Fica a lição para Jair Ventura

Mano Menezes mostrou sua face mais totalitária na volta aos clubes. Exatamente no Flamengo.

Técnicos Jair Ventura e Reinaldo Rueda- Foto: Cris Dissat / Fim de Jogo
COSME RIMOLI: Reinaldo Rueda contra Mano Menezes.

De um lado, o ex-treinador de duas Copa, capaz de levar Equador e Honduras à elite do futebol mundial. Vencedor da Libertadores de 2016 e candidato unânime para assumir a Colômbia depois da Rússia, no próximo ano.

Do outro, o ex-técnico da Seleção Brasileira. Comandou 33 vezes a principal. E seis vezes a olímpica. Tem a conquista de uma Copa do Brasil, em 2009 e três Gaúchos, um Paulista e uma Série B.

Um colombiano contra um brasileiro.

Reinaldo Rueda diante de Mano Menezes.

Os dois treinadores foram fundamentais para a chegada de Flamengo e Cruzeiro à decisão da Copa do Brasil de 2017. Cada um trilhando seu caminho de maneira muito diferente.

Rueda foi exposto ao improviso. Ao desespero. O promissor, mas inexperiente, Zé Ricardo não conseguia mais ser ouvido por seus jogadores. O Flamengo compacto, intenso, vibrante já não mais existia. Daí a intervenção. O medo era real de o caríssimo time não chegar sequer à uma vaga na Libertadores de 2018. A troca e a busca da vivência, do conteúdo.

Embora os protestos puxados por Jair Ventura, o corporativismo brasileiro tomou uma bofetada. O intercâmbio em qualquer área é fundamental. Rueda chegou e, a toque de caixa, tratou aproveitar o que havia de melhor. Dispensar o pior. Muito mais do que a injeção de ânimo que qualquer novo treinador injeta, ele trouxe estratégia, firmeza, confiança aos jogadores. Eles passaram a ocupar os espaços não mecanicamente. Mas sabendo o que fazem.

Rueda conseguiu o que faltava a Zé Ricardo. Convencer os seus jogadores que o time não corre riscos se atacar. A dinâmica de jogo libera os laterais sem medo. Sabem que há cobertura. É possível arriscar um drible da vaca, partindo de uma 'chaleira', até o toque certeiro, firme de Diego. O atacante colombiano, que era motivo de piadas com Zé Ricardo, ganhou consciência que a certeza traz. Ele sabia que poderia tentar driblar. E que se desse certo o seu improviso, haveria alguém chegando de frente para o gol do Botafogo.

O Flamengo foi muito melhor do que o Botafogo. Mereceu a vaga. E, por coincidência, tirou da decisão Jair Ventura. O homem que defendia o Brasil 'para os técnicos brasileiros'. Tem de suportar agora ironias por todos os lados.

Inclusive twitter oficial de gosto duvidoso, do próprio Flamengo.

Rueda vai ganhar, vai perder. Mas a sua visão diferenciada em relação ao futebol é importante. Vai fazer pensar. Acrescentar à mesmice dos acomodados treinadores brasileiros. Que são desprezados pela elite do futebol mundial. Não por não ter diplomas. Mas por seus fracos trabalhos.

Não são só preguiçosos. Não confiam na própria capacidade. Por isso não se arriscam a 'perder tempo' buscando os diplomas exigidos pela Europa. Porque sabem que não há garantia de serem contratados. Por isso ficam aqui, quando desempregados, frequentando mesas redondas de amigos jornalistas na tevê. Fazendo propaganda de si mesmos.

Por isso, a revolta com a chegada de Rueda.

E tudo ficará pior se for campeão da Copa do Brasil.

Seu primeiro dia de trabalho no Flamengo foi há 10 dias.

Já está na decisão.

Eliminou o time que era uma grande surpresa deste país.

Mano Menezes...

Ele já foi visto com o aprimoramento da escola gaúcha, de Ênio Andrade, Felipão e Dunga. A Batalha dos Aflitos mudou sua vida. Se o Grêmio tivesse perdido para o Náutico não atingiria o status que conseguiu. Ganhou holofotes e status no Corinthians de Ronaldo. Com muita marcação no meio de campo, preparo físico no melhor nível, compactação. Adepto da antiga escola alemã, seus times sempre tiveram dificuldade em atacar.

Chegou à Seleção pela força política que Andrés Sanchez tinha com Ricardo Teixeira. Inseguro, despreparado para cargo, convocou 53 jogadores. O futebol da principal era fraco. Tentou se segurar na medalha olímpica, sabia que poucos países valorizam a competição. Caiu diante do México. Perdeu o emprego, não chegou à sonhada Copa do Mundo de 2014 e também não assumiu nenhum time europeu, como havia sonhado com o seu ex-agente Carlos Leite.

Sonhavam repetir no Brasil a dupla Jorge Mendes e Mourinho.

Mano Menezes mostrou sua face mais totalitária na volta aos clubes. Exatamente no Flamengo. Seu estilo defensivo e a hierarquia rígida, o distanciamento dos jogadores, fizeram o trabalho um fracasso inesquecível. A ponto de fazer questão de pagar para sair da Gávea. Quando partiu houve não só festa dos atletas, mas a conquista da Copa do Brasil de 2013, que foi dedicada por ironia a ele.

Mano se redescobriu no Cruzeiro. Fazia ótimo trabalho. Mas foi para onde garantiu que não iria: à China. Novo fracasso. Foi demitido. Voltou para a Toca da Raposa em julho do ano passado. Não conseguiu sequer levar o clube à Libertadores. Depois de fracassar no obrigatório Campeonato Mineiro e no Brasileiro, faz surpreendente Copa do Brasil.

Usando a velha estratégia dos tempos de XV de Novembro de Campo Bom, em 2004, quando foi terceiro colocado. Defensivista atuando fora, apelando para os contragolpes em velocidade. E usando toda a força da torcida para empurrar seu time em casa. São Paulo, Chapecoense, Palmeiras ficaram pelo caminho. Como o Grêmio, que eliminou ontem graças a um escanteio e à decisão por pênaltis.

Rueda e Mano representam duas escolas diferentes.

Estão à frente de dois dos clubes mais poderosos do país.

O colombiano seguirá nesta caminhada relâmpago tentando colocar em prática tudo o que aprendeu. Adaptando para os brasileiros. E o gaúcho buscará maneiras de vencer Rueda. E para isso, terá de buscar fórmulas nova, acrescentar algo à mesmice que vem mostrando há anos e anos.

Por isso o intercâmbio é fundamental.

Faz com que todos se aprimorem.

A concorrência tem de ser valorizada.

Não evitada.

Jair Ventura já teve sua primeira lição na carreira.

Agora só resta bater palmas...



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