O Flamengo tem que aprender a aprender.

A transformação pela qual o Flamengo passa é um processo longo, talvez eterno.

Reinaldo Rueda cumprimentando Lucas Paquetá, do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
REPÚBLICA PAZ E AMOR: Tem um poema do Leminsky que diz no fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto, que extinto por lei todo o remorso, maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais. E o poema se conclui com o verso de inaudita sabedoria:

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas

Ora, uma grande parcela dos problemas e pequenos probleminhas que o Flamengo enfrentou nos últimos anos está intimamente relacionada ao fato de que o Flamengo ainda não se esqueceu do que é ser um clube da Zona Sul carioca que ainda cultiva anacrônicos fumos de elite fin-de-siècle e tampouco aprendeu a ser a empresa que joga duro no doggy-doggy world do futebol business. Às vezes se comporta com excessiva brandura e lentidão no trato das coisas flamengas, em outras se perde em uma imatura submissão às leis do mercado para atingir suas metas. Metas que muitas vezes estão na margem oposta ao comportamento institucional que o senso comum espera de um clube com seu tamanho, história e composição social.

Esse Flamengo, meio clube meio empresa, que transita entre imaturidade e a obsolescência muitas vezes sem passar pela excelência ainda tem muito o que aprender. O que suscita a pergunta: por que o Flamengo não aprende? Caso você ainda não o tenha feito vou responder logo à pergunta. O Flamengo não aprende porque as organizações, no geral, não aprendem. Não é segredo pra ninguém que o Flamengo, já faz algum tempo, está vivendo a radical transição de clube para empresa. Uma metamorfose complicada em que o mesmo corpo abriga um clube de 122 anos, orientado por ritos, tradições e idiossincrasias ancestrais e a startup ainda na primeira infância, orientada para o crescimento rápido, foco no sucesso e no resultado financeiro, mas ainda estabanada como qualquer criança.

É até natural que o Flamengo apresente os sintomas de um distúrbio de aprendizado. Que é moléstia comum até nas grandes corporações que conhecem exatamente o produto que estão vendendo. Não tenho certeza que o Flamengo saiba exatamente o que é que ele está colocando no mercado. Qual é o core business do Flamengo, o seu negócio principal? Há quem diga que o produto do Flamengo é futebol, os mais emaconhados dizem que o Flamengo vende emoções e outros ainda que o Flamengo é um fornecedor de conteúdo na indústria de entretenimento. Resumindo: o Flamengo, e nisto está junto a todos os outros clubes do Brasil, ainda não sabe, ao menos não com um índice confiável de certeza, em que mercado está atuando. E isso o Flamengo tem que aprender o quanto antes. Pelo menos antes dos outros.

Um estudo da Harvard School of Business fez pesquisas durante 10 anos com uma infinidade de empresas na gringolândia para entender porque as empresas têm tanta dificuldade para se tornar, ou permanecer, como organizações onde o aprendizado é constante. O estudo concluiu que as pessoas, que no fundo são as empresas, tem uma predisposição a se concentrar excessivamente no sucesso, em agir muito rapidamente, a depender demais de especialistas. E que essas arraigadas tendências humanas interferem diretamente sobre o aprendizado.

E no caso especial do Flamengo o problema é ainda mais agudo, porque para a grande maioria de seus consumidores o sucesso é aferido através de resultados esportivos obtidos em uma janela de 3 anos, onde o imponderável fica responsável por pelo menos 80 centavos de cada Real investido. O foco no sucesso, que a olho nu é uma virtude, e o bom tom recomenda que seja uma profissão de fé de todo dirigente do Flamengo, é na verdade uma armadilha. Lideres empresariais podem até dizer que o aprendizado vem dos fracassos, mesmo que todas as suas ações mostrem uma preocupação exclusiva com o sucesso. Mas se o presidente do Flamengo der declaração semelhante soarão as trombetas do Apocalipse em um troar ensurdecedor que colocará a Nação em fúria iconoclasta.

O problema da preocupação excessiva com o sucesso é a família que ele leva pra passear nos domingos. Os probleminhas são o medo de falhar, a mentalidade fixa, o excesso de crédito dado a performances anteriores e a tendência de culpar terceiros pelos insucessos. Puxa vida, é até difícil lembrar de alguma crise no Flamengo nos últimos 40 anos que não tenha a ver com os probleminhas passeadores. O Flamengo até hoje tem suas estratégias definidas por vice-presidentes que vão ao clube após o término do expediente em seus respectivos negócios e empregos. A contratação de especialistas para tocar o dia a dia do Flamengo não foi invenção da Chapa Azul em 2013, mas deve-se à ela a despersonalização da administração, afastando o dirigente amador dos processos executivos. Um inegável avanço, mas que como tudo na vida, também tem um custo.

Ao concentrar os processos executivos em profissionais remunerados, os Azuis trouxeram para dentro do clube uma cultura corporativa onde, conforme vimos acima, o aprendizado fica prejudicado. Cultura que reforçou em todo o corpo executivo a necessidade, muitas vezes irracional, de fazer algo, de tomar uma posição, declarar um princípio moral ou cívico. A aversão à inação é uma constante no mundo dos negócios, mas os resultados práticos desse viés ativo nem sempre sobrevivem ao escrutínio dos livros-caixa.

É o caso clássico das estratégias dos goleiros na hora do pênalti. Um estudo feito na Inglaterra mostra que os goleiros que ficam paradões no meio do gol são os que tem a melhor performance. Claro, eles já saem com 33,3% de chance de impedir o gol. Ainda assim só 6,3% dos goleiros adotam essa estratégia. Por que? Porque os humanos, e em especial os humanos exercendo funções executivas, se sentem melhor e acham que ficam melhor na foto quando levam o gol se jogando pra um lado ou pro outro do que quando ficam parados esperando no meio do gol e deixando inteligentemente a responsabilidade da ação, e o peso total de um eventual fracasso, com o cobrador.

A fissura em agir gera exaustão e rouba muito tempo do pensar. Podem perguntar pra qualquer executivo no que eles preferem trabalhar, no planejamento ou na execução de uma ação e se conclui rapidamente que as organizações reservam muito pouco tempo para o essencial trabalho de pensar. A falta de tempo para a reflexão resulta em más decisões. No Flamengo as más decisões parecem se concentrar cruelmente no Departamento de Futebol. E resultam na montagem de equipes que, independente de quanto custem, encontram enorme dificuldade pra entregar o que delas se espera.

Pelas minhas contas, que não são muito confiáveis, nos últimos 20 anos o Flamengo ainda não conseguiu ter sequer um elenco montado antes da pré-temporada. Absolutamente todos, inclusive os que foram capazes de conquistas nacionais, foram montados ao longo das competições, com todas as desvantagens que a prática de trocar o pneu com o carro em movimento acarreta. Nossa seca de grandes conquistas esportivas é um exemplo eloquente que a execução repetitiva de um processo equivocado não o transforma em um processo acertado. É outra coisa que o Flamengo precisa aprender.

A transformação pela qual o Flamengo passa é um processo longo, talvez eterno. Talvez nunca cheguemos a ser uma empresa, mas é certo que jamais voltaremos a ser apenas um clube. É impossível aos contemporâneos entender essa transição em sua plenitude. O que é possível entender é que quem estiver à frente do Flamengo, seja lá quem for, também estará, queira ou não, em um processo de aprendizado. E que toda solução encontrada forçosamente criará novos problemas que exigirão mais e mais aprendizado. Se a única certeza que temos é que tudo vai dar problema, a única salvação está em aprender. Para que pelo menos não se repitam os erros passados. Aprende, Flamengo.

Mengão Sempre

ARTHUR MUHLENBERG


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