Futebol não é missa

Romário comandava o ataque do Flamengo e o treinador era Evaristo de Macedo.

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Por Jorge Murtinho

Não sei se já escrevi isso aqui no RP&A. Se já, o momento não apenas justifica a repetição, como a torna necessária.

Trata-se de uma historinha singela, e com possíveis errinhos aqui ou ali nos diálogos reproduzidos, sobre coisas que acontecem em partidas de futebol.

Romário comandava o ataque do Flamengo e o treinador era Evaristo de Macedo. O time tinha um jogo fácil, mas atuava de forma displicente e terminou o primeiro tempo perdendo. Os jogadores desceram para o vestiário antes do técnico, e quando Evaristo entrou Romário estava pagando geral. Evaristo não gostou e falou pro baixinho: “Isso aqui tem comando, e o comandante sou eu. Você vai me deixar fazer meu trabalho, ou posso pegar minhas coisas e ir embora?”

Rhodolfo sendo segurado por Diego Alves no Flamengo - Foto: Reprodução


Percebendo que tinha carne de pescoço pela frente, Romário baixou a bola e engoliu o sapo. Encerrada a partida, que o Flamengo virou sem dificuldades, foi falar com o treinador: “E aí, chefe, sem ressentimentos?” Evaristo, que todos dizem ter sido um craque, com passagens vitoriosas e brilhantes pelo Flamengo, seleção brasileira, Barcelona e Real Madrid, respondeu: “Meu filho, no meu tempo de jogador teve uma vez que quase saí no tapa com um ponta-direita, dentro do campo, por causa de um contra-ataque que ele desperdiçou. Três minutos depois ele me deixou cara a cara com o goleiro, fiz o gol e comemoramos abraçados. Vamos em frente.”

Não há nada mais desagradável nas transmissões esportivas pela tevê – e sobretudo nas mesas redondas, em que os temas podem ser esticados – do que jornalistas que se escandalizam com discussões e trocas de carinhos entre dois caras de um mesmo time. Típico de quem nunca jogou bola na vida, ou, nos casos de alguns jogadores que se transformam em comentaristas, coisa de quem acha por bem segurar o emprego com moralismo e hipocrisia.

Querem o quê? Depois de um cruzamento malfeito, não dá pro centroavante se dirigir respeitosamente ao lateral e propor: “Será que, na próxima oportunidade, o nobre colega poderia fazer o obséquio de caprichar um pouco mais na execução do lance?” É muito mais produtivo gritar: “Cruza direito, ô filho da puta!”

Ok: entre as tantas coisas chatas que se apossaram do futebol, uma das piores é a tara por julgamentos dos egrégios integrantes do STJD, após análises de vídeos. Assim, é bastante provável que Rhodolfo e Vizeu recebam alguns jogos de suspensão, e se estivéssemos no meio do campeonato o clube seria prejudicado. Quem é profissional não pode ignorar essa realidade. (Li no GE que Vizeu deverá ser julgado por “ofender alguém em sua honra, por fato relacionado diretamente ao desporto”. O advogado que escreveu a pérola também não merece punição?)

Apesar de velho, não embarco na onda do saudosismo. Porém, sou obrigado a concordar com os passadistas de sempre: esse povo engravatado dos gabinetes está fazendo, com extrema competência, a parte que lhes cabe na tarefa de deixar o futebol insuportável.


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