Flamengo e Vasco deixam o Maracanã devendo futebol

Tudo pela guerra, nada pelo futebol. Uma desonra ao passado do Clássico dos Milhões. Pena.

Everton e Ramon em Flamengo x Vasco - Foto: Delmiro Júnior
CHUTE CRUZADO: Por Pedro Henrique Torre

O clima bélico que voltou com força entre torcidas de Flamengo e Vasco recentemente tem interferido de forma direta nos confrontos entre as equipes. Com o ambiente carregado houve clássicos nos quais as jogadas foram ríspidas, as discussões ásperas. E há os duelos apenas guerreados, não jogados. Em todos os casos o receio de perder do maior rival empobrece o jogo. O empate sem gols no Maracanã, neste sábado, foi reflexo direto disso. Flamengo e Vasco desceram para os vestiários com uma dívida com o futebol.

A proximidade das equipes na tabela, o conhecimento mútuo entre elenco rubro-negro e técnico vascaíno, parceiros há até pouco tempo, pareciam ser ingredientes suficientes para tornar o jogo atraente. Mas o que se viu em campo foi uma retração. Pareceu quase um medo palpável de jogar. Talvez um esquecimento. Pois Flamengo e Vasco priorizaram a guerra por cada palmo de campo em vez de futebol. Muita disposição, divididas, embates. Pouca técnica, calma para desempenhar um jogo mais qualificado e, consequentemente, mais propício à vitória.

Desde que chegou ao Flamengo Reinaldo Rueda tem se notabilizado pelo pragmatismo. O técnico ofensivo no período de Atlético Nacional reforçou o sistema defensivo e tornou o Flamengo mais seguro, tarefa necessária para um time que estava em farelos no fim de um trabalho desgastado de Zé Ricardo. Mas o colombiano parece não conseguir dar o passo seguinte. Partir para um time criativo, com jogadas ensaiadas, troca vasta de passes e busca de espaços para finalizar. O Flamengo não pecou pela apatia, como uma semana antes diante do São Paulo. Correu, lutou. Mas faltou pensar e buscar o momento, o passe certo. Muito coração, pouca razão. São dois componentes que funcionam juntos. É um time nada inspirado nas jogadas. O que surpreende, por contar com jogadores como Diego e Everton Ribeiro.

No 4-2-3-1, Rueda manteve Paquetá na vaga do – mais uma vez – lesionado Guerrero. Sem Cuellar, suspenso, a opção foi por Márcio Araújo. O camisa 8 não comprometeu na parte defensiva. Mas tampouco ajuda na ofensiva, embora tenha tentado. A saída de jogo do time rubro-negro foi mais pobre, obrigando Everton Ribeiro e Diego a retornarem antes do círculo central, vez e outra, para receberem bolas de Juan e Rhodolfo. O Flamengo tentaria acelerar o jogo pelas pontas, principalmente com Everton pela esquerda. Zé Ricardo sabia.

Também em um 4-2-3-1, o treinador vascaíno deixou Pikachu e Mateus Vital nas pontas, com Nenê centralizado, buscando espaço atrás dos volantes, embora fosse acompanhado por Márcio Araújo. Jean vigiava Diego, enquanto Wellington, mais solto, buscava ajudar a aproximação ao ataque. Zé Ricardo, como nos primeiros meses de Flamengo, tornou o Vasco bem mais consistente na parte defensiva. Não há muitos espaços para penetrar neste novo Vasco. O problema é que o time é pouquíssimo criativo. Andrés Rios é quase um náufrago no ataque. Os cruzmaltinos até tiveram mais a bola no primeiro tempo. O Flamengo tentava marcar a saída de jogo vascaína, mordendo nos pés de zagueiros e volantes. Acuado, o Vasco tentava lançamentos em demasia. Era um perde e ganha.

O clássico apenas melhorou para os rubro-negros com uma boa sacada de Rueda, ao trocar os Evertons de lado. E o camisa 22, pela direita, deu trabalho a Ramon com a correria. Foi num vacilo de corte do lateral vascaíno que Everton disparou pela direita e rolou rasteiro, suave, para Paquetá. De frente para o gol, o menino perdeu chance que não se desperdiça em um clássico. Batida rasteira, para fora, livre de marcação. Ramon pediu desculpas. Mas a dor de cabeça continuou.

Pois Jean tentava auxiliar o lateral com os arranques de Everton. E o meio ficava mais aberto para Diego, alvo da marcação do volante vascaíno. Wellington passou a ficar mais preso, preocupado também com Arão. O Flamengo encorpou, adiantou o time. O trio atrás de Paquetá trocava muito de posição, tentando confundir marcadores. E ironicamente quase sofreu o gol nas costas de Trauco em um contra-ataque. Calcanhar de Rios para Madson, que foi travado na hora do chute dentro da área por Rhodolfo. Presença providencial que fez o primeiro tempo terminar empatado no Maracanã.

Seria de se esperar uma mudança no segundo tempo. Um desejo de vencer a partida, incomodar o adversário. Mas Flamengo e Vasco continuavam com as mesmas escalações e mais desejo de guerrar pelo campo, pelos espaços, do que de jogar. Queriam ter o controle do jogo não para vencer. A prioridade, mesmo, era não ser derrotado. Zé Ricardo inverteu Wellington da direita para a esquerda, tentando frear os avanços de Arão, que ameaçou uma subida no fim do primeiro tempo. O Vasco entendeu que o lado direito era melhor e forçou o jogo com Pikachu e Madson. Everton já estava de volta ao setor no Flamengo.

Em um bate-rebate, a bola sobrou para Nenê, que chutou mascado. A bola ainda bateu em Juan antes de beijar a trave esquerda de Diego Alves. O Vasco tinha a sua melhor chance na partida quase por acidente. O jogo não era bom. Estava muito abaixo do esperado com equipes que disputam uma vaga na Libertadores de 2018. Rueda até tentou colocar um molho no seu time, que já apresentava cansaço. Everton Ribeiro, por exemplo, trotava com a pelota nos pés, em busca de fôlego. Vinicius Junior e Vizeu substituíram Everton e Lucas Paquetá. O Flamengo melhorou o ímpeto ofensivo muito em função do garoto já vendido ao Real Madrid.

Com apenas 17 anos, Vinicius Junior não tem receio de arriscar o drible, um cruzamento, uma finalização. Entrega-se ao jogo com inocência do moleque que é. Parece ter consciência de que vai errar algumas, mas lhe agrada mais o risco de acertar em outras. O Vasco já se moldava ao 4-4-2, com Nenê e Rios mais avançados, pois se defendia bem mais em seu campo. Com Vinicius atacando pelo setor, Zé reutilizou a ideia de dois laterais pela direita, como fazia com Pará e Rodinei nos tempos de Ninho do Urubu. Pôs Gilberto avançado, na vaga de Pikachu, apoiando Madson, para tentar segurar o camisa 20. Arão, em chute de longe, e Juan, em cabeçada após escanteio, chegaram perto de marcar.

Mas o Flamengo, milionário com seus reforços, dependia mesmo de um garoto de 17 anos para criar algo no ataque. Com Diego apagado, foi Vinicius quem puxou a bola pela esquerda e colocou Vizeu sozinho de frente para Martín Silva. Bisonhamente, o atacante perdeu chance clara ao errar a cabeçada e facilitar a defesa do goleiro vascaíno. Nenê, bem acompanhado por Márcio Araújo, fora substituído por Manga Escobar. Mateus Vital ainda tentava encontrar o seu espaço centralizado quando Ramon se lesionou. Com as três substituições queimadas, Zé Ricardo reorganizou o time no 4-4-1. E perdeu a dobradinha da direita, já que Gilberto foi deslocado para a lateral esquerda. Trabalhou pelo empate por quase dez minutos. E conseguiu.

Um jogo pobre. Apenas cinco finalizações na direção do gol, de acordo com o site Footstats – quatro do Flamengo, uma do Vasco. Sobrou vontade, faltou futebol bem jogado aos dois times. Bem posicionados no sistema defensivo, mas com sérios problemas de criação. Um problema que o Flamengo já trazia dos tempos de Zé Ricardo e que Rueda ainda não conseguiu resolver. Na saída do Maracanã, o entorno do estádio foi lotado com expressões hostis, gosto pela agressividade. Nos dias atuais, o futebol parece ser a última das prioridades em um Flamengo x Vasco. Tudo pela guerra, nada pelo futebol. Uma desonra ao passado do Clássico dos Milhões. Pena.


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