Bem-vindos ao Planeta dos Macacos

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Arthur Muhlenberg

Futebol é muito bom, mas também é um terreno maravilhoso pra quando alguém quer ser idiota. Teve um pessoal que foi pra Buenos Aires torcer pro Flamengo e ficou muito puto com os torcedores do Independiente que os chamaram de macacos. A ofensa racista dos boludos nem é inédita, faz parte do pacote de quando jogamos com os times argentinos. Mas como neguim anda pilhadaço com a decisão valendo taça e adora se aparecer, apertaram o botão da indignação racial só um pouquinho.

Até que conferiu uma seriedade politicamente correta à zoação vulgar de sempre, o que não chega a ser uma vantagem. Principalmente porque é uma hipocrisia do caralho a gente, que faz parte de uma das sociedades mais racistas do planeta, ficar dando xilique de pluralismo étnico pra brigar com argentino e continuar a xingar os pretos locais de coisas bem piores que macaco. Tenho consciência que branco falando sobre racismo é como macho pontificando sobre dores de parto. Zero de empirismo e menos dez mil de relevância. Mas vou me arriscar no tema por mais um paragrafo.

"Somos todos macacos", diz cartaz da torcida do Flamengo - Foto: Divulgação
Racismo é basicamente ignorância, uma variedade de discriminação social baseada no conceito bocó de que existem diferentes raças humanas e que uma é superior às outras. Neste assunto a única diferença cientificamente confirmada entre os humanos é que teve gente que foi educada pra ser racista, isto é paradoxal, estudaram pra ser ignorantes, e gente que não. Discriminar racialmente não é um instinto natural, não nasce com a pessoa, além de ser ignorante é preciso também ser treinado pra isso. E nesse campo da ignorância humana o argentino médio é bem desenvolvido, sabe de nada. Mas não chega a ser um inocente.

Mas não escorreguemos no piso molhado da hipocrisia, ignorância extrema sobre os vizinhos é uma duvidosa virtude que compartilhamos igualitariamente com os argentinos. Nós não temos a menor ideia de quem sejam esses caras que vem lá de Avellaneda, arrabalde que também não temos a menor ideia de onde fique. Para nós, brasileiros monoglotas, argentino é tudo igual, falam com sotaque porteño, não comem feijão e são chatos pra caralho. Do Independiente então, sabemos nada. Nem fazemos ideia que é um time que nasceu da vontade de jogar de uns moleques que eram sempre barrados nos jogos do Maipú Banfield, um time amador dos funça da loja A la ciudad de Londres, no bairro Montserrat. Por que nos interessaríamos por essa cultura inútil? Nos ufanamos da nossa ignorância e a cultivamos como se fosse uma tulipa premiada. Em esto tambiém somos hermanos.

Assim como eles não fazem a mínima ideia de com quem eles estão se metendo. O argentino olha pra gente como se nós, brasileiros, flamenguistas, tocadores de repinique, fossemos um povo homogêneo composto por só um tipo de macaco. Desconhecem nossas nuances étnicas e territoriais, são insensíveis à eufonia da nossa onomástica e à riqueza da nossa variedade dialetal. Os torcedores do Independiente olham pra Magnética e só conseguem ver o assustador monstro de 100 mil cabeças que urra no Maracanã. Não fazem ideia de que os seis jovens remadores que se enfiaram na baleeira Pheruza para enfrentar indomitamente a travessia da Baia da Guanabara no longínquo 1895 não estavam indo dar um rolê pra pegar as mina em Gragoatá. Eles estavam fundando uma Nação.

Esses otários que nos chamam de macacos nem desconfiam que logo abaixo da camada externa e unificadora de Flamengo, que aplaina as muitas diferenças entre os brasileiros, sem, contudo, obliterar nossas características próprias, estão os mulambos, jagunços que lutam até o final. Vão aprender a lição que ensina que o Flamengo é apenas um etnômino que designa um conjunto de povos organizados em múltiplas tribos pertencentes à família mulamba que se espalhou pela maior parte do Brasil a partir do fim do século XIX.

Os ignorantes platinos não têm a menor noção de que o Flamengo é a verdadeira nação dos mulambos, que a despeito da sua fluidez territorial possui características de um Estado soberano, incluindo um hino e relações diplomáticas com embaixadas e consulados espalhados pelo mundo. Mas eles amanhã, lá dentro do inferno rubro-negro, ouvindo aquele zumbido dentro da cabeça, sentindo a casca do Maracanã tremer, vão entender porque o lema do Flamengo, que poderia perfeitamente ser Non Ducor Duco (Não sou conduzido, conduzo), Tuitio Fidei et Obsequium Pauperum (Defesa da fé e assistência aos pobres) ou In Varietate Concordia (Unidos na diversidade) é o esclarecedor Porra, Caralho, Vai Tomar no Cu! Quem Manda Nessa Porra é a Torcida do Urubu,  que nos traduz muito melhor.

Os alienígenas que chegaram antes ao Rio já estão vivendo a atmosfera sufocante que a nossa virtual onipresença na cidade provoca. Não tem pra onde o hermano correr. Não dá nem tempo pra se sentir ameaçado, quando perceberem já foram engolidos pelo monstro vermelho e preto e só lhes resta a esperança de serem mastigados com alguma misericórdia. Um sentimento nobre do adversário que duelistas experientes não devem, jamais, considerar como garantido. Ainda mais depois do inteligente investimento que eles fizeram neste relacionamento quando o Flamengo foi seu hóspede. Chegou a hora de resgatar as aplicações de curto prazo, pelotudos!

Que esta visita ao Planeta dos Macacos seja leve, breve e desgraçada para os argentinos. Porque no bonde da torcida do Flamengo é certo que o ritmo vai ser pesadão.

Mengão Sempre

Porque no bonde da torcida do Flamengo é certo que o ritmo vai ser pesadão.



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