Um dilema chamado Paolo Guerrero

Já teve grandes momentos no Flamengo e vem fazendo a sua temporada com mais gols pela equipe.

Foto: Getty Images
ESPN FC: Por João Luis Jr.

Não, 2017 ainda não acabou. Por mais que os mercados já tenham panetone, por mais que já seja impossível achar um bom apartamento para alugar pro Carnaval, ainda temos mais dois meses para o fim desse ano, assim como a reta final de ao menos 3 grandes torneios, o Brasileirão, a Libertadores e a Sul-Americana. Mas isso não quer dizer, é claro, que para o futebol o ano de 2018 ainda não tenha começado.

Afinal, clubes já planejam sua próxima temporada, dirigentes analisam seus elencos, treinadores preparam mentalmente listas de dispensa. Ainda que não abertamente, times já começam a ter em mente para o ano que vem quem fica, quem sai, quem precisaria vir. E isso não é diferente no Flamengo, que diante de uma temporada muito abaixo das expectativas precisa saber se movimentar para tentar algo diferente em 2018.

Alguns desses movimentos parecem causar mais otimismo, como a possível renovação de Juan, já que o zagueiro de 38 anos não apenas é o ponto mais alto da defesa rubro-negra como vem deixando claro que mesmo se tivesse na verdade 68 anos e se deslocasse com um andador ainda levaria vantagens sobre seus reservas imediatos. Já outras, como a renovação de Márcio Araújo, servem apenas para nos lembrar que Deus esqueceu a humanidade, sonhar é inútil, vamos todos morrer sozinhos num mundo frio e sem saída de bola.

Mas a grande discussão, a grande polêmica, é realmente a renovação do atacante peruano Paolo Guerrero, que alguns jornais já alegam ter potencial para transformar o jogador no mais bem pago do continente, decisão essa que para alguns é um importante passo para manter um integrante importante do elenco e para outros é apenas o equivalente a atear fogo numa pilha de dinheiro, com a diferença de que as cinzas que sobrassem não precisariam ser constantemente cedidas para a seleção de seu país.

E no meio disso está um conflito entre as duas leituras que a torcida faz do desempenho do peruano. Por um lado Guerrero é um jogador de referência, não apenas dentro do campo como fora dele, um dos líderes do elenco rubro-negro, titular de sua seleção, badalado internacionalmente e valorizado pela raça e dedicação. Mas por outro lado, claro, Guerrero é um atacante que recebe quase um milhão de reais por mês para marcar no Campeonato Brasileiro o mesmo número de gols que Rildo do Coritiba - ou quatro gols a menos que André do Sport Recife, um atleta famoso pelo hábito de pegar no sono em eventos sociais.

Claro que existem nuances. Guerrero não finaliza tão bem mas faz um ótimo pivô, alguns vão dizer. O peruano desfalca a equipe em várias partidas mas é um atacante que impõe respeito, dirão outros. Não marca com tanta frequência mas é decisivo, alguns alega. Mas a verdade é que na questão custo-benefício, talvez Guerrero realmente não seja um exemplo de contas que batem muito bem.

Não que o peruano não tenha qualidades. Guerrero é um atleta de boa capacidade técnica, dedicado, que nunca aparenta fazer corpo mole – na verdade tem até uma certa dificuldade de se controlar em dados momentos. Já teve grandes momentos no Flamengo e vem fazendo a sua temporada com mais gols pela equipe, então não tem como apenas descartar a contribuição que o jogador fez ao clube desde a sua chegada.

Mas ainda assim, para um atacante cujo salário pode ultrapassar a casa do milhão de reais por mês, a descrição “raçudo e sabe fazer pivô” ainda parece muito pouco. Guerrero tem a ingrata função de muitas vezes jogar isolado no ataque dominando bicudas impossíveis dadas pela zaga? Claro. Mas ao mesmo tempo perde gols incríveis, que nós sabemos que alguns atacantes considerados tecnicamente inferiores provavelmente fariam. Guerrero chama a marcação e intimida adversários? Com certeza. Mas também se mostra em vários momentos lento e incapaz de driblar um zagueiro no confronto direto.

Ou seja, Guerrero contribui com o time, claro, mas não na proporção que se acredita e muito menos de maneira a justificar um salário astronômico como o que pode vir a receber (ou mesmo o que já recebe). Isso quer dizer que ele deve ser dispensado ou não serve para o Flamengo? Não. Mas quer dizer que talvez seja hora de uma readequação, não apenas de expectativa como também financeira e até mesmo de estilo do jogo na relação do peruano com o clube.

Se Guerrero, na atual formação com dois atacantes abertos, fica várias vezes isolado, não seria válido um esquema com dois atacantes mais centralizados? Se Guerrero não faz tantos gols, não seria importante suprir essa deficiência com algum jogador finalizador ao seu lado? Sendo ele um jogador mais velho e constantemente cedido para a seleção, não seria essencial ter um reserva imediato e não improvisar um jogador como Paquetá, claramente dedicado mas que não é centroavante de origem?

Se o Flamengo quer manter Guerrero, é importante usar o atacante pelas virtudes que ele tem, não pelas que gostaríamos que ele tivesse, assim como é importante que ele seja recompensado pelo que oferece, não pelo que gostaríamos que oferecesse. Guerrero é um bom atacante, um jogador dedicado, uma parte importante do grupo, mas um Flamengo que prega austeridade e investimentos sensatos precisa ter um senso mais real do quanto cada atleta pode oferecer, do tempo que cada atleta merece ficar, de quais atletas merecem ficar ou não. E se queremos um 2018 mais eficiente, com mais resultados, isso com certeza precisa começar pela montagem do grupo e, num contexto que Márcio Araújo tem contrato renovado e Guerrero vai receber aumento, talvez o processo já esteja começando um pouco errado.


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