Nada é igual ao Flamengo

Unidos pela experiência mágica, fantástica, alegre, triste, simples e absurdamente complexa que é torcer para esse time chamado Flamengo.

ESPN FC: Por João Luis Jr.

Racionalmente, torcer pra um time de futebol não faz o menor sentido. Você tem o seu trabalho, você tem as contas vencendo, você tem o trânsito, você tem suas frustrações em relação ao seu último namoro que não deu certo e a culpa é sua, você tem o pacote da NET que você ligou pedindo pra virar HD e não apenas não virou HD, como sumiram todos os canais do Telecine e agora no lugar da Record tem o que parece ser uma rádio militar ucraniana. Em suma, você tem a vida, e a vida não é fácil. E aí você escolhe um padrão de cores, escolhe um grupo de atletas e pensa: “Eu vou passar muita raiva por causa dessa camisa, por causa desses caras”.

E a jornada não vai ser fácil. Você vai investir dinheiro, você vai investir tempo, você vai investir paciência. Você vai xingar desconhecidos, você vai pegar chuva, você vai viajar pra cidades onde não iria, você vai perguntar se tem wifi no local onde está acontecendo o chá bar de casamento do seu irmão para tentar acompanhar online uma partida que na verdade não vale nada e a sua mãe vai te dirigir um olhar de reprovação que ela nunca te dirigiu antes. O olhar de reprovação num certo nível você entende, o que exatamente é um chá bar você não sabe até hoje.

Faixas da torcida do Flamengo - Foto: Celso Pupo / Fim de Jogo
Mas você vai estar lá. Em alguns dias vai ser a alegria mais linda do mundo. Um sentimento de realização, paz e comunhão que vai te fazer sorrir, pular, gritar, abraçar desconhecidos apenas porque eles escolheram esse mesmo quase aleatório padrão de cores e atirar pro alto uma criança apenas porque ela estava sentada do seu lado no estádio, e aí o pai dela vai te olhar totalmente consternado, mas você segurou a criança, tá tudo bem, foi a euforia do momento. Em outros dias vai te machucar, te magoar, te fazer sentir raiva e vergonha das suas escolhas, das duas decisões, do dinheiro gasto, da distância viajada, e te fazer prometer pra si mesmo que nunca mais vai gastar seu tempo com isso. Mas você vai gastar, é claro. Apenas vai tentar evitar esse lance de atirar o filho dos outros pro alto. Sério, cara, onde você estava com a cabeça?

E o vermelho e preto, o Flamengo, esse maldito e bendito clube de regatas sediado na Gávea, ontem, como sempre faz, garantiu para cada um de nós tudo isso. Primeiro porque ele ofereceu a tragédia mais trágica, o drama mais dramático. Nosso goleiro titular, líder do grupo, solução para uma posição carente, se machucando, deixando que entrasse em campo um reserva que vive uma fase tão ruim que, se ele visitar a Suécia, o IDH dela cai; se ele abraçar o papa, o pontífice vira ateu; se ele passar cinco minutos nos Emirados Árabes, o planeta Terra abandona o petróleo enquanto fonte de combustível. E daí, é claro, gol do adversário.

Então a tortura. Um time tão criativo quanto numa entrevista de emprego dizer que seu principal defeito é “trabalhar demais”, tão decisivo quanto um casal apaixonado dizendo no telefone “ah, desliga você”, tão emocionalmente preparado quanto você enquanto esperava o resultado daquele teste de gravidez daquela garota com que você saiu só uma vez.

Mas aí veio a glória. Num gol de um zagueiro veterano que com o técnico anterior mal pegava banco. Num gol de um atacante da base que ninguém mais acreditava muito. E o que era apenas dor, raiva, chateação e um copo de cerveja se tornando cada vez mais morno na mesa enquanto você discutia num grupo de Whatsapp como esse clube não tem mais solução, se tornou euforia. Se tornou amor. Se tornou aquele soco no peito que você dá logo antes de beijar o escudo do clube que você, pelo motivo que for, seja por culpa do seu pai, da sua mãe, do seu tio, da televisão, daquele gol de falta do Junior em 92, decidiu amar. Essa combinação de cores que muda a sua vida, esse grupo de desconhecidos que te faz sorrir ou chorar, essa grande combinação de aleatoriedades que parece não fazer o menor sentido, mas que só pode ser o seu destino.

E vencemos o Junior de Barranquilla. Vencemos eu, você, Juan, Vizeu, Muralha, Rueda, o garçom chato que dizia que bom era o Zé Ricardo, a garota inconveniente da mesa ao lado que reclamava de gente que grita assistindo ao jogo. Temos alguma garantia de que essa vitória vai resultar em classificação? Nenhuma. Temos alguma possível previsão do que pode acontecer na próxima semana? Com certeza não. Mas nessa noite de quinta vivemos, de uma maneira absurdamente intensa que apenas o futebol consegue proporcionar, a experiência que é amar algo além de nós mesmos, unidos apenas pela experiência mágica, fantástica, alegre, triste, simples e absurdamente complexa que é torcer para esse time chamado Flamengo.

Tudo isso por causa de um padrão de cores e um bando de desconhecidos.


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