O time do Flamengo tem raça, sim

Em resumo, no atual estado da maionese não dá nem pra saber, com razoável margem de certeza, em quem devemos tacar as pedras.

Éverton Ribeiro em Fluminense x Flamengo - Foto: Nelson Perez
FUTEBOLZINHO: Por Arthur Muhlenberg

A vitória do Flamengo sobre o apequenado Fluminense pela Sula não foi surpresa pra ninguém. A despeito da rivalidade e do peso histórico que tende a equilibrar o ancestral cotejo independente do momento vivido por cada equipe, uma vitória das meninas de Laranjeiras ontem poderia ser encarada como um violento ataque à lógica. Se é que serve de consolo para uma temporada frustrante, o Flamengo nesse fim de 2017 está visivelmente mal das pernas, mas o Fluminense está mal do corpo todo. Principalmente da cabeça e do bolso. É um time bravo, muitas vezes violento, que dá muita unhada, mas limitadíssimo. Que deve sua sobrevivência nas competições em grande parte ao carisma do seu treinador e à sua tradição, que desta não há quem escape e não falta quem queira ajudar nas altas esferas da putaria nacional.

Ainda assim o Flamengo penou um bocado pra garantir o magro placar e a subsequente e duvidosa vantagem do empate no jogo de volta. Nem é preciso explanar a falta de habilidade do Flamengo para lidar com vantagens e regulamentos, é uma das nossas mais sólidas tradições. Desfalcado de Guerrero, seu único atacante, o Flamengo voltou a mostrar em um Maracanã despovoado uma exasperante inofensibilidade e a confirmar a indesejada fama de arame liso. Muitos criticam o peruano pela modéstia de seus números na tábua de artilheiros em contraste aos seus altos vencimentos, mas quando ele não está em campo os gols do Flamengo só acontecem por abiogênese, praticamente por acaso.

Ultimamente muito se tem falado sobre uma suposta falta de raça do atual elenco do Flamengo. Essas criticas misturam, sem qualquer critério, misticismo, factoides baseados em um determinismo genético do tipo DNA perdedor e as vantagens da hemorragia subconjuntival (sangue no olho) sobre o desempenho do time. Parece conversa de terraplanista, e é. Raça, afora seu sentido original de classificação de diferentes populações de uma mesma espécie biológica em função de características genéticas ou fenotípicas é apenas um sinônimo para espírito de luta, determinação, empenho e coragem. A atuação do Flamengo no Fla-Flu de ontem foi um ótimo exemplo da diferença existente entre um time sem raça e um time sem pegada. São dois termos muito semelhantes, mas não são intercambiáveis.

O Flamengo não sofre por falta de raça. O Flamengo sofre por falta de pegada. É a nossa visível falta de pegada, que podemos definir grosseiramente como a capacidade de reagir à adversidade e encontrar soluções dentro de campo para resolver uma partida a despeito de suas limitações que explica a incapacidade do Flamengo para reverter placares desfavoráveis ou de manter vantagens estreitas sob ataque das forças adversárias. Não tem nada a ver com genética ou hemograma, está diretamente relacionada aos métodos de treinamento e, forçoso dizer, à inconsistência de um elenco com evidentes falhas em sua montagem. O que torna o problema ainda mais intrincado quando o responsável pelo treinamento e pela disposição tática da equipe não teve qualquer participação na montagem do elenco.

Em resumo, no atual estado da maionese não dá nem pra saber, com razoável margem de certeza, em quem devemos tacar as pedras. A torcida, que é essencialmente pragmática, não perde a viagem e taca pedra em todo mundo. Azar dos inocentes que se tornam vitimas colaterais, o importante é punir os culpados. Quando Guerrero e Diego, na minha modesta visão, os únicos jogadores nota 7 do elenco, viram alvo de jihads enlouquecidas a tendência é que a coisa fique mais feia ainda.

O time do Flamengo tem raça, sim. Nossa mulambada em geral, e não apenas o jovem Paquetá, corre muito, se entrega, encharca o Manto com a produção mais honesta de suas glândulas sudoríparas. Mas sofre, de maneira geral, com uma incontornável deficiência de recursos técnicos. Neguinho não tá chinelando, neguinho é ruim. E não há cobrança, de cartola, papagaio-de-pirata, jornalista ou torcedor que possa mudar isso. Que se há de fazer?

Hoy mi playa se viste de amargura
Porque tu barca tiene que partir
A cruzar otros mares de locura
Cuida que no naufrague en tu vivir

Cuando la luz del sol se esté apagando
Y te sientas cansada de vagar
Piensa que yo por ti estaré esperando
Hasta que tú decidas regresar

Mengão Sempre


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