Everton celebra volta por cima no Flamengo: "Olha de onde eu vim"

Everton pode ser chamado de coadjuvante de luxo deste elenco milionário rubro-negro. E dos mais eficientes.

GLOBO ESPORTE: Talvez você, torcedor do Flamengo, pense que conhece bastante Everton. Afinal, são duas passagens pela Gávea, títulos cariocas (2014 e 2017) e brasileiro (2009) e 250 jogos vestindo rubro-negro - a marca veio em jornada infeliz da equipe contra o Palmeiras.

O camisa 22, que já foi lateral, meia e ponta no Fla, é também do tipo que se faz notar em campo. Em 2017, está com tudo e sobra dentro da irregularidade rubro-negra na temporada. O jogador de 28 anos, natural de Nortelândia, entrou em campo 54 vezes, fez 10 gols e deu 13 assistências - recorde do elenco na temporada.

Everton ao lado de seus troféus conquistados pelo Flamengo - Foto: André Durão
Mas há muito mais a contar sobre Everton Cardoso da Silva. Algo que não sai em qualquer entrevista coletiva ou zona mista. Também pudera. A timidez e a simplicidade são traços da personalidade de Everton que se combinam com a leve gagueira na fala.

Everton pode ser chamado de coadjuvante de luxo deste elenco milionário rubro-negro. E dos mais eficientes. A ponto de liderar o time com ou sem Guerrero, Diego e Éverton Ribeiro, as estrelas da companhia.

Quer saber? O mato-grossense, autor da frase "minha Europa é o Flamengo" que ficou marcado no rubro-negrismo próximo da "minha vaidade é o Flamengo" do seu amigo Ronaldo Angelim, não liga muito para os holofotes.

- Se eu ficar dando entrevista toda hora, vou ser um dos caras também que ficam aparecendo mais. Mas não é uma coisa que combina comigo. Apesar de saber que isso não é bom para mim. Por que é bom o cara sempre estar falando, até para o torcedor e tal. Mas eu sou assim.

Pet tirou Everton do muro em Nortelândia

Ao fim da gravação com o repórter Carlos Gil, da TV Globo, Everton se divertiu com a encenação de sua saída de campo numa das 10 vezes que balançou as redes e decidiu uma partida em 2017. A imitação foi da saída contra o Cruzeiro. Ele abriu o placar com chutaço de canhota.

- Fiquei esperando você sair de campo. De repente, perto da divisória para a área de entrevistas, você abaixou, se benzeu e saiu correndo para o vestiário. Sem querer dar entrevista... - contou, aos risos, Carlos Gil.

Mas já foi pior. Quando chegou ao Rio de Janeiro, aos 18 para 19 anos, vindo de Curitiba, do Paraná Clube, Everton não conseguiu nem contar para um dos ídolos de infância - o número 1 é o baixinho Romário - que ele tinha sido fundamental para a escolha da camisa que pegou de jeito em seu corpo e fez crescer uma rivalidade na vizinhança e que para sua cidade de apenas cinco mil habitantes a 250 km da capital do Mato Grosso.

Atração turística na região, rio de Nortelândia era uma opções de lazer para Everton, fora jogar bola: Atração turística na região, rio de Nortelândia era uma opções de lazer para Everton, fora jogar bola:

- Naquele gol do Pet em 2001 eu vi que era Flamengo de verdade. Foi um dia emocionante na minha cidade. Teve passeata e tudo que tem direito.

O tio Claudecir, 20 anos mais velho, é vascaíno fanático - "lá em Nortelândia ou é um ou é outro, não tem outra história" - e tentava puxar Everton para os lados de São Januário. Mas o pé direito calibrado do sérvio Petkovic entrou nas redes de Helton como o destino na vida de Everton. Não à toa ele não titubeia ao falar do gol mais importante do ano: Vasco 0 x 1 Flamengo, em São Januário.

- Fiz gol na final do estadual, na Sul-Americana, os dois contra o Fluminense, mas o contra o Vasco foi especial. Meu tio teve que me aturar (risos). Ele tentava me fazer torcedor do Vasco. E esse dia foi um dia que eu falei "sou Flamengo de verdade mesmo". E depois de muito tempo fui jogar com o Pet. Nossa... Mas eu não consegui falar com ele sobre isso. Eu era muito tímido com o Pet. Eu era moleque e ele já era consagrado - recorda o jogador do Flamengo.

Embarque para Curitiba: dor dos pais e choro engolido

O garoto franzino chegou ao profissional no Paraná "bem magrinho", como repetiu algumas vezes nestes poucos mais de 20 min de entrevista. Everton entende que o trabalho recente de fortalecimento muscular que o permite jogar mais vezes nesta temporada. Desde que chegou ao profissional, saiu dos 65 kg para 72 kg.

Desde a base, em Curitiba, ele tinha dentro de casa uma espécie de nutricionista particular. Era Godoy, o olheiro que ganhou a confiança da família e virou um segundo pai para Everton, o acolhendo em Curitiba. Além de fazer marcação cerrada e controlar os horários de lazer e até de namoro de Everton nas horas de folga, Godoy ia para a cozinha e ajudava o promissor jogador.

- Tudo que você imaginar eu comi para engordar. Uma vez ele (Godoy) me deu um ovo puro para eu comer. Acho que ele viu o filme lá do Zezé ("Dois filhos de Francisco"), não é possível (risos). Ele quebrou o ovo e falou "você vai ficar forte". Eu jantava e ele batia uma massa lá, um hipercalórico. Duas horas depois comia isso de novo. O cheiro desse hipercalórico aí, quando sinto lá no CT, nossa... isso já me enjoa. Comi isso a base toda. Era muito magrinho - lembra.

Nascido em cidade com cultura de rios e pesca, Everton diz que não tem paciência para pescar. Mas adora peixe... no prato. Dourado e pintado são os peixes preferidos da sua terra. A lembrança de casa se mistura com as dificuldades que viveu num período da carreira em que se preocupou com as idas e vindas, após a venda milionária para o Tigres.

"Daqui a pouco vou ficar marcado por jogar em 80 clubes"

Depois de ser campeão brasileiro pelo Flamengo, em 2009, ele saiu da Gávea para o México por quase U$S 6 milhões - uma fortuna que trouxe responsabilidades que à época ele não conseguiu administrar em campo. Não foi bem. Parou por quatro meses com lesão no ombro e cirurgia. Depois, machucou o pé e parou de novo.

No Botafogo, também não permaneceu. Chegou à Coreia do Sul num momento de declínio na carreira. No país asiático estranhou os hábitos, até mesmo um impensável em dias de protesto no Ninho. Era aplaudido até quando perdia os jogos. O período o fez repensar a carreira.

- Fiquei três anos sendo emprestado. Foi um momento ruim, que eu tive que falar "Everton, o que está acontecendo?" Acabava o ano e eu não sabia para onde ia jogar. Eu pensava que tinha que dar a vida para onde fosse, senão daqui a pouco vou ficar marcado como aquele jogador que jogou em 80 clubes. Fui para o Atlético, eles montaram um time bom para caramba. E de lá vim para cá.

No dia 11 de dezembro, Everton completa 29 anos. Quer seguir em alto nível, pelo menos, até os 35 anos. Do garoto que saiu de Nortelândia, que surpreendeu aos pais num dia que apareceu de brinco e tatuagens - "meu pai queria me matar, minha mãe chorou quando viu (risos)" - e se firmou no time de maior torcida do país, fica a certeza de que alcançou sonhos ainda distantes quando era apenas mais um menino correndo atrás de uma bola de futebol.

- Se vir minha história lá do começo você pensa: "esse cara é um vencedor". Olha de onde eu vim? Minha cidade é pequenininha. Sou o único que virei jogador lá. Saí cedo de casa, uma criança, deixei para trás pai, mãe, fui para Curitiba, passei frio lá. A categoria de base inteira de sacrifício. Mas valeu a pena né. Olho para trás e digo "caramba, cara, olha onde estou?"


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