O curioso caso do time que não vira.

Vamos direto ao ponto: esse time do Flamengo é ruim, é frouxo, é desinteressado, ou todas as respostas estão corretas?

Foto: Reprodução
REPÚBLICA PAZ E AMOR: JORGE MURTINHO

Vamos direto ao ponto: esse time do Flamengo é ruim, é frouxo, é desinteressado, ou todas as respostas estão corretas?

Pará vem atuando com pose e atitudes de melhor lateral-direito do mundo, logo ele que talvez não seja o melhor lateral-direito nem da Zona Sul carioca.

Rhodolfo nunca foi um zagueiro refinado, porém a lembrança que tenho de suas atuações no Atlético Paranaense, no São Paulo e no Grêmio são carregadas de raça e vibração. Pois no Flamengo, depois de um início muito bom, Rhodolfo se machucou, voltou na condição de reserva e, agora, sempre que entra se mostra indiferente.

Trauco insiste em tentar nos seduzir com seu estilo latin lover blasé. O couro comendo, o bicho pegando, e ele lá, jogando futebol como se estivesse jogando charme.

Willian Arão tem se especializado em dar sequência aos lances ofensivos com uma agilidade de cágado. E na parte defensiva, pior ainda: no segundo gol do São Paulo, ele não conseguiu acompanhar a infiltração do lento meio-campista Hernanes.

Everton baixa a cabeça e cruza, cruza, cruza. Já fizemos vários gols na temporada em bolas levantadas por Everton para a área, só que a um preço excessivamente alto. Quantas outras possíveis jogadas não foram abandonadas devido à insistência, que evidencia a falta de recurso coletivo? A relação custo-benefício trazida pelos cruzamentos de Everton não me parece compensatória.

Após ter entrado muito bem no empate com o Palmeiras – tendo, inclusive, sofrido o pênalti que Diego desperdiçou – e de ter armado o contra-ataque no primeiro gol da vitória sobre o Coritiba, Geuvânio nada mais produziu que se pudesse elogiar. (O bom senso recomenda não considerarmos os cinco a zero pra cima do Palestino.) Em vez do atacante esperto e incisivo surgido no Santos, o que trouxemos da China foi um peladeiro tresloucado. Parece aqueles boxeadores sem noção, que partem para cima do rival descontroladamente, tomam uma bifa e beijam a lona. Jornalistas que manjam de futebol internacional dizem que é demorada a readaptação de quem passa algum tempo em mercados de nível muito abaixo. Tomara que tenham razão.

Do mesmo modo que um treinador novo e estudioso jamais poderia montar um esquema de jogo que dependesse de um meio-campista ultrapassado como Márcio Araújo, um treinador experiente e estudioso não pode acreditar na chance de resolver alguma coisa lançando mão de Gabriel – foi o que fez Rueda no intervalo da derrota para a Ponte Preta e repetiu no final da partida com o São Paulo.

O mais grave de tudo: é espantoso como um time de camisa pesada, e que dispõe de vários caras com extensa quilometragem, não demonstre o mínimo de equilíbrio e força para virar jogos.

Somente nas últimas cinco rodadas do Campeonato Brasileiro, o Cruzeiro ganhou da Ponte Preta de virada, o Atlético Mineiro do Cruzeiro, a Chapecoense do Atlético Mineiro, o Botafogo da Chapecoense, o Vitória do Botafogo, o Atlético Paranaense do Vitória, o São Paulo do Atlético Paranaense. Quanto a nós: nas três competições mais importantes do calendário, não conseguimos vencer uma partida sequer em que o adversário tivesse largado na frente. (Na única vez que viramos, contra o Santos pelo Campeonato Brasileiro, tomamos a contravirada e terminamos derrotados.) Se levar gol é sempre desagradável, no caso do Flamengo significa desespero: basta o inimigo abrir um a zero ou fazer dois a um para sabermos que, no máximo e com sorte, iremos para casa com um pontinho no bolso. Não sou chegado a ufanismos e bravatas baratas, acho furado esse papo de DNA vencedor, mas está mais do que na cara que isso não é Flamengo.

Alguns leitores atentos questionarão: qualé, Murtinho? O Corinthians também não virou jogo algum no Campeonato Brasileiro e segue nadando de braçada. Procede. A diferença é que, com o inesperado e irrepreensível desempenho de seu setor defensivo no primeiro turno – apenas nove gols sofridos em dezenove rodadas –, não foi necessário. Contudo, podem ter certeza de que, se der a maior paraguaiada da história do Brasileiro, o Corinthians sentirá falta de pontos que deveriam vir de um ou dois jogos aparentemente perdidos. O campeonato é assim.

O Flamengo continua vivendo da competição seguinte. É ela que alimenta nossas esperanças, ou fortalece nosso autoengano. Quando fomos eliminados da Libertadores, passamos a acreditar que tínhamos um elenco mais adequado aos pontos corridos. Ao perceber nossa distância para o Corinthians alcançar inacreditáveis dezoito pontos, apostamos todas as fichas na Copa do Brasil. Dançamos bonito. Apesar de não ser justo responsabilizar goleiro por derrotas em disputas de pênaltis, foi constrangedor ver Alex Muralha partir para a decisão movido por uma orientação típica de livro de auto-ajuda – “faz o que seu coração mandar”, disse o treinador de goleiros Victor Hugo – e se atirar cinco vezes para o mesmo lado. Restou a Sul-Americana. Se ganharmos, vou pular e comemorar, vou beber todas e mais algumas, vou escrever e publicar um post-desabafo. O que não vou fazer é empurrar para debaixo do tapete a inconveniente verdade de que a Copa Sul-Americana equivale à série B da Libertadores. Não era isso o que esperávamos, não foi para isso que investimos tanto.

Não trato de política clubística aqui no blog, mesmo porque, além de não frequentar a sede da Gávea, é algo que detesto. Portanto, que não vejam o texto como peça de propaganda contra ninguém ou a favor de quem quer que seja. Ocorre que, a cada exibição como a de ontem, se torna mais difícil esquecer as duras palavras do ex-técnico e atual fanfarrão Vanderlei Luxemburgo a respeito da falta de conhecimento futebolístico da nossa diretoria. De que adianta o Flamengo ser, hoje, um clube com capacidade financeira muito superior à do Grêmio, se insistimos em jogadores limitados, contratamos mal ou na hora errada e achamos nosso elenco melhor do que realmente é? O Grêmio está nas semifinais da Libertadores. Vale o mesmo na comparação com Corinthians, Cruzeiro, Santos, Botafogo nem se fala.

Semana passada, Réver declarou que a ansiedade em querer conquistar tudo atrapalhou os principais objetivos do Flamengo no ano, e que acabamos criando uma armadilha para nós mesmos. O problema é que ela continua montada: se a Copa Sul-Americana é a razão ou a desculpa para atuações desagradáveis e decepcionantes como a de ontem, então já podemos celebrar o título. Certo?

A resposta cabe ao presidente, ao CEO, à diretoria de futebol, ao pessoal do Centro de Inteligência e Mercado, à comissão técnica e aos jogadores. Foram eles que pariram Mateus; agora, que o embalem.


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