Separando os meninos das meninas

Se for essa a única maneira de fazer esse Flamengo redimir o ano até aqui frustrante que venham outras batalhas.

FUTEBOLZINHO: ARTHUR MUHLENBERG

Foi um Fla-Flu de arrepiar. Com direito a todos os acessórios que compõem os grandes jogos. Mengão fardando calções brancos, gol das moças no começo, porrada liberada sob a supervisão de juiz argentino safado, imprevisibilidade absoluta e meia dúzia de gols. Quem foi ao Maracanã se deu bem, fez um excelente negócio. E quem ficou em casa e assistiu pela TV também não ficou no preju, apesar da insistência dos comentaristas e locutores que estavam de serviço em torcer contra o Flamengo. O imparcial Juninho Pernambucano, escaldado freguês do Flamengo, citou até um escalafobético conceito de violência positiva. Suspeito que em respeito ao Junior Maestro, com quem dividia a bancada, Juninho poupou os telespectadores de muito constrangimento ao não detalhar no ar essa batatada filosófica.

Willian Arão vibrando com gol pelo Flamengo contra o Fluminense - Foto: Divulgação
Pas grave, já estamos acostumados com a incapacidade coletiva de parte da imprensa esportiva em se expressar com clareza em relação ao Flamengo. Só conseguem ser articulados quando é pra falar mal do Flamengo. Quando, por circunstâncias alheias às suas vontades, são forçados a falar bem de nós a língua enrola, o folego escapa, a fluência desaparece, o cérebro dá tilt. Por isso que para a grande parte da maior torcida do Brasil o melhor comentarista esportivo da TV brasileira se chama Tecla Mute. Faz sentido, pra criticar o Flamengo abandonando a razão e agredindo a inteligência alheia não precisamos de ajuda da Mamãe Globo, nós mesmos fazemos isso muito bem sozinhos.

E entre nós, até aqueles críticos que questionam a integridade anímica desse time do Flamengo, e não são poucos, saíram ontem do Maracanã com muitas dúvidas. Afinal, nossa rapaziada sentiu a inequívoca pressão que vinha de todas as direções; adversário, arbitragem, torcida, uma Libertadores funesta, um Brasileiro medíocre, mas a ela não sucumbiu. Se impôs sobre a Fluminense mesmo sendo constrangido a pugnar com a injustificada violência proposta pelo Tetra Rebaixado, que deu unhada e puxão de cabelo desde o apito inicial.

Até nesses tempos em que o debate de ideias entre intelectuais se resolve com tapas na venta e imobilizações no tatame fica difícil sustentar a teoria do time sem alma depois do Flamengo ter sido capaz de correr atrás de um placar desfavorável e arrancar uma classificação dos braços da derrota na base da raça pura. Sim pode ter sido apenas mais uma prodigiosa manifestação dos poderes do Manto Sagrado, mas é bastante improvável. Ao meu ver o time mostrou que dentro daqueles sagrados panos vermelhos e pretos havia gente como nós. Gente que venta, chove, troveja e relampeja como força da natureza. Gente flamenga, enfim.

A verdade é que a alma dos times só se revela na hora do perrengue e que no Flamengo esse perrengue tem sido, historicamente, o combustível das grandes conquistas. Podem reparar, os títulos invictos do Flamengo estão entre mais sem graça de nossa extensa galeria de triunfos. Faltam às raras e improváveis campanhas imaculadas do Flamengo a nota de desespero, a proximidade irresistível com a beira do abismo, a têmpera do fio da navalha que é a rua principal do nosso habitat. Esse Flamengo já provou que se comporta melhor quando a torcida está igualmente disposta a carrega-lo em triunfo ou a botar fogo no parquinho, o que acontecer primeiro. Se for essa a única maneira de fazer esse Flamengo redimir o ano até aqui frustrante que venham outras batalhas. A corneta indomável fica por nossa conta.

O fleumático Rueda já está no clube há tempo suficiente para ter descoberto que sua principal função à frente do elenco é acender o fogo sagrado no rabo dos jogadores e já não tem mais desculpas para desconhecer que o elemento que não pode faltar nessa combustão é o moleque Vinicius Jr. Sua tardia entrada em campo (tinha que ter sido titular) mudou completamente o ritmo e a intensidade do jogo. Vinicius Jr, como os verdadeiros craques, joga e faz jogar. Ao seu lado as potencialidades da nossa mulambada afloram e talentos insuspeitos se revelam. O período de teste está definitivamente encerrado. Portanto, que el profe pare de onda e comece a escalar a joia rubro-negra na justa medida de sua importância pra equipe.

Se tudo der muito certo, até o fim do ano o Flamengo disputa mais 11 jogos. E se der mais certo ainda passaremos o Réveillon com a faixa da Sul-americana no peito, prontos pra faturar Copa Suruga e Recopa. Além, é claro, com uma vaga tipo A na fase de grupos da Libertadores 2018. E olha que nem precisa ganhar os 11 jogos, se ganhar os 3 jogos certos vai ser festa na favela até o Carnaval. Em suma, o melhor ainda está por vir. Cabe a nós, torcedores racionais (e os irracionais também), manter a pressão em cima da nossa mulambada. Porque ainda não ganhamos porr* nenhuma.

Mengão Sempre


Marcadores:

Postar um comentário

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget