Dever cumprido

Pois ainda que a meta do Flamengo fosse humilíssima, de uma comovente vulgaridade diante das nossas enormes pretensões.

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Até que enfim uma rodada que presta nessa droga de Brasileiro. Tenho a impressão que pela primeira vez no campeonato inteiro o Flamengo conseguiu atingir a meta proposta na rodada anterior. Não interessa se a meta era mixuruca, o importante é o dever cumprido e o cultivo do hábito de entregar as encomendas. Mesmo que meio fora do prazo. Vamos combinar que uma vaga para Libertadores em si nunca teve um grande valor de face. Menos ainda depois que a Liberta virou essa Festa do Caqui e que agora os clubes  tenham que trabalhar com muita determinação e fazer um esforço extra pra conseguir ficar fora dela.

Pois ainda que a meta do Flamengo fosse humilíssima, de uma comovente vulgaridade diante das nossas enormes pretensões, o time entrou em campo na 38ª rodada sem nenhuma garantia de que a alcançaria além do espantoso peso do Manto. Que como sabemos, com esse grupo nem sempre ajuda. O jogo estava todo na mesa e nem era necessária uma combinação muito diabólica de resultados para que o time fosse recepcionado na segunda-feira no aeroporto por turbas de aldeões furiosos brandindo archotes e forcados. E o pior é que os aldeões iracundos teriam razão, não garantir a vaga na fase de grupos era inadmissível até pros mais mansos.

Diego, jogador do Flamengo - Foto: Tiago Caldas


Não foi uma vitória convincente, ganhamos na cagada de um time que estava ainda mais inseguro do que nós mesmos. Pra falar a real, durante mais de 90 minutos a tragédia ricocheteou, zunindo como bala perdida, pelo gramado do Barradão. Mas foi uma vitória fundamental para o psicológico da rapaziada que daqui a poucas horas estará em campo disputando uma final continental. Chegar pra esse jogo com a mixaria já garantida é como separar um qualquer pro táxi no outro bolso da calça quando saímos pra doideira. Agora, aconteça o que acontecer, nós temos como voltar pra casa.

Ainda mais porque tá na cara que Buenos Aires vai ser o terror. O time tá fisicamente em frangalhos, mais de 80 jogos no ano, fora rachão, futevôlei, cascudinho e videogame. Haja saco pra tanto futebol. E justamente agora, que tá todo mundo pregado, doido pra tirar férias e passar o dia jogando bola com os parça, só tem jogo cascudo. Os cara lá do Independiente nem jogaram o campeonato nesse fim de semana, ficaram no danone. Futebol é injusto mesmo. Quem tá cansado tem que pedir água e abrir espaço pra correria da juventude.

É muito difícil para um leigo como eu provar cientificamente, mas afora o talento de cada um, o cansaço dos mais velhos deve ser um dos motivos para que a nossa molecada venha conseguido fazer a diferença. Contra o Vitória os cria novamente foram decisivos e já nem falo mais sobre Vinicius Junior. Se o Brasil fosse um país sério já tinham suspenso o visto de trabalho do Rueda por só botar o moleque em campo depois que o Flamengo toma gol. Ainda bem que o vitorinha fez gol logo e que aqui é todo mundo amigo, somos um povo cordial.

Achei muito estranho uma certa patrulha nas redes sociais sobre a comemoração do time e da torcida pelo modesto 6º lugar no Brasileiro. Muito estranho no caso foi a forma eufemística de dizer que foi algo absurdamente ridículo. Nego não tem mais o que fazer além de cuidar da vida dos outros? Tá virando epidemia no Brasil. Tá cheio de delegado dos costumes. Puta falta de louça na pia. Deixa nego comemorar, eu comemoro até quando consigo vaga pra estacionar, não vou comemorar vaga na Liberta? Claro que vou. Sem falar na agradável satisfação cívica de ver que a justiça foi feita ao deixar o foguinho na mofa e tirar o pão da boca da vasca no ultimo minuto.

Tá certo que é recomendável pra quem tem o nosso tamanho um certo comedimento no tocante às comemorações por vagas, classificações e placês em geral. Mas também é só uma regra de etiqueta e as regras nasceram para ser quebradas. Faz o que tu queres porque é tudo da Lei. Vamos comemorar, mas vamos comemorar no sapatinho porque ainda não ganhamos porra nenhuma. E vamos comemorar baixinho porque a urucubaca tem sono leve. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte. Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores.

Mengão Sempre

ARTHUR MUHLENBERG


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