Flamengo salvou mais um time da crise

O Flamengo, melancólico, caminha para encerrar 2017 de forma depressiva, fora até do G-7 do Campeonato Brasileiro.

CHUTE CRUZADO: Por  Pedro Henrique Torre

Há uma névoa de melancolia que envolve o time rubro-negro a cada jogo. Um inevitável e incompatível espírito derrotista que se expande como uma névoa e chega a abater a torcida. É roteiro conhecido, decorado. Falha de uma das peças comprometedoras com minutos de jogo, incapacidade de reação, jogo perdido. Temporada comprometida. Palmeiras dois, Flamengo zero em 35 minutos no Allianz Parque. Não havia esperança de redenção. Não poderia, mesmo, haver. O Flamengo, em 2017, é melancolicamente previsível.

Renê disputando a bola em Palmeiras x Flamengo - Foto: Alexandre Schneider/Getty Images


Espera-se a derrota desde antes do jogo. Ainda que o adversário estivesse em combate franco com a torcida. Ainda que tivesse ocorrido protesto dos palmeirenses a caminho do estádio. A arte de amenizar crises alheias é puramente rubro-negra. Um time com os desfalques de sempre de seus principais jogadores – Guerrero com o doping, Diego com a Seleção Brasileira. Montado, como sempre, no 4-2-3-1. Evertons dos lados, Paquetá centralizado. Previsível.

Do lado do mandante, Alberto Valentim ouviu o pedido do muro. Felipe Melo e mais dez. O cão de caça, revelado pelo adversário, voltou ao time para iniciar as jogadas e proteger os zagueiros. E liberar os laterais. Michel Bastos na esquerda, Mayke à direita. No 4-2-3-1 Keno e Dudu alternavam com constância pelas pontas. Deyverson se movimentava muito. Porque havia espaço. Porque era fácil confundir os zagueiros. Previsível.

É tolice ou falta de mínima visão dizer que falta ao Flamengo qualidade. Entre as inúmeras características inexistentes no elenco rubro-negro, essa não é uma delas. Há, sim, qualidade acima da média do padrão do futebol brasileiro. Mas há, também, os remendos do elenco. Rafael Vaz é um deles. Um insistente erro. Por mais profissional que o zagueiro seja, por melhor relacionamento que tenha com o restante do elenco, ele insiste em jogar uma partida apenas por si. Busca o drible quando não há espaço. O lançamento quando o toque é mais adequado. O posicionamento errado quando a linha de defesa avança. Previsível.

A postura de Vaz contribui para desajustar Rhodolfo. Com Juan ou Réver, o zagueiro é mais centrado, enxerga melhor o espaço a preencher. Quando ir e vir. Quem vigiar. Com Vaz, a defesa é uma latifúndio inexplorado. Já fora assim contra o Grêmio. Pará avança, Rhodolfo tenta cobrir suas costas. Vaz não acompanha. Deixa o espaço entre ambos esgarçado. Quando quer recuperar é tarde. Moisés teve a bola e enxergou Deyverson ao lado de Vaz. No lançamento, a matada do atacante, o toque na saída de Diego Alves. Vaz deu condição e, de novo, foi decisivo em um gol alheio. Previsível.

O 1 a 0 tornou o jogo mais confortável ainda para o Palmeiras. Tchê Tchê fazia bem o vaivém entre defesa e ataque pelo meio. Dudu e Keno incomodavam Pará e Renê. Cuellar e, principalmente, Willian Arão não achavam Moisés. O meia tinha espaço para fazer o jogo verde andar, de um lado ao outro, procurando os pontas. Com o Flamengo atônito, Keno caiu pela esquerda nas costas de Pará, que pedia impedimento olhando para o bandeira. O corte do palmeirense foi seco. A batida, no capricho. A bola na trave do imóvel Diego Costa voltou para o centro da área. Deyverson não foi acompanhado por Vaz. Rhodolfo estava longe. 2 a 0. Primeiro tempo previsível.

Rueda, enfim, decidiu modificar de fato a equipe. Tirar a previsibilidade. Mas sacou Cuellar, melhor marcador do que Arão e também com boa saída de bola, para colocar Vinicius Junior na direita. Um 4-1-4-1 com Everton Ribeiro e Lucas Paquetá por dentro, Everton à esquerda. Houve uma breve melhora. Mas o Flamengo, àquela altura, já era um time abatido. Deu espaços para o Palmeiras jogar, que manteve a mesma postura do primeiro tempo. Boa proteção pelo meio com Felipe Melo, espaço para Moisés e força nos pontas que se alternavam sempre. Era um convite à defesa rubro-negra. Previsível.

Mesmo diante do caos coletivo do Flamengo houve algumas boas notícias. Depois de tenebroso inverno há, de fato, um goleiro de bom nível com a camisa rubro-negra. Não fosse Diego Alves ao evitar o fuzilamento palmeirense no início do segundo tempo, com finalizações de Dudu e Thiago Santos, o desastre poderia ser maior. E, por fim, outras boas novas são os garotos. Lucas Paquetá conseguiu cumprir um bom jogo dentro das possibilidades. Prende a bola, tem o drible e sabe fazer o jogo andar, embora ainda erre vez em outra o momento do passe. E Vinicius Junior, um molecote de 17 anos, dá trabalho aos marcadores. Sua entrada é sempre necessária. E previsível.

Rueda ainda tentou mudanças que não pareciam muito ajudar o time. Márcio Araújo na vaga de Willian Arão. Rodinei na de Renê. Everton de lateral-esquerdo, Vinicius Junior deslocado para seu habitat, na ponta esquerda, com Rodinei do outro lado. Não resultou em nada. Se no início da era Rueda o Flamengo mantinha consistência defensiva, agora entrega os pontos de saída. É fácil agredir pouco e conseguir muito do Flamengo. Que não revida. Fora os parcos minutos que Vinicius Junior está em campo, o time rubro-negro é uma nulidade no ataque. Não finaliza no alvo – de 11 tentativas, acertou só uma segundo o site Footstats – e não cria nem possibilidades para que o arremate seja feito. Porque é previsível.

Difícil mudar na reta final da temporada. Mas o Flamengo, melancólico, caminha para encerrar 2017 de forma depressiva, fora até do G-7 do Campeonato Brasileiro. Adversário da semifinal da Copa Sul-Americana, o Junior Barranquilla já deve saber o que esperar do time rubro-negro. É previsível. 4-2-3-1, apático na maioria das vezes, sem cobrança necessária para se reenergizar, organizar. Criar alternativas. Ousar. O Flamengo já tem pouco a perder. É uma equipe fácil de ser abatida, que cede ao menor tipo de pressão. Rival em crise, semana turbulenta para o Palmeiras, protesto da torcida a caminho do estádio. Clima fervilhante. O Flamengo salvou mais uma crise no futebol brasileiro. Não há adversário melhor. E mais previsível.


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