O paciente Flamengo

A pressão sobre Zé Ricardo era tão forte que ele talvez tenha cometido o erro mais grave para quem comanda.

Ilha do Urubu lotada pela torcida do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
ANDRÉ KFOURI: Na conversa com João Castelo Branco, que a ESPN Brasil exibiu em maio, Pep Guardiola disse o que pensa a respeito do tempo de trabalho concedido a treinadores de futebol. A questão é um dos mistérios do jogo e provavelmente não tem resposta, pois mesmo se houvesse um período determinado que oferecesse garantia de sucesso, sua aplicação a grupos de pessoas diferentes mostraria o que já se sabe: o futebol é incontrolável. O próprio Guardiola não acredita somente na continuidade como fórmula, pois “quem te garante que ficando cinco anos [no mesmo clube] você irá bem?”, pergunta.

O problema, claro, é que há trabalhos encerrados em cinco meses no futebol brasileiro, por exemplo, ambiente em que o técnico que completa uma temporada do início ao fim é considerado um sobrevivente. Para responder a pergunta sobre a forma correta de avaliar um treinador, Guardiola preferiu dar menos atenção ao tempo, e mais ao tipo de convívio no clube: “Eles [os dirigentes], quando contratam um treinador, pensam que ele irá bem. Então, neste processo, nos próximos meses, eles têm que ver o que ele diz, como trabalha, e o que seus jogadores dizem. Se a relação dos jogadores com o treinador é boa, têm que dar o tempo máximo. Se a relação é ruim, têm que mudar”.

Zé Ricardo era o técnico há mais tempo no cargo entre os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, assumiu o Flamengo em maio do ano passado. A segunda temporada no comando naturalmente aumentou a exigência e o expôs às subjetividades que compõem as observações distantes: as conclusões de que o elenco deveria mostrar um desempenho melhor e de que o clube está infestado por um nível de conformismo que o impede de avançar. Em termos de resultados, o ano vai tão mal que chegava a surpreender que os responsáveis pela tomada de decisões exibissem tamanha paciência.

Não fosse por qualquer outro motivo, só o fato de não ceder à esquizofrenia de torcedores com tempo livre para ofender Paolo Guerrero no aeroporto já valia um elogio à diretoria do Flamengo. Sim, é arriscado aplaudir dirigentes no futebol brasileiro, mas aqui se trata da postura, não da figura. No país em que a tolerância com treinadores é artigo raro, comete-se o exagero de criticar quem é “tolerante demais”. E como é preciso encontrar uma justiticativa para a crítica, decide-se que esse comportamento diferente só pode resultar de falta de conhecimento. De todos, mas jamais de quem opina.

A pressão sobre Zé Ricardo era tão forte que ele talvez tenha cometido o erro mais grave para quem comanda: negar aquilo em que sempre acreditou na procura por soluções momentâneas que lhe devolvessem um mínimo de tranquilidade. Ao notar o técnico questionar a si mesmo, jogadores claramente sem confiança tentaram acionar o modo invisível em campo e qualquer possibilidade de boa atuação coletiva se perdeu. E quem acha, por lavagem cerebral ou pura preguiça, que os problemas de um time de futebol só são resolvidos com a demissão do técnico se encheu de razão.

Voltando à opinião de Pep Guardiola sobre o assunto, eis o que disse Diego, vaiado após a derrota do Flamengo para o Vitória: “Nós gostaríamos de estar fazendo mais até pelo Zé, que é um cara de um caráter excelente. A verdade é que gostaríamos de estar conquistando a vitória para dar tranquilidade para o trabalho dele”. Quando jogadores expõem preocupação com o técnico que os dirige, existem duas possibilidades: 1) a demagogia de quem já sabe que a mudança acontecerá, e 2) o recado de quem quer evitá-la. Diego nunca foi um demagogo.

ATUALIZANDO

Com o primeiro turno completo, é hora de atualizar as chances de título do Corinthians. A média de pontuação do campeão no Brasileirão com vinte clubes é 76 (corrigida para cima). O líder tem 47 pontos, portanto faltariam 29 em 57 possíveis, ou seja, uma campanha de 50,8% no segundo turno. É o equivalente ao desempenho do Flamengo até agora.


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