Ilha do Uruburguês

Triste fim daquele cuja única alegria da semana era poder ir aos domingos ver o Flamengo no Maracanã.

Torcida do Flamengo na Ilha do Urubu - Foto: Mounique Vilela
GOAL: Por Bruno Guedes 

"Se Euclides da Cunha fosse vivo, teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro". Foi com essa frase que Nelson Rodrigues, tricolor, definiu o time do seu irmão, Mário Filho, que dá nome ao Maracanã. Se vivo fosse, nem Euclides e nem Nelson cunhariam tal afirmativa para expressar a diversidade popular que frequenta as arquibancadas para apoiar o clube da Gávea. Porque foram todos expulso pela elitista política de preços dos dirigentes.

O Flamengo se orgulha de ter a maior torcida do Brasil e penetrar nas mais diferentes camadas sociais do tão desigual povo brasileiro. Do mais pobre ao mais rico. Do anônimo ao astro. Mas a direção atual do clube parece que se esqueceu disso. Ou finge que esqueceu. Os preços dos ingressos para as partidas do time escalonaram a um patamar que beira ao deboche com os torcedores. Uma exclusão feia, privilegiando quem é apenas sócio torcedor - ainda assim caro - como se ele apenas fosse Rubro-Negro.

Triste fim daquele cuja única alegria da semana era poder ir aos domingos ver o Flamengo no Maracanã, juntando seu suado dinheiro durante os seis dias anteriores. Hoje, com preços que variam de R$ 120 para quem não é associado, como contra o Atlético-GO, ele não pode mais nem mesmo se dar ao luxo de pensar em ir a Ilha do Uruburguês, local restrito aos abastados financeiramente, sócio ou não.

Política covarde, mas também burra. Que é o total anti-marketing feito por pessoas que se dizem "experts em marketing". Ao invés de preços acessíveis para o torcedor não associado e, assim, estimulá-lo a voltar, vendo as vantagens que teria se fosse um sócio-torcedor, faz o contrário: o expulsa. Uma Nação de 40 milhões restrita a 100 mil sócios.

Eu disse 100 mil? Desculpem-me. Seis mil. Porque é essa a média de pessoas que conseguem arcar, semanalmente, com preços tão abusivos. Os "experts em marketing"  pensam como a Europa, mas esquecem que vivem num país subdesenvolvido. Não aprendem com os americanos, que fazem preços flutuantes e acessíveis para diferentes jogos dependendo do nível do adversário.

Tratam como produto? Eis mais um erro. Pois a longo prazo não haverá mais "cliente" para comprá-lo. Quem vai uma vez, nunca mais volta. Os pais não levam seus filhos. Jovens que crescerão sem a cultura das arquibancadas. Menos gente. 

Se Euclides da Cunha (e Nelson Rodrigues) fossem vivos, teriam preferido outro clube para contar a história do povo brasileiro.


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