Sem arrependimento

O Flamengo não esteve muito melhor. Gabriel nunca se firmou na sua função original, imaginem jogando de lateral-direito.

Flamengo x Paraná pela Primeira Liga - Foto: Staff Images
O GLOBO: Por Fernando Calazans

A ideia da Primeira Liga criou uma esperança para muita gente que vê o futebol brasileiro com outros olhos, bem diferentes daqueles olhos que o governam. Era uma espécie de primeiro passo para questões importantes como incrementar a união dos clubes e dar a eles mais independência e liberdade em relação à CBF. Por coincidência e por ironia cruel, o que prevaleceria depois seria um fato independente e até inesperado.

Fato este, mais um, em benefício da entidade, que conseguiu reduzir o poder de voto dos clubes e aumentar o das federações, na sua eleição presidencial. É certo que um acontecimento não tem a ver com o outro, mas foi a CBF que ganhou mais um capítulo contra os clubes.

Outros fatores enfraqueceram a Liga. Um deles relembrado agora por Abel Braga, em entrevista depois da eliminação do Fluminense para o Londrina: “Você não pode criar uma competição sem clube paulista”. É verdade. E os clubes paulistas não deram a menor bola para a Liga.

Mas o principal problema, ao lado da indiferença dos paulistas, era — e ainda é — o próprio calendário do futebol brasileiro. Mesmo sem a Primeira Liga, esse calendário já era algo ensandecido e incivilizado. Continua sendo, e o problema, naturalmente, é como e onde encaixar mais jogos ainda — sejam da primeira, da segunda ou da oitava Liga. É como tornar nacionalmente atraente esse torneio — sem os clubes de São Paulo e com os jogos enfiados em datas e circunstâncias exóticas.

Hoje, não há como condenar técnicos daqui e dali que poupam jogadores titulares, às vezes o time inteiro, nas datas da Primeira Liga. Até eu, que implico com esse recurso utilizado pelos treinadores de poupar profissionais que vivem disso — e vivem bem —, até eu compreendo a necessidade de escalar times mistos, reservas, ou “alternativos”, como se diz agora, em mais um modismo que vamos copiando do “futebolês dos técnicos professores.

E como fizeram, neste meio de semana, os treinadores dos times cariocas envolvidos na competição: o mesmo Abel Braga, do Fluminense, e o Reinaldo Rueda, do Flamengo, este mostrando desde já sua adaptação ao futebol brasileiro. Só os cariocas? Não. Aliás, nenhum deles se mostrou mais decidido e resoluto do que Renato Gaúcho, do Grêmio, que, não contente em poupar seus titulares, poupou até a si próprio e nem foi ao Mineirão para o jogo com o Cruzeiro, deixando a tarefa por conta de seu auxiliar.

Em comum, aconteceram duas coisas com esses três treinadores que pouparam seus times nas quartas de final da Liga. A primeira é que todos perderam e foram eliminados da competição. A outra é que nenhum deles ficou chateado ou arrependido por isso.

Próprio para experiências

Outra coincidência: os dois cariocas, Fla e Flu, perderam para times da Série B, Paraná e Londrina respectivamente. Algo que não chega a ser alarmante porque, devido à decisão de poupar os jogadores que vêm sendo mais exigidos, e com tantas alterações, os que entraram em campo mal tinham atuado juntos. Do goleiro ao atacante mais avançado, nem Fla nem Flu tinham apresentado alguma vez as escalações da quarta-feira.

Além disso, os técnicos dirão, com sinceridade e razão, que aproveitaram os jogos da Primeira Liga para observar a rapaziada da base, alguns reservas que não têm sido utilizados e outros jogadores que precisam entrar em forma física e técnica. Nem todos, é verdade, corresponderam às expectativas desses treinadores, da torcida e da crítica.

No Paraná, parecia que o Fluminense é que era da Série B. O time misto jogou muito mal, como reconheceu Abel. Júlio César falhou em pelo menos um dos dois gols que levou, atrás de uma defesa que voltou a se mostrar insegura. No retorno ao campo, depois de longa inatividade, um jogador importante como Sornoza deixou claro que ainda está longe da forma ideal. Pedro e Peu ainda não se credenciaram para jogar no time titular. Romarinho é que melhorou um pouco o ataque, ao substituir Sornoza no intervalo. Até Wendel, em meio a tantos reservas, passou o jogo em branco.

O Flamengo não esteve muito melhor. Gabriel nunca se firmou na sua função original, imaginem jogando de lateral-direito, numa “invenção” do Rueda. Rômulo tampouco conquista lugar no time. Sempre tão exaltados no clube e fora dele, jovens como Felipe Vizeu, Lucas Paquetá, Matheus Sávio (que não jogou) e outros ainda não justificaram os elogios. Vinícius Júnior pode ser a exceção, mas, por ser tão jovem, ainda oscila muito. Ele e Paquetá perderam os pênaltis na decisão. Muralha... bem, Muralha custou, mas agora é bem conhecido da torcida. Ficou longe de defender uma cobrança de pênalti, e falhou de forma primária no gol do Paraná, uma falta cobrada da intermediária.


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