Mais uma vitória do time mais irregular do Brasil

O Flamengo precisa aprender a manter, senão a qualidade de jogo, ao menos a disposição, a vontade e a seriedade entre uma partida e outra.

ESPN FC: Por João Luis Jr.

E o Flamengo venceu o Cruzeiro ontem. Não foi um show de bola, não foi uma partida para mostrar pros seus filhos, com certeza ainda não é Flarcelona. Mas foi uma atuação sólida, de um time que dominou as ações e, ainda que não tenha sido extremamente criativo, foi eficiente o bastante para aproveitar as chances que teve e garantir o placar que precisava, reduzindo a distância entre nós e o G4, o grupo dos times que entram direto na Libertadores e não correm o risco de planejar seu ano todo contando com a competição sulamericana e aí serem eliminados em duas partidas por um time mediano da Bolívia.

Vinicius Júnior, jogador do Flamengo - Foto: Alexandre Loureiro/Getty Images
Mais uma vez Éverton foi um protagonista improvável, mais uma vez Vinícius Jr nos lembrou que vamos sentir saudades quando ele for pra Espanha, mais uma vez Paquetá nos mostrou que a base do Flamengo não produz apenas jogadores que aos 20 anos já atuam com níveis de intensidade mais baixos do que aqueles apresentados pelo tio Durval, que na pelada da família joga só no lado sombreado do campo e segurando um copo americano de caipirinha na mão, mas também de vez em quando revela alguém que é capaz de aliar técnica com essa coisa mística chamada “vontade de vencer”.

E ainda que uma vitória sobre o Cruzeiro desperte sim pensamentos terríveis e que não nos ajudam em nada como “AH, MAS AGORA AS MADAMES VENCEM O CRUZEIRO ENTÃO??? AGORA????” o grande mistério que vem quase sempre surgindo após uma vitória segura do Flamengo é outro. Por que não conseguimos jogar sempre assim?

Claro que existem fatores. Jogar dentro de casa é obviamente diferente de jogar fora, o Flamengo tem imensa dificuldade para repetir escalações, jogadores jovens tendem a oscilar e num time que vem aproveitando a base tanto quanto o nosso essa oscilação pode sim representar mudanças diretas no rendimento da equipe toda. Mas ainda assim, mesmo com todas essa atenuantes, é complicado justificar o quanto o futebol do Flamengo consegue mudar de sábado pra quarta, de domingo pra quinta, como se a equipe que joga em casa fosse a titular e nos jogos fora do Rio mandássemos alguns funcionários do clube usando máscaras hiper-realistas ou o time todo tivesse decidido jogar apenas metade das partidas como protesto contra a reforma trabalhista mas esquecido de avisar pra imprensa.

Isso porque num ano em que a torcida já questionou várias vezes a motivação e a dedicação do time, esse ritual de vencer uma partida com um certo nível de intensidade para logo depois perder outra atuando como se cada jogador antes de entrar em campo tivesse ingerido duas feijoadas completas – não feijoada light de restaurante de shopping, falo aquela feijoada que tem até os sonhos, anseios e preferências musicais do porco dentro do feijão – acaba obviamente soando como acomodação. “Vencemos uma e estamos no G7? Ótimo, a próxima já podemos dar uma segurada, não precisa correr tanto, quem aí gosta de feijão?”.

Não que isso aconteça de maneira proposital ou consciente – acredito que os problemas do Flamengo 2017 passam longe de má fé ou falta de profissionalismo dos atletas – mas das únicas coisas mais irritantes do que um time que joga sistematicamente mal é um time que joga mal mas intercala isso com jogos não tão ruins, para que você possa lembrar, sempre que ele perde, que não precisaria necessariamente perder assim.

E agora que chegamos à reta final do ano, com jogos complicados pela frente no Campeonato Brasileiro e nossa única chance de título dependendo de um mata-mata internacional – ambiente onde o Flamengo não vem exatamente se destacando – é preciso entender que já não é mais aceitável a desconcentração, não é mais possível ser tão irregular, não existe espaço para se acomodar de maneira alguma. O Flamengo precisa aprender a manter, senão a qualidade de jogo, ao menos a disposição, a vontade e a seriedade entre uma partida e outra, nem que seja apenas pra dar um descanso pros caras que vem se disfarçando de jogadores rubro-negros nas partidas fora de casa. Essas máscaras de látex devem ser bem quentes, cara.


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