Flamengo e Palmeiras são maus exemplos no aproveitamento da Base

Desde que Eduardo Bandeira de Mello assumiu a presidência do Flamengo, no início de 2013, o clube carioca é símbolo de boa gestão financeira.

Time Sub-20 do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza/Flamengo
CORREIO BRAZILIENSE: Victor Gammaro

Os motivos que levam os clubes brasileiros a recorrer às categorias de base costumam se alternar apenas entre três: reposição de um jogador vendido, substituição de um atleta machucado e falta de dinheiro para contratações.

Jogar em um clube com situação financeira estável costuma ser o sonho da maioria dos jogadores profissionais. O dinheiro, porém, pode se tornar um vilão e destruir o sonho de um atleta que sobe da base.

O melhor exemplo no país, hoje, é o Palmeiras, atual campeão brasileiro e dono do maior patrocínio da Série A — o mecenato alviverde vai garantir quase R$ 200 milhões ao clube em 2017 e 2018. Desde que Alexandre Mattos assumiu o cargo de diretor de futebol no Palestra Itália, em janeiro de 2015, foram feitas 52 contratações. Apenas 24 seguem no clube. O excesso de negócios levou à diminuição na utilização de jovens formados em casa. No Brasileirão, o alviverde é a equipe que menos recorreu aos atletas formados em casa: apenas dois entraram em campo no primeiro turno.

O volante Gabriel Furtado e o atacante Matheus Iacovelli foram os meninos que tiveram chance com Cuca. O primeiro esteve em campo por 45 minutos na vitória por 2 x 1 sobre a Ponte Preta. O segundo participou de apenas 17 minutos da derrota para a Chapecoense, por 1 x 0, na Arena Condá.


Recentemente, o Palmeiras emprestou uma das principais apostas para o Barcelona B até junho de 2018. O meia Vitinho, com passe fixado em R$ 55 milhões, estreou com gol pelo clube catalão. Caso o Barça exerça a preferência de compra e acerte com o atleta de 19 anos, o Verdão deixará de ganhar quase R$ 50 milhões, pois, em 2016, a diretoria renovou com o atleta estipulando multa rescisória estimada em R$ 100 milhões. 

“Craque o Flamengo faz em casa”?

O slogan da base flamenguista, mantra da torcida, é constantemente repetido em entrevistas de dirigentes rubro-negros. Em junho de 2016, o então vice de futebol, Flávio Godinho, usou a frase quando admitiu efetivar o técnico Zé Ricardo, recentemente demitido.

Desde que Eduardo Bandeira de Mello assumiu a presidência do Flamengo, no início de 2013, o clube carioca é símbolo de boa gestão financeira. Assim como no Palmeiras, no entanto, o excesso de jogadores rodados atrapalha a evolução de atletas formados no Ninho do Urubu. Resultado: o rubro-negro usou apenas sete pratas da casa, sendo o terceiro pior time da elite nacional. Entre alviverdes e rubro-negros está o Cruzeiro, que lançou seis meninos.

O Flamengo ainda chama a atenção por ter Vinícius Júnior no elenco. Já vendido ao Real Madrid, o atacante de 17 anos tenta conquistar uma vaga no time titular contra jogadores mais rodados, como Berrío, Éverton, Éverton Ribeiro e Geuvânio. O rapaz, que até ano passado mal jogava no time sub-20, foi a maior transferência da história do Flamengo e a nona negociação mais cara envolvendo um atleta brasileiro. Ele se apresentará ao Real em julho de 2018. 

“Com a situação financeira privilegiada, os europeus contratam quem quiserem. Quando falamos do Flamengo, estamos falando de uma base boa, campeã”, opina Micale, em referência ao título carioca na Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2016, em uma geração que contava com Ronaldo, Felipe Vizeu, Lucas Paquetá, Thiago e Matheus Sávio.

Base na Série A

Em 2015, os quatro primeiros colocados do Campeonato Brasileiro revelaram — ou deram continuidade — a pelo menos uma boa revelação da base. O vencedor, Corinthians, tinha o atacante Malcom, hoje no Bordeaux-FRA e deu oportunidades a Guilherme Arana, um dos destaques do time atual, que lidera o Brasileirão mesmo sem grandes investimentos. O Galo, vice-campeão daquele ano, afirmou o zagueiro Jemerson, campeão francês com o Monaco-FRA na última temporada.

Há dois anos, o Grêmio lançava nomes como Pedro Rocha, Everton e Luan, sendo que o último chegou a Porto Alegre no último ano de formação, vindo do Tanabi-SP. Em 2016, o trio foi fundamental no time campeão da Copa do Brasil. Neste ano, os três continuam somando boas atuações, o que deve impulsionar a saída de Luan para a Europa. O tricolor ainda contava com o volante Walace, que foi vendido ao Hamburgo-ALE.

Quarto colocado naquele Brasileirão, o São Paulo tornou Rodrigo Caio, cria de Cotia, um dos principais líderes do elenco. Além dos primeiros colocados, mais clubes lançaram jogadores que ganharam importância, como foi o caso de Thiago Maia e Gabigol, no Santos, e Jorge, do Flamengo. Atualmente, eles estão no futebol europeu: Lille-FRA, Inter-ITA e Monaco-FRA, respectivamente. 

“A base sempre aparece como uma solução boa, vale muito investir mais pesado nela do que em contratações de jogadores de fora”, afirma Paulo Henrique Azevêdo, especialista em marketing esportivo e professor da Universidade de Brasília (UnB).

O Brasileirão de 2015 ainda apresentou Gabriel Jesus ao país, eleito revelação do campeonato aos 18 anos. O atacante foi importante na conquista da Copa do Brasil pelo Palmeiras daquele ano e titular absoluto no time campeão nacional em 2016. Atualmente, é o centroavante principal da Seleção Brasileira de Tite e do Manchester City de Pep Guardiola, que pagou R$ 121 milhões para contratá-lo.

Ciência inexata

Dar espaço a muitos jogadores da base não está necessariamente ligado a obter resultados satisfatórios. Exemplo disso é o Internacional, clube que mais utilizou atletas formados em casa no Brasileirão de 2016, torneio que terminou rebaixado pela primeira vez na história.

Na campanha da queda, o colorado utilizou 16 jogadores lapidados no Beira-Rio. Os meninos da base representaram 40% dos atletas usados pelo time de Porto Alegre naquela Série A. Só o Santos, vice-campeão, teve mais representantes da base do que o Inter no elenco: 45,7%.

O Internacional também liderou outro quesito em 2016: foi o clube que mais cedeu atletas revelados no clube para outros times da Série A. Ao todo, 16 ex-colorados vestiram camisas de clubes da elite no ano passado.

Ainda que não haja relação direta entre aproveitamento da base e sucesso no Campeonato Brasileiro e o rebaixamento colorado não se explique pelo uso excessivo de atletas das categorias de base, em 2016, os quatro times que menos usaram os jogadores criados em casa encerraram o torneio na segunda metade da tabela.


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