Didático

Um deles o Flamengo, que dias depois demitiu Zé Ricardo e fará, com o Botafogo, uma semifinal que opõe caminhos distintos.

Zé Ricardo, ex-técnico do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
CARLOS EDUARDO MANSUR: O futebol brasileiro é tão movido pelo resultadismo que, quem diria?, se vê diante da chance de encontrar justamente nos resultados a chance de refletir sobre temas que tanto menospreza: o poder do tempo e dos processos na formação de equipes de futebol. O Botafogo de Jair Ventura, classificado para as quartas de final da Libertadores, é um dos times que envia valiosas mensagens.

Jair é um poço de convicções sobre o time que comanda. Algo que vai além da crença em suas ideias de jogo: trata-se do domínio sobre o que cada jogador do elenco pode oferecer. O que só o tempo e, claro, um bom trabalho permitem.

Consumada a eliminação diante do Barcelona de Guayaquil, o presidente do Palmeiras, Maurício Galiotte, apresentou em sua defesa a lista de contratações do clube, uma frenética política de entradas e saídas a custo alto e com a temporada em pleno andamento. Os destinos de um time e de outro são didáticos. Assim como é a temporada.

A Libertadores de 2017 ofereceu um cenário sob medida para que os brasileiros, enfim, transformassem em imposição técnica o poder econômico amplamente superior ao dos adversários: os mexicanos não participaram e os times argentinos lidaram com uma greve às vésperas da estreia e, em meio ao mata-mata, deram férias a jogadores. E mais: o que antes era um torneio de um semestre, disputado às pressas e com times em formação, passou a ser uma competição diluída em dez meses. Ou seja, o grau de aleatoriedade diminuiria, haveria tempo para ganhar conjunto e fazer valer a suposta superioridade técnica.

Se fosse este o mundo real. Mas o futebol brasileiro se encarrega de minar suas vantagens. Nos dois meses entre o fim da fase de grupos e o desfecho das oitavas de final, o Barcelona equatoriano jogou razoáveis 12 vezes. Os brasileiros, entre 20 e 22. Uma maratona insana que suprime treinos e boicota a evolução de times.

Mas os clubes não são apenas vítimas do calendário. De tão firmemente acreditarem que tudo se resolve com dispensas e contratações, de tanto desprezarem o poder do tempo, fizeram o dinheiro virar armadilha. O Palmeiras, em seu interminável entra-e-sai, enfrentou os equatorianos com três jogadores que estrearam de julho em diante. Cuca, o técnico, trabalha há três meses apenas. O time caiu diante de um rival cujo elenco tem um quarto do valor de mercado dos paulistas.

O Atlético-MG foi eliminado pelo Jorge Wilstermann, embora tenha um elenco 20 vezes mais valioso do que os bolivianos. Roger, que iniciara o ano no comando, já era passado. Coube a Rogério Micale assinar a súmula como o técnico da eliminação: ele tinha 20 dias no cargo no jogo mais importante do ano.

Caminhos cruzados

Seja qual for o desfecho da Libertadores, este Botafogo já deixou marca ao mobilizar sua gente: o Engenhão cheio na quinta-feira era a reafirmação do tamanho do alvinegro. E contribuiu com o futebol brasileiro ao mostrar aonde a maturação de um trabalho pode levar um elenco sem investimentos gigantescos. Contratar não é pecado. Craques nunca serão problema, têm o dom de resolver jogos. Mas é mais provável que o façam caso se respeitem processos de formação de time.

Contra o Nacional, o Botafogo exibiu uma escalação titular sem qualquer jogador contratado após a pré-temporada. Um time afinado sob as ordens de Jair Ventura, há um ano no comando. Não por coincidência, também avançou o Grêmio de Renato Gaúcho, outro remanescente da última temporada, tanto ele quanto a base da equipe que comanda.

A estabilidade também é a marca do líder do Campeonato Brasileiro, o Corinthians. Enquanto que, na Copa do Brasil, os quatro semifinalistas garantiram vaga com técnicos que sobreviviam desde janeiro. Um deles o Flamengo, que dias depois demitiu Zé Ricardo e fará, com o Botafogo, uma semifinal que opõe caminhos distintos. O que não oferece garantias a qualquer dos lados, porque elas não fazem parte da natureza de um jogo que pode ser decidido por tantos fatores.

Mas a queda de Zé Ricardo rende outra reflexão. Ele foi alvo, na Ilha do Urubu, há uma semana, de algo além da usual insatisfação da torcida com um time que, de fato, poderia ter evoluído mais. A reação foi de ira, um tom acima. Tem a ver com uma sociedade a cada dia mais intolerante, mas também com a crença de que o dinheiro, ao atrair talentos, deve dar à luz um time pronto da noite para o dia. Caso contrário, alguém deve pagar. Aquele Flamengo tinha quatro reforços recém-chegados, mas a pressão tornou o ar irrespirável e inviabilizou o treinador.

Este 2017 oferece lições. Já que os resultados nos movem, talvez seja tempo de deixá-los falarem.


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