Jornalista colombiano faz análise de Rueda, técnico do Flamengo

Por agora, o desafio que o espera no Rio é tão grande quanto os torcedores de sua nova casa.

Rueda, treinador do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
LANCE: “Moralito, Moralito se creía, que él a mí, que él a mí me iba a ganar. Y cuando me oyó tocar, le cayó la gota fría”. Este trecho da música favorita de Reinaldo Rueda pode resumir em grande parte quem ele é como pessoa e treinador. A música é um Vallenato, gênero colombiano tradicional. Clássico como o estilo dele, alegre como o futebol que prega e cujo nome – La Gota Fria – reflete duas contribuições fundamentais para o seu sucesso; o quanto suou para se tornar um dos técnicos mais reconhecidos da América e a estratégia mental que lhe permite conseguir o que se propõe.

Ele escolheu a direção técnica como um projeto de vida, mas pelo sábio conselho de sua mãe, Orfa Rivera, que era professora, entendeu que não bastava estudar apenas na Colômbia. Ele decidiu se especializar na German Sport University de Colônia na Alemanha. E não poderia fazê-lo em um momento mais propício, em 1990, ano em que a seleção germânica voltou a dominar o mundo e ganhar uma Copa.

Enquanto Beckenbauer marcava época na Itália, Rueda estava convencido de que tinha escolhido o melhor lugar possível. Em um país muito fã de futebol e, sobretudo vanguardista, abriu completamente sua visão, onde a disciplina e sua reinvenção permanente tornaram-se seus companheiros inseparáveis de viagem.

Também aprendeu com os alemães a capacidade de sonhar grande. Enquanto vislumbrava a impressionante arquitetura da catedral de Colônia, construiu ilusões, como a de dirigir a equipe nacional de seu país. E começou por onde devia, com os juniores. Mal desfazia as malas e surgiu a oportunidade. Um Sul-Americano Sub-20 classificado para o Mundial
foi a origem que advertia sobre sua capacidade, a qual em seguida, confirmou no Esperanza de Toulon e a medalha de bronze na Copa do Mundo juvenil dos Emirados Árabes em 2003, a conquista mais importante da Colômbia em um torneio inter-continental. Depois de formar várias gerações, se propôs atingir uma Copa do Mundo. E justamente a da Alemanha em 2006 conseguiu visualização com a Colômbia. Chegou para apagar um incêndio e quase se consagra. Ele recebeu a seleção com um ponto de 12 possíveis e foi essa a distância que o privou do milagre da repescagem.

Mas sua vingança viria em breve, em quatro anos na verdade, quando o sonho se tornou realidade em dobro, embora longe de sua terra natal. Primeiro com a seleção de Honduras na África do Sul em 2010, e, depois, com Equador na Copa realizada no Brasil em 2014.

– Quando o “Rei” me convidou para acompanhá-lo em sua comissão técnica tomei isso como um elogio, porque trabalhar ao lado de um grande ser humano é a melhor recompensa que alguém pode receber. Você aprende todos os dias ao seu lado. É um professor que ensina a valorizar a derrota, como foi com a tristeza de não ir ao Mundial com a Colômbia, para curtir em família as alegrias como fizemos com classificações para as Copas do Mundo – reconhece Alexis Mendoza, fiel escudeiro de Rueda até 2014, quando decidiu começar sua carreira solo como treinador. Mas não se perdem de vista.

– Reinaldo é um amigo de seus amigos. Há sempre uma chamada ou uma mensagem no bate-papo – diz seu ex-assistente técnico, que confessa que não são de lembrar muito o que já viveram e, sim, de pensar que o que ainda está por vir será muito melhor.

Pode ser essa a explicação para que o treinador vencesse a tempo e, de certa forma, o ceticismo em Honduras e Equador. Depois de 28 anos permitiu aos “Catrachos” (hondurenhos) comemorar a participação em um Mundial, devolveu a autoestima aos equatorianos e de quebra fez esquecer a decepção da eliminação com duas classificações.

Embora tivesse experiência com times como Cortuluá, Deportivo Cali e Independiente Medellín, o papel de treinador parecia envolvê-lo para sempre mas surgiu a proposta do Atlético Nacional de Medellín, que depois de ganhar tudo na Colômbia, foi chamado novamente a reeditar sua história continental. Guardou temporariamente seu passaporte para retornar a seu país, mas acabou conquistando a América.

Levantou a Libertadores e Recopa Sul-Americana para fazer do Atanasio Girardot a sua segunda casa, na Colômbia.

– Eu não quero sair, mas devo – disse, em lágrimas, quando mais de 45 mil gargantas clamavam para que ele ficasse há semanas. Não era uma questão de orgulho, simplesmente uma consequência de sua forma agir e pensar.

– Antes mesmo de ser treinador, ele se torna um pai para o jogador, sempre com a palavra certa, com o conselho apropriado. Por exemplo, quando os ânimos se alteram por conta de qualquer contratempo ou resultado, ele tem o dom de mudar a raiva para a tranquilidade. É uma pessoa sábia – assim o descreve Franco Armani, goleiro do Nacional, com o qual chegou a dar seis voltas olímpicas.

É que Rueda prega com o exemplo. Seu caráter paternal se multiplica em casa com Alejandra, Carolina e Juan David, os três frutos de seu matrimônio com Lidia Genith Ruano, o amor de sua vida.

É tão carinhoso com a cúmplice de seus sonhos, a ponto de permitir a seus filhos trilhar pelo mesmo caminho que ele percorreu, o de se fortalecer fora das fronteiras. E coincidentemente todos escolheram o mesmo destino: Toronto.

Alejandra, a mais velha, completa nove de seus 27 anos na cidade canadense, onde se formou como jornalista na Universidade Ryerson, faculdade em que Carolina (24) acaba de se formar em comunicação de moda. Juan David, o mais novo (19), também avança seus estudos em economia e finanças com uma alegria adicional para seu pai: vai jogar futebol e frequentar as aulas.

– É um homem muito simples, gosta de compartilhar tudo com a gente. Mas, em casa, também respeitamos os seus momentos, espaço, quando está assistindo ou analisando futebol, embora por fim terminemos os quatro assistindo o mesmo jogo com a paixão que nos foi transmitida e herdada – destaca sua filha mais velha, que atualmente cursa pós-graduação em marketing de eventos esportivos.

São tantos conselhos que deu à mais velha dos irmãos Rueda, que é difícil destacar um, mas Alejandra sempre agradece especialmente por ensinar “não se esqueça de onde você vem e que o bom ser humano será sempre lembrado pela humildade e respeito pelos outros”.

Aos 60 anos ele tem muita experiência para repassar. Por isso, sugere à sua filha que no local de trabalho “acima de tudo deve aprender a ouvir em primeiro lugar, não supor e sim fazer o que é pedido e saber como agir no momento certo”.

Para Reinaldo há dois princípios não negociáveis: respeito e moderação. Os coloca em primeiro lugar em qualquer projeto que assuma, seja pessoal ou profissional. E isso sua família e amigos garantem, com quem ele sempre tenta estar num encontro imperdível, o Natal em Cali.

Com os filhos morando no exterior, dezembro é o mês esperado por todos os Rueda. É o único ano em que eles podem se encontrar, compartilhar e especialmente aproveitar o tempo da família entre a piscina e comidas típicas. Assim que aterrissam, o primeiro item na agenda é inalterável: visitar a avó Orfa. Nada como passar uma tarde na casa da mãe para, em seguida, passar tempo com os amigos, com quem gosta de fazer uma boa farra. Da mesma forma surge o futebol.

– Você nunca se desconecta de tudo – diz Alejandra, que aproveita com seus irmãos e mãe todos os planos de férias, embora haja um pelo qual anseia e até agora não foi capaz de realizar:

– Nós nunca fomos ao cinema juntos – diz entre risos, sem tom de reclamação.

Com trabalho ou não, há algo na vida de Rueda que é muito mais do que uma tradição ou obrigação, e sim, uma necessidade espiritual. Ele é católico e muito devoto de Maria Auxiliadora, a virgem à quem reza diariamente.

Fiel como ele só, reza muito à Deus antes de tomar qualquer decisão. Confia em Seu tempo e, por isso, a cada conquista, pessoal, profissional ou familiar, ele compartilha em forma de oração. A fé é outra de suas virtudes.

Por isso, mantém viva a esperança de ainda poder dirigir um time na Europa. Alemanha, de preferência, mas voltar ao Velho Continente e dar em troca parte de tudo o que lhe foi dado por quase três anos de experiência e formação, é mais que um desejo. Também o de voltar à Seleção da Colômbia para terminar sua tarefa.

Por agora, o desafio que o espera no Rio é tão grande quanto os torcedores de sua nova casa. Ele não teme. Pelo contrário, está acostumado com os imensos desafios, esses aos que os outros preferem evitar para não serem expostos ao fracasso, do qual Rueda aprendeu o suficiente para ser um verdadeiro vencedor. E o Flamengo precisa dessa fibra.


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