Um Flamengo enfim competitivo

Um Fla-Flu ainda aberto para a vaga na semifinal da Sul-Americana. Mas um duelo competitivo que os rubro-negros há algum tempo não

Cuéllar em Fluminense x Flamengo - FOTO LUCAS MERÇON
CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Em vários momentos na temporada o elenco do Flamengo foi cobrado pela falta de competitividade. Característica que chegou a mostrar na final do Campeonato Carioca. Desejo de título, entrega em campo. Componentes necessários além de organização e técnica. Algo que se perdeu e chamou atenção em duelos recentes contra Botafogo e São Paulo. No reencontro contra o adversário da final do Carioca, o Fluminense, o Flamengo mudou a postura. Entregou-se. Quis guerrear, como já pedira o técnico Reinaldo Rueda. E conseguiu a importante vantagem com a vitória de 1 a 0 nas quartas de final da Copa Sul-Americana, no Maracanã.

É fundamental apontar a gritante mudança de postura do Flamengo por ter sido algo determinante na vitória. Futebol, mesmo, esteve apenas um pouco acima do apresentado contra o São Paulo no último fim de semana. Talvez o vídeo viralizado de Lucas Paquetá correndo loucamente de um lado para o outro no Pacaembu tenha surtido algum efeito. Talvez seja apenas uma consciência coletiva. Pois o Flamengo entrou em campo no 4-2-3-1 mordendo o Fluminense. Paquetá de titular, na vaga do lesionado Guerrero. E havia espaço para jogar. Muito. Um pecado mortal do Fluminense de Abel Braga.

Armado também em um 4-2-3-1, o Tricolor tinha Richard e Orejuela como volantes. Mas, na prática, eles se convertiam quase em meias ao avançar tanto para encostar em Sornoza. Com Marcos Junior e Scarpa nos lados do campo, o Fluminense foi com sede ao pote. Mas apenas foi. Não voltou. No buraco atrás de volantes e laterais – Lucas e Marlon também não tinham apreço pela defesa – o Flamengo encontrava espaço para dialogar com calma. Diego e Everton Ribeiro por vezes trocavam entre centro e direita. Arão infiltrava como uma flecha e aparecia com frequência na área tricolor. Um jogo superior dos rubro-negros. Era até curioso.

Pois além de ser competitivo, o Flamengo era muito menos pragmático do que usualmente sob o comando de Rueda. Cuellar fazia bem a saída de bola e o time optava muito mais pelo jogo no lado direito. Ali, nas costas de Marlon, havia muito espaço para atacar. Era um Flamengo mais solto e firme, mesmo após a saída do capitão Rever, lesionado diante de uma entrada desleal de Marcos Junior. O Fluminense, talvez impactado por um rival mais ativo do que o normal, parou. Praticamente assistiu ao time rondar a sua área. O gol era questão de tempo. E até nisso o Flamengo mostrou repertório diferente.

Diego encontrou Everton Ribeiro na direita. O mais esperado seria um cruzamento, arma exaustivamente utilizada nos últimos jogos. Mas o camisa 7 percebeu Arão passando como queria dentro da área. No rolar preciso da bola, o chute rasteiro do camisa 5 foi rebatido por Cavalieri. Everton, presente dentro da área como um centroavante, tocou para o fundo do gol. 1 a 0. Placar que fazia jus ao apresentado em campo. Apenas um time carioca jogava nas quartas da Sul-Americana.

Nos minutos finais, porém, o Flamengo diminuiu o ritmo. Passou a trocar passes no campo defensivo e não mais à frente. Quase instintivamente, o Fluminense avançou alguns passos e esteve mais presente no ataque. Em boa jogada de Marcos Junior, Henrique Dourado só não empatou porque o Flamengo tem enfim um goleiro à sua altura. Diego Alves fez bela defesa. Esperava-se no segundo tempo uma mudança na escalação tricolor. Abel contrariou a ideia. Preferiu o papo a mexer no time.

Melhorou muito em função de um recuo do Flamengo. O gene pragmático de Rueda foi ativado no time rubro-negro, que deu passos para trás e passou a maior parte do tempo em um 4-4-2, de tanto que se defendia. O Fluminense, adiantado, mas com Richard mais bem postado, partiu para o abafa. Bola cruzada na área, tentativa de empatar o jogo, reequilibrar as forças com minutos da etapa final. Quase conseguiu. Em um bate-rebate elétrico, Marcos Junior perdeu chance inacreditável na pequena área ao chutar na trave. Em um chute de de Scarpa, Diego Alves mais uma vez fez valer a contratação com outra boa defesa.

Com menos espaço na faixa central, já bem vigiada por Richard, Diego passou a procurar o lado esquerdo. A comunicação com Everton Ribeiro foi reduzida. E a pressão tricolor aumentou com a troca de Orejuela por Wendel. Havia mais qualidade na saída de bola do Fluminense, acionando Scarpa ou Sornoza. Acuado, suportando a pressão, o time de Rueda precisava de uma válvula de escape, com velocidade. Mas preferiu ser pragmático. Sacou Everton e pôs Márcio Araújo em campo. Everton Ribeiro assumiu a ponta esquerda e Willian Arão, cansado e sem pique para acompanhar o meio, a direita.

De certa forma a estratégia de Rueda deu certo, já que forçou o jogo tricolor pelos lados. Abel jogou suas últimas fichas ao escalar Robinho na direita e colocar Scarpa de lateral-esquerdo na vaga do substituído Marlon. Estratégia clara: alçar bolas na área e testar a defesa rubro-negra. Mas havia duas barreiras pela frente. Apenas Henrique Dourado tem bom aproveitamento em jogo aéreo. E, além disso, Juan estava em mais uma noite de pura classe. Bem nas antecipações que minaram o jogo de Ceifador, o camisa 4 ainda mandou bola na trave em cabeçada.

Foi o sétimo Fla-Flu da temporada, com terceira vitória rubro-negra e quatro empates. Mas só agora o time voltou a lembrar o espírito aguerrido dos jogos finais do Campeonato Carioca. Igualou o combate da competitividade e superou o Fluminense com a melhor técnica. Diego e Everton Ribeiro renderam mais, se apresentaram ao jogo. Embora combativo, apenas o garoto Lucas Paquetá, com erros em demasia por afobação, e Trauco, mais preso à defesa, foram mais discretos. Um Fla-Flu ainda aberto para a vaga na semifinal da Sul-Americana. Mas um duelo competitivo que os rubro-negros há algum tempo não


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