trata-se de um gênio. Um gênio que talvez precise chegar a 36km/h para que sua genialidade pegue no tranco, mas um gênio.

Eu queria nesta crônica exaltar ainda o chute seco do Diego barbante adentro, o salto preciso de Guerrero para deixar a bola entrar, mas é hora do intrépido jornalista que dorme dentro de mim (e é um morto de fome) sair para almoçar. Enquanto penso em onde ir, um amigo Flamengo me liga. Atendo, logo após me certificar que não é alguém lá do Zoológico me retaliando:

“Fala fera! Bora ali conhecer o Capitão Jacques Restaurante, em Copacabana?”, propõe ele. “Os caras fazem uma espetada de peixe com camarão acompanhada de arroz colombiano de lamber os beiços, o próprio Berrío costuma aparecer lá para rangar. Parece que depois do drible o prato vai ganhar o nome dele: espetada à Berrío!”. Ah, até que enfim o reconhecimento…!

Orlando Enrique Berrío Meléndez, 26 anos. E se nada mais fizer da vida, terá sido o primeiro artista a chocar a audiência, uma multidão fanática, com um único e singular rabisco.

MARCELO DUNLOP



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