Só não pode ter preguiça de ser Flamengo

Não vale a pena guardar nada pra depois. Muito menos o Vinicius Jr, Professor Rueda.

FUTEBOLZINHO: Por Arthur Muhlenberg

“Ai, que preguiça!”
(Mário de Andrade em Macunaíma – 1928)

De uma maneira geral sou um sujeito preguiçoso. Entre todos os capitais a preguiça é o meu pecado preferido e o que menos culpas e nóias me provoca quando estou pecando. Essa postura relaxada e destemida em relação à preguiça muito se deve ao fato de pratica-la diariamente com notável regularidade. E também a uma compreensão mais humanista do termo. A definição de preguiça como mera aversão ao trabalho ou a qualquer atividade física ou mental que mobilize esforço é medieval, além de reducionista. Mário Quintana dizia que a preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.

Vinicius Júnior vibrando com gol do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
A preguiça” não é uma característica estritamente humana: na natureza, muitas vezes, é uma forma de preservar energia por longos períodos. A conotação de pecado que a preguiça adquiriu é viagem da doutrina católica, não está em nenhum trecho das Escrituras. A ciência moderna provou que a preguiça não é uma só. Temos preguiça para algumas coisas e para outras não temos preguiça nenhuma. De respirar ninguém tem preguiça, assim como é raro encontrar quem tenha preguiça de dormir ou de participar de eventos reprodutivos.

Muitas vezes a preguiça se manifesta como impaciência, às vezes como antipatia a algo ou a alguém e em outras como a reação a um conhecimento prévio sobre o desfecho ou desenlace de determinada situação. É o caso da minha absoluta preguiça com os Flamengo x Grêmio jogados ao sul do Rio Mampituba. Tenho uma preguiça enorme, monstruosa, de arrastar meu corpo até um sofá para testemunhar durante 90 minutos ao Flamengo, independente da identidade, habilidade ou valor total do time que colocar em campo, fazer tudo que está ao seu alcance pra ganhar o jogo e no final voltar pra casa com mais uma derrota. É ou não é pra ter preguiça de ver essa droga?

É horrível admitir publicamente nossas fraquezas, mas não dá pra esconder essa mácula em nossa ficha de serviços. Somos muito fregueses. O Flamengo não ganha dos caras lá no Uruguai do Norte há 23 anos. Troca jogador, troca treinador, troca presidente e até regime de governo no Flamengo, mas não ganhamos dos caras lá. A última vez, no Brasileiro de 94 foi 1×0 suado com gol de Nélio Marreco. E a penúltima foi pelo mesmo placar em 1982, com gol de Nunes, decidindo o Campeonato Brasileiro. Que estatística é essa, meus amigos? É pra matar de vergonha qualquer um. E pra nós é fácil ficar com preguiça e até esquecer que tem jogo hoje. Mas já pensaram nos torcedores do Flamengo que moram em Porto Alegre?

Esses heróis, sobrevivendo valentemente e defendendo nosso legado em território hostil, tinham tradicionalmente duas chances no ano de ver o Flamengo no estádio. Aí no ano passado o Internacional perdeu o hímen divisional e passou 2017 submerso no opróbio, jogando às terças, sextas e sábados com os outros sérieBes e num só golpe o heroico braço gaúcho da Nação teve sua ração anual de Flamengo reduzida em 50%. Você acha que pra esses caras não assistir ao jogo na xexelenta arena gremista é uma opção? Ser Flamengo é muito bom, mas cada privilégio implica em uma responsabilidade. Eles sabem que tem que ir e irão, amarradões, chova ou faça sol.

Esse espírito indômito do nosso torcedor meridional não deve ser confundido com conformismo com a derrota do Flamengo diante do Grêmio, uma mini-tragédia recorrente nos últimos 50 anos. Nem com a docilidade do cordeiro a caminho do matadouro. Definitivamente não. O rubro-negro meridional entende seu papel na grande obra rubro-negra e enfrenta seu destino ano após ano com a galhardia destemida das infantarias na linha de frente. Tem a consciência de que as eventuais derrotas nas batalhas se redimem todas quando se vence a guerra. O Brasileiro já ganhamos seis!

Na quarta-feira o Flamengo se deu bem na Sula e na sexta já enfrentava mais um contratempo ao ter Guerrero posto fora de combate por conta de um metabólito de cocaína. O resultado dos testes e contraprovas ainda vai demorar muito. O certo é que com Guerrero fora o ataque do Flamengo inaugurou oficialmente a temporada de não-tem-tu-vai-tu-mesmo e é com essa roupa que vamos ter que ir pra festa até acabar o ano. Guerrero é muito bom, mas o Flamengo é grande demais para que alguém seja imprescindível. Aqui é Flamengo e perrengue é o nosso nome do meio. É a hora do time colocar em campo tudo que tiver no estoque. Não vale a pena guardar nada pra depois. Muito menos o Vinicius Jr, Professor Rueda.

De hoje até o fim da temporada o Flamengo devia se inspirar no espírito de luta e resistência do seu torcedor gaúcho, que encara com estoicismo e alto astral todos os abacaxis que a sorte lhe reserva. Pode estar tudo uma merda, mas eles vão pro jogo com tudo. Jogar com raça, com respeito ao Manto, com honestidade de princípios e foco no objetivo. Sem frescura, sem vitimização, sem deixar que o peso da estatística embote a disposição, a vontade e a obrigação de vencer sempre, em qualquer hora e lugar, por mais fora do planejamento que tal resultado possa parecer.

Esse time pode cometer todos os pecados, pode ter todos os defeitos. A única coisa que esse time não pode ter é preguiça de ser Flamengo.

Mengão Sempre


Marcadores:

Postar um comentário

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget