O Tao do Brasileirão

Nessa altura do campeonato, ainda é possível viver à espera de um milagre que leve o Flamengo ao tao do título? Dureza.

Foto: Divulgação
REPÚBLICA PAZ E AMOR: Por Jorge Murtinho

A história aconteceu no final da década de noventa. Eu trabalhava em uma agência de propaganda no centro do Rio de Janeiro, e havia um revisor chamado Luiz Otávio, gente boa toda vida e um dos mais sacrificados da equipe. Chegava por volta das três da tarde, ia para casa no mínimo doze horas depois, já de madrugada. Para piorar, ao rabo de Luiz Otávio apontavam as kidbengálicas picas trazidas pela possibilidade de seguir para o jornal um anúncio com erro de preço – o principal cliente da agência era um grandalhão do setor de varejo. Mesmo com toda a responsa e todo o perrengue, Luiz Otávio era frila. Não tinha direito a FGTS, férias, vale-refeição, nada.

Pouco antes do Natal, alguém veio com a infeliz ideia de promover um amigo oculto, brincadeira da qual até então mantínhamos distância. E a cada um de nós foi solicitado que pusesse, numa folha de papel pousada junto à garrafa de café, sugestões de possíveis presentes, o que só aumentava a sem-graceza da coisa. Naquele ano faziam sucesso os livros de inspiração taoísta, e eles dominavam a pequena lista de desejos. O Tao da Física, O Tao do Jeet Kune Do, O Tao da Busca. De saco cheio daquela vida de excluído, Luiz Otávio seguiu a tendência e tacou lá o que gostaria de ganhar: O Tao do Décimo Terceiro.

Vinte anos depois, entre uma e outra das nossas duas últimas derrotas (Santos na quarta-feira, Vitória no domingo), eu esquecia a sofrência rubro-negra mergulhando na deliciosa prosa da autora moçambicana Ana Cássia Rebelo. O livro, Ana de Amsterdam, reúne escritos originalmente postados no blog de mesmo nome e é uma pequena obra-prima. Em um dos textos Ana Cássia joga a toalha em relação a certos preconceitos de seu velho pai: “Há batalhas que já não merecem ser travadas.”

Lembrei da fina ironia do Luiz Otávio, da caretice do pai da Ana Cássia, da situação do Flamengo no atual Campeonato Brasileiro, e sei lá por que tentei unir os pontos.

Nessa altura do campeonato, ainda é possível viver à espera de um milagre que leve o Flamengo ao tao do título? Dureza. O jeito é se agarrar a situações passadas, relembrar pontos conquistados ou não em outras edições da competição, citar campeões e reviravoltas, tirar leite de pedra.

Opa: encerramos o primeiro turno com vinte e nove pontos, enquanto na conquista de 2009 o fizemos com vinte e sete. A questão é que, como sabemos, aquele foi um Brasileiro diferente, e talvez tão fora da curva como o que tem sido o de 2017. Desde que o campeonato passou a ser disputado sob o sistema de pontos corridos, em 2003, o de 2009 foi o único em que um clube levou a taça com menos de setenta pontos. Ganhamos quarenta no segundo turno – treze a mais do que no primeiro – e fechamos com sessenta e sete.

Algum alento nisso? Lamento: não. Se repetirmos os tais treze pontos a mais, terminaremos com setenta e um, pontuação que dificilmente será superior à de Grêmio e Corinthians. Melhor buscar outra linha de raciocínio.

Se no primeiro turno somamos vinte e nove pontos e o Corinthians quarenta e sete, por que no segundo não pode acontecer o inverso? Matematicamente, é possível; futebolisticamente, haja fé. Ainda que seja correto prever e esperar derrapadas corintianas, a questão é saber qual será o tamanho do tombo, e sobretudo se ele permitirá ao Flamengo que se aproxime. Dezoito pontos de diferença exigem um baque capaz de quebrar a mais sólida das firmas.

Ocorre que o segundo turno sequer começou e, pelo menos para mim, é maior a decepção de ver o time fora da briga na metade do Campeonato Brasileiro do que eliminado na fase de grupos da Libertadores. Para quem tem um elenco como o nosso – e que ainda não era esse aí quando encaramos San Lorenzo, Universidad Católica e Atlético Paranaense –, a precipitada despedida do Brasileiro me parece mais dolorosa.

Não sou um otimista exagerado. Todavia, o segundo tempo contra o Corinthians e a partida com o Santos, até a inaceitável pregada de Rodinei em Jean Mota, me deixaram com a sensação de que faltava pouco, uma hora dessas o time ia dar liga e poderia embalar. Flamengo e Vitória, na Ilha do Urubu, foi o balde de água fria.

Para adicionar gelo, achei no mínimo imprudente a escalação contra o Palestino. Com Diego suspenso e fora do jogo com o Atlético Mineiro, seria adequado não correr o risco de também perder Everton Ribeiro. Não demorou para a ficha cair: apesar das compreensíveis negativas, tudo leva a crer que o nosso departamento de Futebol adotara a resignada sentença de Ana Cássia Rebelo, passando a considerar o Brasileiro uma batalha que já não merece ser travada. (Não há evidência maior do que a contratação de Reinaldo Rueda, que embora represente uma escolha ousada e positiva, sinaliza com a desistência em relação ao Brasileiro de 2017 e mira o fortalecimento do time para o ano que vem.)

Na última quarta-feira, assistindo a Flamengo e Palestino pelo Fox Sports, ouvi o narrador João Guilherme dizer que, fora da Libertadores e do Campeonato Brasileiro, resta ao Flamengo lutar pela Copa do Brasil e pela Sul-Americana. Vocês eu não sei, mas eu não me conformo. Quase cento e vinte dias cumprindo tabela, depois de investir uma grana preta em estrutura e contratações, chega a ser um despautério. E nem a desgarrada pontuação do Corinthians serve de desculpa: tivéssemos feito o que até agora fez o Grêmio, estaríamos firmes na batalha.

Confesso que me sinto como o revisor Luiz Otávio, que conservava um inútil fio de esperança em um dia adquirir as benesses da CLT, porém tudo indica que João Guilherme esteja certo, e eu errado. Para o narrador, um torcedor rubro-negro achar que ainda há chance de conquistar o Brasileiro de 2017 é como acreditar em Papai Noel ou no Coelhinho da Páscoa. Eu fico com o Saci Pererê.

Se vocês duvidam que ele existe, perguntem aos moradores de Botucatu.

Marcadores:

Postar um comentário

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget