Decisão de técnico faz Flamengo sucumbir diante do São Paulo

Pouco é feito para conter o desastre. Mas a conta, desta vez, deve ser paga em sua maior parte por Rueda.

Reinaldo Rueda falando com Juan, zagueiro do Flamengo - Foto: Staff Images
CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Ao optar pela troca de técnico convém ao departamento de futebol de qualquer clube entender a filosofia do novo profissional e dar respaldo para que suas decisões sejam colocadas em prática. Não é, no entanto, uma via de mão única. O novo profissional não pode ser tão inflexível e ignorar metas estabelecidas que podem comprometer a melhora do desempenho na temporada. O objetivo, claro, é justamente esse ao trocar um profissional: melhorar. Com a escalação estapafúrdia contra o São Paulo, Reinaldo Rueda comprometeu o jogo e, por tabela, um passo em 2017 ao entregar 45 minutos ao rival e sacramentar a derrota de 2 a 0 no Pacaembu. Falta diálogo entre os anseios do clube e a filosofia de Rueda. O resultado foi catastrófico.

O colombiano chegou com ótimas referências e fama de quem gosta de “girar o grupo”. É boa a opção, ainda mais com elenco tão vasto para padrões brasileiros como o do Flamengo. Ocorre que apostar em soluções inusitadas e abrir caminho para testes a nove rodadas do fim é um tanto quanto arriscado. O Flamengo que disputaria o título brasileiro com Zé Ricardo não traz hoje, com Rueda, nenhuma garantia de que conquistará ao menos uma vaga na Libertadores de 2017. Há compromissos a cumprir antes de pensar em 2018. A campanha no Brasileiro é, desde já, um fracasso. Contra o São Paulo, abatido pela derrota acachapante diante do Fluminense na rodada anterior, a obrigação do Rubro-Negro era impor seu jogo. Ter até um controle psicológico da partida, além de tático. Nem uma coisa, nem outra.

Embora estivesse na capital paulista, o São Paulo nem mesmo com seu estádio pôde contar. E talvez tenha se surpreendido ao encontrar pela frente um Flamengo no 4-2-3-1, mas com Geuvânio como centroavante. Ainda mais difícil de entender: esperando o São Paulo em seu campo. Talvez a ideia de Rueda fosse dar velocidade e mobilidade ao ataque, com Berrío e Everton pelos lados, Everton Ribeiro centralizado. Mas Geuvânio, sem nenhum cacoete como centroavante, não faria o time se readaptar sem Guerrero. Lucas Paquetá, testado diversas vezes com sucesso por Rueda, ficou no banco. E o Flamengo, ao que parece, também. A bola batia e voltava para o São Paulo.

Do outro lado, o Tricolor Paulista estava bem organizado também em um 4-2-3-1, com Cueva e Marcos Guilherme pelos lados, Hernanes ao centro e Pratto à frente. Mas ganhou a partida quando teve a bola e, principalmente, volantes com qualidade para sair ao jogo. Jucilei e Petros tinham espaço para iniciar a partida e tentar explorar os lados, principalmente com Cueva às costas de Trauco. Era mesmo difícil entender o porquê a posse de bola são-paulina chegou até perto de incríveis 70% diante de um Flamengo que nos últimos tempos gosta mais da bola do que o adversário. Mas era claro: o time rubro-negro não se entendia, muito espaçado. A bola viajava metros e metros ao trocar de pés rubro-negros.

Chegou, então, a ser uma ironia que o São Paulo abrisse o placar em lance irregular. Escanteio de Hernanes pela esquerda, casquinha de Edimar e Pratto, com o braço, empurrou para o gol diante de Rever. Um lance difícil para a arbitragem, dada a sua rapidez. Mas claríssimo na imagem da tv. Contestá-la só é possível ao abraçar a desonestidade. Sim, o gol foi de braço. E, sim, o São Paulo era melhor diante de um adversário inofensivo. Um Flamengo que nem parece se incomodar tanto ao estar atrás do placar. Sente um conforto inexplicável como quem tem a certeza de que tudo vai mudar. Não iria.

Era claro que a equipe de Rueda precisava ser modificada de forma imediata. Geuvânio e Berrío tentaram trocar posição algumas vezes, o que só tornou o time mais confuso. E o vício antigo voltou com força: bola ao lado e cruzamento para a área. Mas não havia centroavante. Não havia quem escorar a bola. Não havia quem tentar finalizar. Havia, sim, um time espaçado, entregando o centro do campo ao São Paulo. Arão se mandava ao ataque. Jucilei, soberano no meio, enxergava buracos para mandar o Tricolor à frente. A rigor, o Flamengo teve um bom lance, com enfiada de bola de Everton Ribeiro para o xará Everton, que bateu no canto e Sidão fez boa defesa. O jogo era são-paulino.

Que quase aumentou em chute cruzado de Lucas Pratto, salvo por Diego Alves. À beira do gramado, Rueda via o Flamengo passar apuros e aceitá-los como verdades incontestáveis. O segundo gol foi apenas a sequência esperada do enredo. E saiu de um tiro de meta. Sidão para Eder Militão desviar de cabeça. Cueva às costas de Trauco e cruzamento para Hernanes, livre, fuzilar Diego Alves de cabeça. 2 a 0, jogo resolvido. Era claro que o Flamengo não teria forças para remendar tamanho estrago no segundo tempo.

Rueda tentou consertar. Geuvânio por Paquetá. Com cinco minutos, um chute na trave selou a lesão de Berrío no joelho esquerdo e nova troca. Com Diego. Graças ao destino, o Flamengo se auto-ajustou com Diego centralizado, Everton Ribeiro para a direita, Paquetá ao centro. O São Paulo deu passos para trás. Sabia do momento de instabilidade que vivia e um gol sofrido poderia significar o revés. Fez o básico. Mas nem assim o Flamengo saberia se impor. Petros, como um xerife sem estrela, mandava e desmandava com berros e cara feia sem contestação de qualquer rubro-negro. Um time moralmente derrotado.

Que girou o jogo, teve a bola, mas só foi agredir o São Paulo quase no apagar das luzes, com um chute de Cuellar e uma cabeçada de Rhodolfo, bem defendida por Sidão. Um arame liso, como dito pelos companheiros Mauro Cezar Pereira e André Rocha. Com 45 minutos desastrosos, o Flamengo entregou partida importante no Campeonato Brasileiro e pode deixar o G-7 já na próxima rodada. Foram 43 cruzamentos contra nove do São Paulo, de acordo com o site Footstats. Quatro finalizações no alvo contra três do rival. Um time apático, que possibilitou um jogo mais equilibrado na metade final, mas completamente comprometido pelo apresentado no início.

Reinaldo Rueda foi bem recebido por torcida e imprensa. Teve apoio para trabalhar. Mas deve ao menos achar um bom termo entre seu método de revezamento de elenco e as prioridades do Flamengo na temporada – se é que, de fato, estão definidas. A vaga direta na Libertadores para elenco de tamanho investimento é o mínimo que se espera neste Campeonato Brasileiro. Manter Lucas Paquetá na vaga de Guerrero era o básico para não desestruturar um time já irregular na tabela da competição. Sem saber como se impor sobre um time frágil no Brasileiro, o Flamengo sucumbiu em minutos graças a uma escolha errada. O São Paulo nem precisou apresentar um ótimo jogo. Há inúmeros problemas no futebol rubro-negro em 2017. A maneira de gerir o departamento, decisões erradas, apatia diante do grande impacto no ano, como a Libertadores. Pouco é feito para conter o desastre. Mas a conta, desta vez, deve ser paga em sua maior parte por Rueda.


Marcadores:

Postar um comentário

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget