O adeus de Zé, um técnico que insistiu em seus pecados

Em vez de evoluir, o Flamengo estagnou e, posteriormente, regrediu.

Zé Ricardo deixou o Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
CHUTE CRUZADO: Por Pedro Henrique Torre

José Ricardo Mannarino viu seu primeiro ciclo em uma equipe profissional se esgotar naturalmente. Na ciranda de técnicos brasileiros não há muito do que Zé Ricardo reclamar. Em quase 15 meses deixou de ser o treinador campeão da Copinha com a molecada para vestir o uniforme de técnico do clube mais popular do Brasil. Viveu bons e maus momentos. Alternou fases e ideias sobre o jogo. Teve jogadores e estrutura. Atravessou sua maturação no cargo a olhos vistos. É agora um nome reconhecido no mercado nacional e não deverá tardar a receber outra proposta para seguir a carreira. No Ninho do Urubu acabou engolido por pecados próprios e outros alheios à sua vontade. Lições que talvez carregue para o futuro.

Não, Zé Ricardo não acabou demitido por trair suas convicções no derradeiro jogo contra o Vitória. Pelo contrário. Era ali uma tentativa de enfim oxigenar escolhas engessadas que lhe fizeram agonizar no cargo, uma insistência em uma fórmula eficiente de 2016, mas que não reverberou nesta temporada. Um técnico que iniciou e terminou o trabalho no 4-1-4-1, sistema preferido como revelado em entrevista a Carlos Eduardo Mansur n´O Globo em janeiro deste ano. Era esse o sistema mais utilizado por Zé quando Diego não chegou no Flamengo em 2016. Ali, nos primeiros jogos em meio à crise com a saída de Muricy Ramalho, natural que priorizasse o sistema defensivo. E já indicava seu fiel escudeiro e um dos pilares de sua derrocada: Márcio Araújo.

A tentativa era fazer um time forte na defesa com rápida saída até o ataque, utilizando os lados. Pelo meio trabalhava muito com Willian Arão e Mancuello ou Alan Patrick, com Everton e Marcelo Cirino nos lados, Guerrero à frente. Criou uma casca na competição, subiu na tabela e adaptou o time ao 4-2-3-1 com a chegada de Diego ao time. Um Flamengo que fazia a bola girar pelo camisa 35, tinha Arão infiltrando e os pontas no vaivém. Com o passar do tempo optava pelo jogo mais plástico aliado ao espírito competitivo. Uma formação que chegou a lutar pelo título brasileiro e tornou o trabalho consistente. A exibição contra o Figueirense, no Pacaembu, foi um primor. A melhor em anos do clube. Cuellar na vaga do suspenso Márcio Araújo. O time jogou por música e só não goleou por uma manhã pouco inspirada de Leandro Damião. Mas faltaram pernas e elenco.

Foram 33 em 38 jogos disputados fora do Rio, um desgaste imensurável em um campeonato longo. No meio do caminho, a vergonhosa eliminação para o Palestino na Copa Sul-Americana deixou uma pulga atrás da orelha. Mas o senso comum de que faltava também elenco tirou grande parte da responsabilidade do técnico, um novato que soube lidar com vestiário de jogadores pesados como Diego e Guerrero. Com o time encaixado em 2016 bastariam reforços e um trabalho desde o início, com participação efetiva na montagem do elenco para Zé Ricardo, enfim, decolar como técnico promissor que indicava ser. A partir daí, porém, ele passou a tropeçar em si próprio.

O trabalho do técnico é, além da tática, enxergar o ambiente que o cerca e tomar decisões sensatas. Não se trata de abandonar convicções por pressões externas. Mas mantê-las em mínima sintonia com o que gira a seu redor com o intuito, também, de preservar a base de seu trabalho. Há momentos de avançar e recuar. A maior capacidade de investimento do Flamengo lhe trouxe boas novidades e indicava o claro desejo de mudança de patamar em 2017. Rumo a um jogo mais refinado e competitivo. Romulo foi contratado para resolver a boa saída de bola e manter a proteção à zaga com mais qualidade do que Márcio Araújo. Jorge saiu, Trauco chegou. Berrío, campeão da Libertadores, na vaga de Gabriel. Zé até tentou.

Iniciou a temporada priorizando o jogo com Romulo e Arão, volantes mais técnicos e de melhor passe. O time evoluía diante dos rivais frágeis do Carioca, mostrava maior capacidade de tramar as jogadas pelo chão, com tabelas. Mancuello, na ponta direita, emulava no 4-2-3-1 a função que mais tarde deveria ser a de Conca. A Libertadores, porém, foi fatal. Contra a Universidad Católica, Zé Ricardo promoveu a volta de Márcio Araújo, até então barrado. Era o 13º jogo na temporada. No 4-1-4-1, com Romulo e Arão mais à frente, o Flamengo perdeu. Mas dominou e teve bom desempenho. Márcio Araújo nunca mais saiu do time. A insistência em peças de segurança de 2016, como Gabriel e Rafael Vaz, atrapalhou a caminhada na competição sul-americana. Zé ainda não enxergava, mas começava ali o seu problema.

A lesão de Diego o fez sacar boas soluções da cartola, como o avançar de Trauco ao meio, com Renê na lateral. Havia ainda uma ideia de jogo bem jogado. Um Flamengo que criava chances, triangulava e finalizava. Mas sem o camisa 35 iniciou uma lenta transição a um time que, com um defesas bem montadas pela frente, passou a ver lançamentos e bolas cruzadas como a melhor alternativa. para vencer. O jogo empobreceu. Ao entregar campo para o San Lorenzo e ser eliminado de maneira vexatória na primeira fase da Libertadores ocorreu a ruptura.

Dali em diante, Zé Ricardo nunca mais conseguiu devolver ao Flamengo um desempenho elogiável, principalmente ofensivo. Nem mesmo o título carioca invicto, com dois bons jogos na final contra o Fluminense, foi capaz de lhe garantir o mínimo de paz no ambiente instável. E aí, em meio ao furacão, talvez tenha sido o grande pecado do técnico: não buscou oxigenar a equipe com novas ideias, promovendo mudanças e retirando peças de conflito com a arquibancada que só fazia borbulhar o caldeirão. Não estendeu a bandeira de paz.

É tarefa do técnico entender o ambiente ao seu redor e preservar o trabalho desenvolvido para avançar mais à frente. A insistência com Márcio Araújo, todos sabiam, custaria caro. Era o ponto alto do processo de desgaste. O 4-2-3-1 engessado, com o camisa 8 como primeiro volante, estava abaixo do patamar de 2016, mesmo com jogadores de melhor qualidade. Em vez de evoluir, o Flamengo estagnou e, posteriormente, regrediu.

Um panorama avalizado pela diretoria. A postura do presidente e vice de futebol Eduardo Bandeira de Mello de tentar encarar o trauma da Libertadores como algo passageiro criou um ambiente favorável à insistência do técnico. Não havia necessidade de mudança, tudo se encaixaria como em uma planilha de computador. Futebol não é assim. Os sinais eram claros. O jogo era pobre. A equação melhores jogadores e desempenho piorado era fatal permitia ao Corinthians galopar na tabela, levando o cheirinho para bem longe. Se antes perdia pouco e era consistente, o time de Zé Ricardo já empatava muito e tinha dificuldades para vencer. Penou contra o Bahia mesmo com Everton Ribeiro no time. O trabalho, ali, estava esfarelado e já era irreversível.

Houve um primeiro passo com a efetivação de Cuellar na equipe titular. Em alguns momentos do Campeonato Brasileiro, Zé Ricardo lançou mão do 4-1-4-1 dentro de jogos. O time se apresentou melhor em parte do duelo com o Grêmio. Quase venceu o Corinthians em Itaquera no mesmo esquema. Mas as opções vastas pareciam confundi-lo. Menos com Márcio Araújo, destacado até mais avançado no Fla-Flu do Brasileiro. O time revezou em torno do camisa 8, num processo que estendeu a sangria na relação com a arquibancada. Ao apostar em um time sem Márcio contra o Vitória, Zé Ricardo tentou uma mensagem, mas a margem de erro estava zerada. Não havia mais espaço. A 18 pontos do líder e eliminado na primeira fase da Libertadores, Zé Ricardo buscou se redimir de seus pecados. Era tarde. Pagou pela insistência e por uma estrutura que em quatro anos e meio consumiu dez técnicos. Sai como o profissional mais duradouro da gestão Bandeira e com 62% de aproveitamento e um título. Há, sim, uma carreira pela frente para comprovar que limites podem ser superados. Mas nesta reta final a aposta foi alta. E o destino era previsível.


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