A crise de identidade do Flamengo e o vice adequado à sua ambição

É seu hino, suas músicas na arquibancada, sua história construída com raça, amor e paixão que nenhum dirigente revolucionário vai apagar.

Torcedor do Flamengo com o troféu da Copa do Brasil - Pedro Vilela/Getty Image
O GLOBO: Por Diogo Dantas

O vice do Flamengo na Copa do Brasil não deve levar o clube a repensar os seus conceitos para o profissionalismo do futebol, mas na prática é preciso que as cobranças por desempenho sejam maiores. Sobretudo pelo alto investimento feito em um plantel que pouco entrega até agora em termos de conquistas. A perda do título para o Cruzeiro abalou novamente a confiança da torcida, que recebeu a promessa de anos melhores com a casa arrumada.

A ideia de que ser campeão é uma questão de tempo é relativa. No futebol, usa-se calendário como desculpa para tudo. Claro que o processo de restruturação do clube cobraria um preço no início, mas o foco agora precisa estar definitivamente no campo. O Flamengo não joga futebol condizente com o próprio elenco ou este elenco é superestimado? Sendo uma coisa ou outra, porque a diretoria deveria manter o trabalho intacto se algumas peças não correspondem de forma sistemática?

Claro, a tal terra arrasada não é solução e o trabalho de longo prazo fatalmente renderá frutos. Até lá, o que acontece no Flamengo é uma crise de identidade. O discurso propagado internamente de que o importante é se manter no topo e chegar nas decisões, para que um dia se encontre o pote de ouro ao fim do arco-íris, consolida uma espécie de conformação que não combina com os versos ambiciosos do hino rubro-negro.

Não que os atletas e profissionais não estejam engajados por vitórias e conquistas. Mas envolvê-los em uma redoma sob o pretexto de que há comprometimento com o trabalho é pouco quando o produto fim é o resultado esportivo. O DNA de vitórias e o “Vai pra cima deles, Mengo” deram lugar a um discurso sempre ponderado e uma atitude em campo de uma equipe que corre, mas não pulsa como sua torcida espera. O técnico Reinaldo Rueda reparou isso com 40 dias.

Futebol é e sempre será paixão. E, exageros á parte, a aceitação de um Flamengo apenas frio, concentrado, que só controle o jogo, sem o definir, ignora o conjunto de sua própria essência esportiva. Porque se falarmos apenas de campo e bola, de jogo, hoje o vice da Copa do Brasil está de bom tamanho. Não é um fraque, mas veste muito bem ao time do Flamengo atual, que se remenda a cada ano e não encontra uma cara de uma vez. Que comemora balanço e contratação e venda de jogador. Mas que viu seu treinador colombiano apostar em um jovem e improvisar um lateral na hora de mexer na partida mais importante do ano no Mineirão. Cadê o elenco qualificado? Chegou na final, lutou até o fim, se comprometeu… "O que mais vocês querem, rubro-negros? Vencer, vencer, vencer… ?", perguntaria um dirigente contrariado.

E antes que se pense em comparar com outras campanhas honrosas por aí, vale notar que não é apenas o valor financeiro atribuído ao time e á marca que tornam as conquistas esperadas. É seu hino, suas músicas na arquibancada, sua história construída com raça, amor e paixão que nenhum dirigente revolucionário vai apagar. Hoje, essa trinca ficou mais conhecido pelo nome dos planos de sócio, pelos quais se paga caro .


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