E la nave rubro-negra va

O Palmeiras ainda liderava o Campeonato Brasileiro de 2009 com folgas, e o clima no Flamengo era a barafunda de sempre, você lembra.

Foto: Divulgação
REPÚBLICA PAZ E AMOR: MARCELO DUNLOP

Contam que Fellini, não o goleiro italiano dos anos 1960 mas o cineasta, tinha uma tática ao filmar. Enquanto rodava seu “Oito e meio”, por exemplo, o diretor grudou na câmera, próximo ao visor com uma espécie de fita gomada, o singelo lembrete: “Lembre-se, este é um filme de comédia”.

A temporada do Flamengo em 2017 não tem sido propriamente cômica – salvo um gol contra do Pará ou um penal do Éverton Ribeiro – mas a sacada de Fellini para não perder a mão até que pode ser útil. Não custa nada afixarem nos ônibus, vestiários e nas salas da diretoria, a faixa: “Lembre-se, o Flamengo é um clube de futebol”.

Os três pontos conquistados contra a Chapecoense (não chame aquilo de vitória ou os jogadores vão fazer de novo) foram obra da proverbial “bastilha inexpugnável” de Nelson Rodrigues, com a santa ajuda do goleiro Diego Alves. As camisas rubro-negras estavam jogando ao vento, sem corações, nervos e sangue a recheá-las. É uma equipe de repartição, onde cada jogador-funcionário se isola em seu cubículo, sem aproximação, sem passe, sem companheirismo. Sem corpo nem alma.

O humorista e torcedor fanático Ricardo Araújo Pereira uma vez escreveu: “O futebol é demasiado importante para ser discutido a sério. E, no entanto, há um número cada vez maior de pessoas que pretende ter conversas sérias sobre bola”. Estava certo o adepto do Benfica. O futebol, de tão sério, só vale quando jogado com alegria. Alegria para os de fora e os de dentro de campo também.

Uma pena que hoje a alegria parece passar longe dos gabinetes e gramados rubro-negros. Puxe o noticiário do Flamengo e só se lê termos como metas, faturamento, G7, custo-benefício, euros, negociações e CEO, quando não vetos e proibições. Não se ouve mais palavras como toque de bola, tática, suor, vibração, gols. Se um incauto falar em élan na Gávea, periga um executivo replicar: “É marca de quê? Será que topa anunciar no meião?”.

O Flamengo sobreviveu a uma tempestade de quase 20 anos, com rombos no casco, marujos abandonando o navio e muito rato gordo entrando e saindo. Hoje singramos águas bem mais calmas, mérito de muitos que permanecem no clube. Mas é difícl não perceber como cada temporada que começa nos lembra uma embarcação italiana partindo, cena de que Fellini tanto gostava.

Pode reparar: o transatlântico Flamengo zarpa todo ano sob criancinhas acenando, bandeirolas ao vento e um novo capitão de peito estufado no convés, exalando confiança. A convicção é geral: essa odisseia vai longe! Sim, cruzaremos os sete mares e retornaremos cheios de troféus e histórias para contar. Mas o navio dá três voltinhas em Paquetá e regressa melancolicamente, com três bobões de gel e camisa polo tirando selfie na amurada.

Ah, minhas irmãs flamengas e meus irmãos flamengos, vocês eu não sei. Mas já ando tendo estocadas de saudades de um tempo borrascoso e sombrio, no qual o clube parecia um navio cargueiro com sérvios furiosos e corsários barbados, com tatuagens à la Guerrero e brincos à la Adriano. O convés cheirava a rum e volta e meia algum boçal amarrava uma sereia no mastro, de dar medo. Mas, quando no horizonte surgia uma ameaça… Sai da frente, Simbad! Aqueles perebas comandados por um ou outro velho lobo do mar empunhavam suas espadas cegas e faziam misérias, fosse o inimigo um barquinho tricolor em formato de kombi, uma caravela portuguesa ou imponentes galeões da Catalunha.

Outro dia, encontrei um velho parceiro rubro-negro, que me contou uma história curiosa dos tempos do Hexa. O Palmeiras ainda liderava o Campeonato Brasileiro de 2009 com folgas, e o clima no Flamengo era a barafunda de sempre, você lembra.

Dinheiro escasso, atletas jovens sem receber, técnico recém-demitido, Andrade tentando motivar o grupo. Ao conversar com os líderes da equipe, o Marcos Braz, homem forte do futebol à época, prometeu que a cada vitória a partir dali haveria um bicho gordo, pago imediatamente no vestiário. Ninguém botou fé.

No primeiro jogo no Maracanã após o acordo, enquanto o time vestia as chuteiras, apareceu um sujeito nunca dantes visto na Gávea, com um belo mochilão às costas. Sentou-se num canto do vestiário e ficou, ignorando o olhar curioso dos jogadores. Vitória sacramentada, elenco em festa, o tal zé-mochila abre a sacola e tira de lá o tesouro escondido: uns 10 mil reais em espécie, dados para o goleiro Bruno distribuir ao grupo. Dali até dezembro, o zé-mochila virou o cara mais querido do clube e apareceu em todas as partidas, mais que o Adriano. E o final da história todos conhecem.

E hoje? O que motivaria nosso elenco a formar um time imbatível? Falta tempo? Treino? Tática? Técnica? Tudo? Talvez faltem detalhes, como um amigo avisar ao Muralha para pelamordedeus não pular três segundos antes nos pênaltis. Ou talvez a maior lição venha de outro grande gênio, já que nem Fellini nos salva: falo de Neném Prancha.

Prancha, folclórico treinador de praia, prezava o futebol simples e ofensivo, e repetia que o jogador deve ir na bola como se fosse um prato de comida. Se nossos boleiros pararem de ir na bola como quem escolhe um canapé na bandeja, de mindinho erguido, a alegria há de voltar. “Lembre-se, o Flamengo é um clube de futebol”.


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