Ideias novas

Quando Rueda chegou ao Flamengo, a primeira coisa que percebeu foi a grande deficiência do time em cobrir os espaços defensivos.

Foto: Gilvan de Souza
PAPO DA NAÇÃO: Por Mateus Garcia

A chegada de Reinaldo Rueda ao Flamengo trouxe consigo diversas mudanças no âmbito tático para a equipe Rubro-Negra. Neste texto procurarei trazer as mais notáveis e porque o jogo trazido pelo colombiano tem se traduzido em bons resultados e, acima de tudo, melhora na organização e no desempenho da equipe, que é o mais importante.

Assim como Zé Ricardo, Rueda tem uma preferência pelo jogo reativo, adaptativo ao adversário, conceito que já expliquei no texto "Os traços de Mourinho: 'retranqueiro' ou reativo". Desta forma, a essência da equipe é ter organização, o equilíbrio sempre estará em primeiro plano em detrimento a um padrão de jogo definido. A equipe sabe como se comportar em campo em qualquer situação do jogo. Porém, existem diferenças um pouco gritantes do pensamento do colombiano ao do agora técnico do Vasco, vamos aos fatos.

Zé Ricardo mostra-se um técnico que admira muito jogadas simples e ataques mais cautelosos, o time de Zé costuma ser bem paciente nas partidas e vitórias por poucos gols são comuns, ou até empates. Além do mais, é notável que o brasileiro gosta de preencher o meio campo em busca de dar espaço aos corredores laterais, isso pode ser notável na tentativa de trazer Mancuello como um ponta-direita, um Raumdeuter, termo também abordado num texto aqui do blog sobre o argentino. Desta forma, agrupava-se o time numa zona do campo, a zona central, enquanto dois jogadores, um por cada lado, agrediam os corredores externos, esses jogadores geralmente eram Everton pela esquerda (com Trauco trabalhando como laterior, ou seja, um lateral que se projeta por dentro para aumentar a quantidade de jogadores na faixa central) e Pará pela direita, com Mancuello ou Everton Ribeiro sempre encostando em Guerrero. Vale lembrar que durante alguns momentos houve-se também a preferência por Orlando Berrío, neste caso Pará fazia função parecida a de Trauco.

O grande problema do jogo de Zé Ricardo e que o fez ser demitido era o excesso dessa paciência que as vezes fazia com que o time ficasse nervoso e tentasse de qualquer maneira agredir o adversário, esquecendo totalmente o plano de jogo. Além disso, todo o sistema desfavorecia completamente a fase de construção, que é a primeira fase ofensiva, nela você permite com que a bola saia da defesa para realizar a transição, comumente a conhecemos como saída de bola. Por ter tantos jogadores prontos para fazer a transição defesa-ataque, era necessário um jogador que pudesse cobrir espaços na defesa, principalmente em razão da lentidão da dupla de zaga Rubro-Negra, seja ela qual fosse, e por isto Marcio Araujo tinha sua titularidade. A saída de bola, entretanto, não era comprometida por falta de qualidade, mas sim por falta de variação: laterais pouco participativos, meio campo distante da linha defensiva na fase de construção eram as principais causas para que o time rodasse a bola e não conseguisse avançar em campo. A má fase de Arão no começo do ano também tem explica muito bem isso, erros de posicionamento constantes mostravam a monotonia da saída de bola praticada pelo Flamengo, para mais detalhes sobre este fato, clique aqui para ver o texto específico sobre o caso de Arão).

Quando Rueda chegou ao Flamengo, a primeira coisa que percebeu foi a grande deficiência do time em cobrir os espaços defensivos deixados por uma dupla de zaga lenta e que, por imposição da camisa, precisava jogar bem adiantada para fornecer a compactação necessária para controlar a maioria dos jogos. Todo esse trabalho era feito pelo volante Marcio Araujo, como já mencionado. O colombiano, portanto, decidiu aplicar um aspecto tático muito menos utilizado aqui no Brasil, mas comum na Europa, principalmente na Itália, e nos países sul-americanos de língua espanhola, laterais mais defensivos, ou seja, com pouca participação efetiva nas situações de ataque, mais especificamente na fase de finalização de jogadas.

No Brasil estamos muito acostumados a ver os laterais bem agudos, sempre explorando os espaços e confiando sua cobertura aos zagueiros e volantes, é clássico de nossa cultura futebolística, porém isso exige leitura rápida de jogo ou velocidade por parte da defesa. A cobertura, portanto, agora é feita pelos próprios laterais. Esta é a razão de Pará ser tantas vezes titular, pois tem mais qualidade na marcação individual e na cobertura de espaços em comparação ao seu companheiro de posição Rodinei. Com isto, não precisamos mais nos preocupar tanto com as coberturas defensivas, podemos deixar o meio campo trabalhar mais o jogo enquanto a defesa tem seu claro papel de evitar que aconteçam gols na própria meta, além de que iniciam a saída de bola, desta vez tendo mais opções de passe com a presença dos laterais na primeira fase.

A partir da menor participação de laterais no último terço, surgem dois problemas, e para solucioná-los precisamos entender que Rueda enxerga o jogo de uma maneira bastante pragmática, dado seus estudos na Alemanha e sua raiz colombiana, assim ele entende que cada setor (defesa, meio e ataque) tem sua função como blocos diferentes porém unidos.

Para começar, a primeira pergunta: quem será responsável por fazer a transição defesa-ataque? A resposta vem no setor do meio-campo, justamente na troca de Marcio Araujo por Gustavo Cuéllar. Como os laterais já são responsáveis pela cobertura, não mais se necessita de um volante que seja muito bom nesse quesito, apenas o mínimo de organização para não sobrecarregar a linha de defesa, algo possível para o volante colombiano. Cuéllar é um jogador que tem muita eficiência nos passes diagonais e se projeta bem ao ataque, isto somado ao poder ofensivo de Arão, tanto nos passes quanto, principalmente, nas infiltrações, tornam o time muito mais perigoso e agudo.

A segunda pergunta é: na ausência dos laterais para abrir o campo no momento ofensivo, quem será responsável por abrir a defesa adversária? A resposta talvez gere uma certa indignação por parte do torcedor Rubro-Negro, mas ela vem justamente na presença de Berrío como titular. Everton Ribeiro, por mais que tenha sido uma contratação de peso, um jogador com muita qualidade técnica, ao jogar na direita tende a sempre cair por dentro, auxiliando Diego na armação das jogadas e isto resulta na falta de jogadores abertos naquele lado, fazendo com que o lateral-esquerdo adversário não se preocupe tanto em guardar posição, já que ninguém agride por ali. A insistência de Rueda com Berrío surge dessa necessidade e é possível que o monitoramento do clube ao atleta Yimmi Chará, do Junior Barranquilla, ex-clube de Cuéllar, tenha vindo de um pedido de Rueda para fortalecer aquela posição.

O que se cria a partir dessas correções é um time mais coeso, que consegue se estruturar de forma mais consistente, com menos trocas de posições e jogadores entendendo melhor suas funções. O principal defeito é que é bem diferente daquilo que o Brasileiro sempre gostou, daquele jogo envolvente, com jogadores habilidosos e muito técnicos em todos os setores e a organização coletiva em busca da potencialização do talento individual. O jogo alemão, pelo qual Rueda tem estudado, sempre prezou pelo contrário, a importância do jogo coletivo mesmo que este se sobreponha ao talento. O colombiano precisa achar um equilíbrio entre seu conhecimento teórico e a prática do futebol brasileiro, mas isso vai levar algum tempo.


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