Eduardo Bandeira me faz lembrar Ronaldinho Gaúcho

Acreditei que a escolha pelo Flamengo escondia a ambição de se tornar o segundo maior ídolo da história do clube.

REPÚBLICA PAZ E AMOR: JORGE MURTINHO

Em janeiro de 2011, passei uma semana com a família em Maragogi, litoral de Alagoas. Na noite do dia 12, assisti pela tevê à festa que a torcida rubro-negra fizera na Gávea, poucas horas antes, na apresentação de Ronaldinho Gaúcho. O hotel parou para ver.

Craque, rico, famoso e realizado profissionalmente, titular absoluto da seleção brasileira campeã mundial em 2002 e do Barcelona vencedor da Champions League 2005-2006, eleito duas vezes o melhor jogador do mundo pela Fifa, dono de técnica inigualável – Pelé chegou a dizer que ele jamais conseguiu fazer com a bola os malabarismos que Ronaldinho fazia –, pensei: esse cara não precisa de mais nada e poderia jogar no clube brasileiro que quisesse. Juntando fantasia e inocência, ambas logo transformadas em desilusão, acreditei que a escolha pelo Flamengo escondia a ambição de se tornar o segundo maior ídolo da história do clube.

Foto: Celso Pupo / Fotoarena
Nem seria tão complicado. Bastava um ano, um aninho só, de seriedade, dedicação e títulos importantes, para conquistar corações e mentes rubro-negros. Deu tudo errado. Com seriedade zero, mais dedicação ao Candongueiro do que aos treinamentos e nada além de um título estadual, Ronaldinho saiu de maneira inversa à que chegara: sem brilho e sem festa, discreto, à francesa. Uma decepção. Uma pena. Um desperdício.

Admito que o título do post é exagerado e injusto: foi só um jeito de chamar a atenção para o tamanho da oportunidade que Eduardo Bandeira de Mello vem desprezando. Por ocupar o posto mais alto no grupo que conseguiu virar o jogo que perdíamos há pelo menos cinquenta anos – desde que me entendo por gente que as administrações do Flamengo são desastrosas –, Bandeira de Mello merece consideração e reconhecimento. O que surpreende, espanta e me deixa inconformado é que, na boa, é muito mais fácil botar um time bom em campo, sobretudo quando se dispõe de recursos financeiros, do que consertar meio século de caos e irresponsabilidades. O trabalho pesado eles fizeram; na hora de colher os frutos, insistem em errar. E o pior: erram com a arrogância dos tolos.

O que também surpreende, espanta e me deixa inconformado é a incapacidade de Bandeira de Mello em compreender que, mais do que rebater as críticas às erráticas decisões de quem toca o futebol do clube, é fundamental encarar o quanto a sucessão de fracassos nas competições representa em termos de perdas financeiras. Além de ver escorrer pelo ralo o gorducho bolo das premiações por títulos, todo o resto cai: o número de sócios-torcedores, a venda de camisas e produtos de merchand, o público nas arquibancadas (o jogo entre Flamengo e Grêmio na Ilha do Urubu, num momento em que acreditávamos na conquista do Brasileiro, teve 16.960 pagantes e renda de R$ 1.161.345,00; Flamengo e Cruzeiro também na Ilha do Urubu, quando já estávamos em sétimo lugar e fora da briga, teve 5.910 pagantes e renda de R$ 209.100,00) e até o interesse dos patrocinadores. Adicione-se a isso o gigantesco aumento nos gastos do departamento – não deixem de ler o post “Os números que assustam”, de Walter Monteiro, no ótimo www.mundorubronegro.com –, e mesmo quem só liga para contas e balanços vai levar um susto.

Tenho sérias desconfianças a respeito desse papo de entender de futebol. Repito a pergunta que fiz em um dos meus primeiros posts aqui no RP&A: quem entende mais de futebol, o técnico Cuca ou nosso ex-presidente Delair Dumbrosck? Pois o título de 2009 só aconteceu devido a uma carteirada de Dumbrosck, que exigia a escalação de Petkovic, e a consequente saída de Cuca, que não aceitava pôr Pet para jogar.

Não importa. Com muito ou pouco conhecimento da matéria, é inegável que o que ocorre no futebol do Flamengo é uma formidável sequência de lambanças. Rafael Vaz perde.

É a convicção transformada em teimosia. A ausência de autocrítica. A crença meio religiosa, algo fundamentalista, de que estamos na direção certa e o jogo é assim mesmo, uma hora as coisas se encaixam, abrem-se as portas do paraíso, surgem as setenta e duas virgens. (Há quem diga que, na verdade, são setenta e duas uvas. Aí dá para encarar.) É o cientificismo barato que nos empurra estatísticas goela abaixo, quando todos sabemos que elas servem para revelar o que a gente quer. São os investimentos equivocados e as boas chances despercebidas. O que faziam nossos cientistas e especialistas enquanto o Santos ia à Alemanha buscar Bruno Henrique e o Palmeiras trazia Moisés da Croácia? Ah, sim, imagino que estivessem ocupados com a renovação do Gabriel e a vitaliciedade do contrato de Márcio Araújo.

Eduardo Bandeira de Mello será sempre, e incomparavelmente, melhor e mais importante para o Flamengo do que foi Ronaldinho Gaúcho. Entretanto, dói e dá dó ver a gestão desse presidente, que nos livrou da incômoda fama de Geni do futebol brasileiro, falhar desgraçadamente no básico e banal: montar um time capaz de ganhar jogos e erguer taças.

Com dinheiro no bolso e crédito na praça, não há quem me convença que seja difícil.

Este post é dedicado a Paschoal Ambrósio Filho, jornalista, sócio da Maquinária Editora e acima de tudo rubro-negro, que morreu na madrugada de 15 de novembro de 2017, data em que o Flamengo completou 122 anos.




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