Um Flamengo fértil aos erros falha de novo contra o Santos

Um Ninho de erros que deve ser chacoalhado para 2018.

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

O lance isolado seria de difícil compreensão. Recuo de bola, possibilidade de passe para o zagueiro com facilidade e a tentativa de drible em um atacante experiente. Falha e gol do adversário. O erro crasso de Alex Muralha, no entanto, está dentro de um contexto e se torna fácil de ser compreendido. Uma enxurrada de capítulos que mostrou em 2017 o quão fértil é o Flamengo para erros. Um ambiente convidativo. Propício. Sem maiores consequências, o erro é admitido como natural na República do Ninho. Parte de um processo. Nesta montanha-russa, o time rubro-negro acabou derrotado de virada para o Santos, por 2 a 1, na Ilha do Urubu. Mais um entre tantos pequenos resumos semanais de quão caótico é o futebol gestado no Ninho do Urubu.

Foto: Divulgação
Afinal, na mesma Ilha do Urubu uma semana antes dois companheiros se estapearam em campo e quase colocaram a vitória sob risco. O atacante fez gol e xingou o zagueiro. Dias depois lá estavam ambos relacionados para um jogo internacional, sem maiores consequências. O Flamengo atual debocha de sua História. Não tem compromisso com o que representa. Com a camisa que enverga. Nem mesmo com os milhões que recebe. Pois só mesmo um desleixo com o panorama que cerca o futebol rubro-negro em 2017 poderia tornar factível a falha de Muralha. O goleiro, mergulhado em um caldeirão efervescente de pressão, permitiu-se arriscar. Permitiu-se comprometer o jogo e a temporada. Permitiu-se arranhar ainda mais a própria imagem. Foi egoísta e contrariou até seus poucos defensores, que argumentavam excesso de pressão para as falhas. Muralha teve frieza para errar.

O Flamengo, afinal, começara bem a partida. No 4-2-3-1 já tradicional, Reinaldo Rueda mostrou preocupação com os pontas santistas e trocou os laterais – jogavam Rodinei e Renê – e pôs Lucas Paquetá no lado esquerdo do trio atrás de Vizeu. Em um estádio com mais um domingo de preços acessíveis e arquibancada cheia, o time entrou confiante, embalado ainda pela vitória recente na Sul-Americana. Parecia demonstrar que já entende melhor alguns movimentos. Arão avança para infiltrar na área, o lateral segura, Everton Ribeiro busca o centro e Diego encosta para a esquerda, quando o ponta – neste caso Paquetá – invade a área para auxiliar Vizeu. Há ali um mínimo de entrosamento. E começou bem.

A batida com curva no escanteio de Renê encontrou Rafael Vaz, que ganhou a dividida pelo alto. Na sobra, Victor Ferraz quis cortar e cabeceou para cima, praticamente ajeitando para Lucas Paquetá, que testou firme, decidido. No fundo da rede de Vanderlei. Com sete minutos, o Flamengo fez explodir a Ilha e contava 1 a 0 após a boa virada sobre o Junior Barranquilla no meio de semana. Parecia uma indicação de mudança de ventos. Um Flamengo mais alegre, oxigenado, sem o ambiente modorrento que o acompanhou ao longo da temporada. Mas há uma asa negra sobre o Ninho. Uma despreocupação em afastá-la. Um descompromisso com o erro mínimo. O terreno é fértil para mancadas.

Jamais Muralha poderia se dar ao luxo de receber a bola do também já marcado Rafael Vaz e arriscar um drible diante do atacante. Não deveria se sentir confortável para isso. Mas, sim, se sentiu. Não entendeu o entorno diante de seus olhos. Diante de um centroavante comum já seria arriscadíssimo. Na frente de um experiente artilheiro como Ricardo Oliveira é assinar a sentença. O toque para Bruno Henrique pegou a área aberta, com companheiros meio estupefatos. Por um milésimo de segundo fez-se um silêncio coletivo na Ilha. O fôlego represado deixava claro. Não era possível que, mais uma vez, o roteiro seria repetido. Mas foi. No estufar da rede, 1 a 1.

Todo o otimismo foi ao chão. O voto de confiança – mais um – dado a Muralha também se esvaiu. As vaias o acompanharam insistentemente. Qualquer um dotado de razoável bom senso entenderia que a revolta que emanava da arquibancada era inevitável. Não se trata de excesso de pressão, perseguição infundada. Alex Muralha foi irresponsável em seu ofício. Não havia margem para erro. Mas imerso no ambiente conivente, que tolera constantemente cada um deles ao longo da temporada, tentou mais uma cartada sem receio do futuro. E, claro, fracassou.

O Santos, também em um 4-2-3-1, apostava o jogo na velocidade de Copete e Bruno Henrique, pelos lados. Havia espaço para jogar, principalmente após o empate. O Flamengo, um tanto quanto atordoado em seu divã de 2017, tentava se reorganizar e voltar à luta. Era melhor, tinha mais a bola, apertava o adversário. Mas o mínimo de confiança recuperado no gol de Vizeu na quinta foi ceifado sem dó por Alex Muralha. O intervalo, talvez, serviria para apaziguar ânimos, diminuir erros. Ledo engano.

O Flamengo voltou bem também no início do segundo tempo. Diego, com espaço como nos outros jogos contra o Santos na temporada, ficou mais próximo à área e sabia trabalhar nas costas de Alison e Renato. Em uma dessas chegadas, ele ajeitou a bola para Everton Ribeiro, de frente para o gol, bater para fora. O camisa 7 também tinha espaço para recuar e avançar com a bola carregada, sem tanto incômodo. Rodinei cruzou para cabeçada de Arão rente à trave. Mas então um lance despertou todos à realidade. Cruzamento rasteiro de Victor Ferraz, carrinho estabanado de Rafael Vaz e a bola carimbou a trave rubro-negra. Erros são tolerados neste Flamengo.

Elano, ciente de que o Santos era apertado pelo mandante, decidiu devolver fôlego ao ataque. Colocou Arthur Gomes, forte e veloz, na vaga de um cansado Copete. No lado do Flamengo, Rueda parecia ignorar sinais claros de cansaço de um time que disputara um jogo feroz menos de três dias antes. Cuellar e Everton Ribeiro, por exemplo, já mais caminhavam do que corriam. A entrada dos jovens Vinicius Junior e Lincoln viriam já tarde demais. O Flamengo de 2017 flerta com o risco a todo momento. Mesmo quando está bem há chances de se dar mal. Principalmente com o momento vivido por Muralha. É alvo fácil.

O corte seco de Arthur Gomes em Rodinei para o meio indicava o chute rasteiro. Telegrafado. Claro. Muralha abaixou e aceitou o segundo gol santista no terceiro chute à meta rubro-negra na partida. Outra falha na conta. Um desastre anunciado. Rueda, enfim, lançou as fichas de Vinicius Junior e Lincoln nas vagas de Arão e Vizeu. Mas, afobado, o Flamengo dos tantos erros queria acertar ao lançar bolas na área. Foram 45 cruzamentos, de acordo com o site Footstats. Frio, o Santos sabia que precisava apenas de um ponto para se garantir no G-4. Na falha dupla de Muralha, encontrou três.

Soaria inverossímil em janeiro, mas o Flamengo milionário, com um dos três melhores elencos do futebol brasileiro, corre o risco de não conseguir nem mesmo disputar a Libertadores em 2018. Um feito às avessas. A classificação para a fase de grupos depende apenas de um improvável título na Copa Sul-Americana. A campanha no Brasileiro, sem mais espaços para passadas de pano, é vexatória. Como fora a Libertadores.

No desabar na primeira fase, com insistência em peças que continuavam a repetir falhas jogo após jogo, o comando do futebol rubro-negro assumiu ali o compromisso com o erro. Não quis o desgaste do rompimento com protegidos para seguir em frente. Tratou tudo como normal e natural. O terreno ficou fértil para erros. Convidativo. Pois eles entraram na República do Ninho. Instalaram-se. Tornaram-se frequentes. Ampliaram o clima de camaradagem. E o ambiente conivente possibilitou Alex Muralha, sob todos os holofotes, tentar o drible e desmanchar um jogo-chave na temporada. Um Ninho de erros que deve ser chacoalhado para 2018.


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