Flamengo reencontra seu espírito

Tecnicamente, não foi um clássico exuberante. Houve momentos. Mas não há como descrever um Fla-Flu.

CHUTE CRUZADO: por  Pedro Henrique Torre

É tarefa sempre difícil descrever um Fla-Flu. Um clássico que não se joga apenas. Sente-se. Vibra-se. Deixa-se envolver por uma incrível e quase palpável eletricidade que emana da arquibancada para o campo. Do campo para a arquibancada. Uma troca de energia. Na primeira noite de novembro do ano, o clássico construiu mais um capítulo para ser contado por décadas. Elegeu herois e vilões. Brincou com destinos. Foi maroto. Indicou um lado, mas presenteou o outro. Travesso Fla-Flu. No 3 a 3 que classificou o Flamengo às semifinais da Copa Sul-Americana, um garoto de 17 anos permitiu ao clássico uma reviravolta daquelas que se conta como fábulas. Emprestou sua eletricidade aos rubro-negros. E, como um genuíno torcedor de sua gente, sorriu ao fim.

Vinicius Júniro e Lucas Paquetá no Flamengo - Foto: Jorge Rodrigues/Eleven

Aparecerá algum emburrado a contestar que Vinicius Junior nem mesmo fez um gol. Mas nem precisou. Assim como não teve um jogo inteiro ao seu dispor. Mudou o destino de um Fla-Flu decisivo com 32 minutos simplesmente com sua presença. Resgatou um espírito que o time já apresentara no mesmo jogo, mas passou a duvidar após ficar em desvantagem de dois gols. Foi um clássico de prender o fôlego. De briga, literalmente. Palmo a palmo. Campo a campo. Tenso. Começou bem hostil. Com bordoadas, ameaças. Pegado, como deve ser. Principalmente após um gol tão cedo do Tricolor, que fez evaporar a vantagem rubro-negra com dois minutos.

No já tradicional 4-2-3-1, o Flamengo iniciou o jogo com Vizeu em vez de Paquetá no ataque. Uma presença mais incômoda aos zagueiros tricolores. Mas o Fluminense não se intimidou. Dividiu todas as bolas. Como a que Sornoza rachou com Trauco. A sobra foi para Marcos Junior, que achou Lucas passando pela direita. Uma bomba no alto de Diego Alves, no espaço vazio deixado pelo lateral peruano ao dar o bote no meio. 1 a 0. Tão cedo. Tão explosivo. Tão Fla-Flu.

Pois só mesmo o clássico mais imprevisível de todos para retirar vantagens assim, tão rapidamente. No 4-3-3, o Fluminense tinha Scarpa aproximado de Marcos Junior e Henrique Dourado, com Sornoza e Douglas mais atrás. Mas com muita mobilidade. O trio trocava constantemente de posição, procurando confundir a marcação rubro-negra. Mas que ainda assim não impediu as investidas do Flamengo. Em jogo tão disputado, a bola viajava de um campo ao outro. O Flamengo tentou por dentro com o trio Diego, Arão e Everton Ribeiro, que deixava a direita para buscar o diálogo com o camisa 10. E deu certo. Numa troca de passes, Lucas fez falta boba em Diego na frente da área. O meia bateu com perfeição. Eram só nove minutos. 1 a 1.

Não era um clássico rico tecnicamente. Mas com duas equipes sedentas pela vaga. Um clássico vivo, pulsante. Que entende a arquibancada e dava, ao menos, muita entrega. Valia demais. O Flamengo, no entanto, encontrava dificuldade para sair jogando. Principalmente pela noite ruim de Cuellar. O colombiano mostrava desatenção e errava passes em demasia, acompanhando pouco os avanços de Scarpa. Arão tampouco fechava bem o meio, de maneira que o Fluminense tinha espaço para jogar. Mas o Tricolor tentava muito entrar na defesa rubro-negra pelos lados. Ao atacar, Lucas e Marlon quase se convertiam em pontas, com Sornoza e Douglas dando passos para trás para resguardar a defesa. A opção, saberíamos depois, tinha sentido.

Talvez Abel Braga tenha detectado uma deficiência rubro-negra em bolas aéreas. E buscava alçar bolas para Henrique Dourado. Mas as chances vieram, mesmo, em escanteios. Na cobrança de Scarpa, Renato Chaves mandou o primeiro recado, que parou nas mãos de Diego Alves, no susto. Minutos depois, o golpe. Cobrança de escanteio com categoria de Sornoza pela esquerda, Renato Chaves superou Vizeu na disputa e tocou no fundo da rede de um imóvel Diego Alves. 2 a 1. A vaga desceu para os vestiários no intervalo com o traje tricolor. Em um tempo, ela tinha mudado de lado.

Seria de se esperar alguma substituição na equipe rubro-negra para o segundo tempo. Era então o Flamengo de Reinaldo Rueda que precisava de ao menos um gol para avançar na competição. Não mudou. E viu o prejuízo aumentar. O Fla-Flu continuou disputado, elétrico. Mas a maior parte da arquibancada, rubro-negra, sentiu o baque com minutos da etapa final. Como num replay. Na falta cobrada por Scarpa na entrada da área, Renato Chaves, de novo, subiu mais do que o defensor – desta vez Arão. A bola ainda beijou a trave antes de balançar a rede. 3 a 1. Coisas de Fla-Flu.

Pois fora Renato Chaves o vilão na final do Carioca, ao falhar grotescamente no primeiro jogo da decisão, dando passe para o gol de Everton na vitória rubro-negra por 1 a 0. Meses depois o mesmo zagueiro ali se vestia de heroi. Fla-Flu que tira, Fla-Flu que dá. Renato talvez já sonhasse com a redenção. Divertia-se com a arquibancada mais abatida diante de tamanha desvantagem. Não a sua. A parte tricolor pulava, elétrica, em transe. O Flamengo sentiu por momentos o golpe. Até a entrada daquele garoto. 17 anos, sorriso escancarado. Um moleque sem medo de errar. Rueda estava pressionado. Tinha de arriscar. Sacou Trauco, recuou Everton à lateral e pôs Vinicius Junior em campo. Vá lá, moleque, ser feliz. Ele foi.

Impossível saber se o menino já vendido ao Real Madrid será craque algum dia. Mas há, de fato, algo diferente nele. A camisa com o número 20 às costas é folgada. Como seu futebol. Vinicius Junior é mesmo folgado. Porque arrisca. Sabe que vai errar. Mas carrega a certeza de que uma hora vai acertar. E também a vontade de vencer, intimidar o rival. Elétrico. Um jogo sempre para frente. Pois foi ele, pela esquerda, que achou Everton Ribeiro na entrada da área. O toque de calcanhar do camisa 7 foi algo de cinema. A finalização de Vizeu, muito competente. Com um toque do garoto, o Flamengo estava revigorado. Reencontrou seu espírito. Pôs-se a acreditar de novo na vaga. Devolveu energia à comunhão time e arquibancada.

O Fluminense sentiu o ambiente. Abel já colocara um nervoso Romarinho na vaga do lesionado Marcos Junior. Sacou Sornoza e pôs Wendel, mais aberto na esquerda. O time encolhia, aceitava ceder campo ao Flamengo. Diego e Everton Ribeiro trocavam de posição. O Flamengo empurrava, com o pulsar da arquibancada, o rival para a defesa. Não havia saída de bola ao Tricolor. Todas sobras eram rubro-negras. E Vinicius Junior começou a dominar o jogo. Chamou o Fla-Flu de seu. O jogo para si. Queria o controle das ações. Pedia bola, partia para cima. Arrumava falta, costurava defensores. Infernizava. E, maroto, parecia se divertir. Entre homens, o garoto de 17 anos despontava.

O próprio time rubro-negro entendeu que a reviravolta passaria por Vinicius Junior. E não se incomodou em vê-lo assumir o protagonismo. Lucas Paquetá, na vaga de Cuellar, foi para a esquerda. Everton Ribeiro recuou como um volante alinhado a Arão. Havia espaço para o contra-ataque tricolor. Mas o Fluminense mal parecia ter forças para defender, quanto mais atacar. Queria a todo custo manter o 3 a 2 e se fechava. Mas Vinicius Junior, já pelo lado direito, não se conformava.

Bola com ele, o garoto ensaboava os pés no meio dos marcadores. Gingava da esquerda para a direita. Da direita para a esquerda. Do centro para o lado. Não há plano de voo definido. Um inferno para quem tem de acompanhá-lo. E Fluminense tentou pará-lo com faltas. Vinicius levantava e tentava de novo. Até que aos 38 minutos do segundo tempo ele passou por Marlon e foi derrubado por Douglas. Pará, no capricho, para a cabeça de Arão, que superou Lucas. Ali para o fundo do gol. 3 a 3. Elétrico.

O Maracanã pulsava com o espírito rubro-negro latente como em poucas vezes em 2017. A arquibancada tricolor clamava por João de Deus. E confiava na imprevisibilidade do Fla-Flu. Mas ela já tinha sido incorporada na quarta pelos pés de Vinicius. Que não se dava por vencido. Afoito, empolgado, juvenil. O menino de 17 anos passou a andar pelo gramado do Maracanã como quem brinca na rua. Em vez de paralelepípedos, zagueiros tricolores. Ele continuava rumo ao gol, faceiro. No apagar das luzes, o camisa 20 deixou Diego na frente de Cavalieri e queria a resposta para tocar para gol. O camisa 10 preferiu a finalização, defendida por Cavalieri. Abel apostou nos lançamentos de Scarpa para Pedro, Henrique Dourado e até Rento Chaves na área. Coisas de Fla-Flu.

Tecnicamente, não foi um clássico exuberante. Houve momentos. Mas não há como descrever um Fla-Flu. Imprevisível, o jogo entregou o que se espera. Rivalidade, nervos à flor da pele, disputa intensa, reviravoltas. Herois que viram vilões. Vilões que viram herois. E garotos que se tornam homens. E Vinicius Junior, 17 anos, já tem para contar um Fla-Flu que foi modificado com a sua presença. Tão novo, ele conseguiu devolver ao time o espírito rubro-negro. Não é tudo. Mas, às vezes, é o que basta.


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