Flamengo: o Clube mais querido desde 1927

Chama a atenção o fato de que somados os três rivais do Rubro-Negro têm 38,9%, quase 10% a menos que o clube da Gávea.

Torcida do Flamengo no antigo Maracanã - Foto: Leandro Moreira
MEMÓRIA EC: Texto: Cláudio Nogueira*

O ano de 1927 foi marcante na história do Flamengo. E não só pela conquista do troféu de campeão carioca. Também por um título simbólico, mas que para o Rubro-Negro se tornou histórico: o de "clube mais querido do Brasil". Na década de 20, o futebol já havia se tornado no Rio, então capital federal, uma coqueluche, uma febre, algo que "pegava" em qualquer um. As torcidas lotavam os estádios e àquela altura já acompanhavam os desempenhos de seus clubes pelos jornais. Um dos mais importantes naquele período, o “Jornal do Brasil” decidiu promover, em parceria com a água mineral Salutaris, um concurso popular para apontar o mais “sympathico” (como se escrevia) do país.

Nem importava que somente quem morava no Rio poderia votar, fosse por meio de um cupom publicado no diário ou de um rótulo da garrafa de água. O título seria nacional. Afinal, o Rio era a capital do país. O anúncio fora feito na edição do "Jornal do Brasil" de 1º de outubro de 1927, e o prazo de votação iria de 4 de outubro a 30 de dezembro. Cada cupom ou rótulo valia um voto, e esse material tinha de ser enviado para a sede da publicação. Votos chegavam até de Minas Gerais e do Espírito Santo.

Torcidas dos vários clubes se mobilizaram, em especial a do Vasco, que tinha raízes bem populares, reunindo pobres, semi-analfabetos, negros e imigrantes - mal vistos nos clubes de elite - e que havia inaugurado em 21 de abril daquela ano o estádio de São Januário, construído graças a uma grande vaquinha feita pelos sócios e torcedores, sem um tostão do governo.

Mas havia também a torcida do Flamengo, que já era muito grande - embora àquele tempo não houvesse pesquisas bem elaboradas como as da atualidade. E apesar de o Rubro-Negro só ter se popularizado com a profissionalização, em 1933, quando atletas oriundos das classes baixas viraram empregados dos clubes. De qualquer forma, a partir do fim dos anos 30, o clube passaria a ter sem dúvida a maioria dos torcedores, graças ao seu craque Leônidas da Silva.

Antes disso, porém, ainda em 1927, já em dezembro, quase ao fim do término do concurso, o Vasco liderava a pesquisa, graças à mobilização de seus torcedores, incluindo jornaleiros, taxistas e padeiros. Foi quando fãs rubro-negros tiveram uma ideia: a de inutilizar indicações dadas para o rival. Para isso, alguns torcedores do Flamengo se posicionaram estrategicamente perto da sede do jornal, no Centro do Rio. Com bigodes, escudos do Vasco na lapela e imitando o sotaque português (a maioria da colônia lusa no Rio era de vascaínos), esses rubro-negros recolhiam os votos que seriam para o adversário. Mas em vez de os entregarem no local de apuração, os jogaram em latrinas ou no fosso dos elevadores da sede do diário.

Assim, no dia da apuração, com 736.282 indicações recebidas, o Flamengo somou 254.850 votos contra 183.742 do clube de São Januário. Depois, se classificaram America, Villa Isabel, Modesto (estes dois extintos), Fluminense, São Cristóvão e Botafogo.

Assim, o Rubro-Negro levou para sua sede - que ainda não era na Gávea, como hoje - o Troféu Salutaris, que havia ficado exposto na joalheira La Royale, no Centro da então capital federal. Atualmente, a Taça Salutaris se encontra em local de destaque na sede rubro-negra.

Somente mais tarde, depois da contagem, é que os votos não contabilizados foram descobertos. O estratagema de inutilizar os votos vascaínos não foi negado. Ao contrário: confirmado por vários torcedores de destaque do Fla, entre os quais o escritor Edilberto Coutinho, autor do livro "Nação rubro-negra”, em que escreveu:

- Os do Vasco (...) caíram na besteira de divulgar o episódio, achando que com isto iriam atingir a popularidade — real — do Flamengo. Foi pior para o Vasco. O Mengo se safou da coisa numa boa, sem um arranhão sequer na sua imagem. Ao contrário. Ganhou (...) Subiu no conceito de todos, especialmente do carioca das ruas, do zé-povinho do Rio de Janeiro que admira sem restrições o esperto.

Em tempos atuais, pesquisas dos mais variados institutos especializados vêm confirmando que o Rubro-Negro é o clube de maior torcida em âmbito estadual e nacional. Em todo o Brasil, de acordo com o Instituto Paraná Pesquisas, que entrevistou mais de 10 mil pessoas e divulgou seu trabalho em dezembro do ano passado, o Flamengo tem 16,2% da torcida, seguido pelo Corinthians (13,7%); São Paulo (7,4%); Palmeiras (5,8%) e Vasco (4,6%). O dado mais surpreendente, porém, é que os que não têm time chegam a 19,5%.

Levando-se em conta apenas o Rio de Janeiro, outra pesquisa, realizada em 2014, em uma parceria entre o Ibope e o jornal “Lance”, demonstrou que o Flamengo conta com 48,2% da preferência popular, bem à frente de Vasco (14,6%), Fluminense (12,9%) e Botafogo (11,4%). Chama a atenção o fato de que somados os três adversários do Rubro-Negro têm 38,9%, quase 10% a menos que o clube da Gávea. Maioria tão expressiva é algo que ocorre apenas no futebol do estado do Rio.

* Cláudio Nogueira é jornalista do SporTV e autor dos livros "Futebol Brasil Memória - De Oscar Cox a Leônidas da Silva" e "Dez toques sobre jornalismo", entre outros.

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