É hora do futebol do Flamengo olhar no espelho

O discurso de normalidade fez o Flamengo adiar para um eterno futuro seu compromisso com a necessidade imediata de ter um bom desempenho.

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

O Flamengo, enfim, está nu. Despido de qualquer argumento para sustentar o discurso com contornos de farsa de que 2017 seria, sim, uma boa temporada. Não foi. Respostas vazias foram engolidas. Discursos de falsa redenção, engavetados. O título da Sul-Americana amenizaria todo um trabalho corroído por erros do departamento de futebol rubro-negro no ano. Impedir mudanças mais do que necessárias. Impedir a sequência de erros. Não mais. O empate em 1 a 1 no Maracanã deu mais um título ao Independiente diante de milhares de rubro-negros ávidos por uma conquista. Que enfrentaram o caos da guerra no entorno do estádio, ultrapassaram todas as mágoas da temporada em busca de uma alegria com seu clube no último capítulo. O final, porém, foi triste. Melancólico. Alinhado ao roteiro do ano. Mas indica agora um futuro sem promessas. Sem sonhos de anos mágicos. O Flamengo está completamente nu.

Lucas Paquetá caido em Flamengo x Independiente - Foto: Buda Mendes/Getty Images
O processo construído pelo clube rubro-negro ao longo de 2017 possui ramificações tão complexas, capítulos tão confusos que há vários focos a serem atacados. Mas há caminhos claros. O Flamengo formou, sim, um bom elenco para o ano. Mesmo aos trancos e barrancos, entre apatias, desfalques e opções por velhas peças abaixo da média, atingiu uma vaga na fase de grupos da Libertadores, conquistou o título carioca e chegou às finas das Copas do Brasil e Sul-Americana. Os milhões resultaram em um elenco tecnicamente acima da média, que compensou em alguns bons momentos individuais o fraco desempenho coletivo. Um esfarelar contínuo da equipe. Aconteceu de novo na finalíssima do Maracanã. Quando precisou dar o salto decisivo em busca da taça, o time se quebrou.

Reinaldo Rueda apresentou um Flamengo pragmático em sua chegada ao clube. Preocupação defensiva, um time apenas correto que funcionou para avançar à final da Copa do Brasil. Algo distante da memória viva de seu Atlético Nacional campeão da Libertadores em 2016. O pragmatismo seguiu até o fim do ano. Talvez reticente em aplicar mudanças drásticas em meio a jogos importantes no fim da temporada, ele puxou as rédeas de sua criatividade. Mas sente o baque dos insucessos e vibra com as vitórias. Rueda se importa. Deve seguir no comando e ter carta branca para impor seu estilo em 2018, independentemente de panelas, protegidos e preferências da República do Ninho. A fórmula do final de 2017 não funciona.

Ficou claro na decisão. Time mais uma vez no 4-2-3-1 tradicional, com Paquetá e Everton pelos lados, Diego centralizado e os dois volantes. Um Flamengo que soube até explorar a empolgação inicial do estádio cheio. Paquetá, a grande descoberta do colombiano, dá passos largos para vingar como jogador. Atua bem pelos lados, pelo centro e aparece na área. Era ele a mola propulsora da equipe. Dava vida ao Flamengo. Toques rápidos e uma velocidade que não era acompanhada por Diego, mais uma vez excessivamente com a bola no pé, acuado entre os volantes do rival e com dificuldades de mobilidade, apesar do esforço. Ainda assim, o time mostrou meia hora de futebol competitivo, buscando jogadas pelos lados. Trauco contava com o apoio de Everton e Benítez incomodava bem menos do que na Argentina.

O abafa do Flamengo resultou em um Independiente mais seguro, tentando espetar contra-ataques com velocidade mais uma vez pelas pontas, principalmente com o talento Barco. Em um 4-2-3-1 ao atacar, o time argentino se fechava praticamente em um 4-5-1 quando atacado. Atuava com a vantagem que tinha. Tentava diminuir espaços do time rubro-negro pelos lados para buscar a roubada de bola quando a bola passava pelo meio. Mas cometeu ali erros. No primeiro, Vizeu recuou e enfiou bola para Everton nas costas da defesa, que perdeu chance cara a cara com Campaña. Depois, uma falta cobrada na faixa central por Diego, raspada por Juan e cruzada por Réver para a conclusão de Paquetá na pequena área abrir o placar. 1 a 0 que fez explodir o Maracanã e o sonho de uma conquista internacional depois de 18 anos reviver.

O jogo parecia bem controlado pelo Flamengo, apesar da luta consciente do Independiente. Um típico time argentino jogando uma decisão além de seus domínios. Organizado, toques rápidos e muita mobilidade no ataque, com a troca incrível entre Meza, Barco, já pelo lado direito com a saída de Benítez, machucado, e Gigliotti. Mas o Flamengo se esfarela com facilidade em 2017. Perde a concentração, varia entre razão e coração com uma facilidade impressionante. Cuellar, um bom adendo de Rueda ao time, estava em noite infeliz. Lento, errava passadas, tinha dificuldade para acompanhar a movimentação do trio do meio do Independiente. Em uma enfiada de bola, ele deixou Meza ultrapassá-lo e cair na disputa dentro da área. Pênalti altamente discutível, principalmente porque Meza pareceu tropeçar na própria perna. Havia árbitro de vídeo. Nem isso impediu Barco de cobrar com extrema categoria e empatar a partida. Então, o Flamengo se esfarelou.

A confiança de estar em seus domínios, diante de sua torcida, se esvaiu. O time ficou afoito. Não teve mais saída de bola com Arão ou Cuellar. Rever, tresloucadamente, passou a se adiantar e lançar bolas ao ataque. Dificilmente daria em alguma coisa diante de um adversário tão bem organizado Ariel Holan. Depois do intervalo, o Flamengo voltou igual. E Rueda, geralmente econômico em substituições, chamou Vinicius Junior com dez minutos. Sacou Trauco, recuou Everton à lateral e foi ao ataque. O time se desorganizou totalmente. Havia pouco espaço para o menino tramar suas jogadas. Recebia a bola, cortava para dentro e a alçava na área. Com o time exposto. Réver, no campo de ataque, foi desarmado infantilmente e o contra-ataque só não resultou em gol no belo toque de Gigliotti por cima de César graças à intervenção soberba de Juan, perfeito no tempo de bola. A torcida sofria, o time se desesperava. O Independiente se raciocinava.

O time argentino chamava o Flamengo e tinha em Barco um inferno em campo. Esquerda, direita, centro. O garoto de 18 anos comandava o time argentino debaixo do braço em um Maracanã abarrotado com tantas invasões. Partida de gente grande. A solução de Rueda foi empilhar jogadores ofensivos. Everton Ribeiro na vaga de Cuellar. Lincoln na de Paquetá. Todos ao ataque. O Flamengo milionários dos medalhões apostava em garotos de 16, 17 e 20 anos para conquistar um título internacional. Uma estrutura falha exposta. Nu em campo. Nu na temporada. Sem nada a esconder, o time rubro-negro dependeu de lançamento e cruzamentos para tentar o gol salvador que estenderia a final à prorrogação. Mas tamanha desorganização não foi premiada. Assim como em 95, faltou um gol. Depois de sofrer empate, o Flamengo deixou qualquer explosão de lado. Foi o retrato de um departamento de futebol à deriva em 2017.

Há inúmeras contestações a fazer, como ao diretor de futebol, Rodrigo Caetano. O desempenho recente como cartola é ruim. 2013 em um Fluminense rebaixado em campo um ano após o título. 2014 com um Vasco voltando à elite do Brasileiro sob vaias. 2015 com um Flamengo de 19 derrotas no campeonato nacional. 2016 com derrotas para Confiança, eliminação diante de Fortaleza, Palestino e início de Brasileiro sem zagueiros no elenco. 2017 com um vexame na Libertadores, uma campanha sofrível no Brasileiro e a insistência em peças fracas que resultaram em episódios como a saga dos goleiros. E pouco aproveitamento de reforços como Conca, Geuvânio e Romulo. É hora de o futebol do Flamengo olhar no espelho e admitir que é falho.

Não se nega o sucesso financeiro na administração do clube. Mas Eduardo Bandeira de Mello demonstra incrível dificuldade em enxergar o momento ideal para rupturas no futebol, corrigindo rotas e evitando desastres. O ponto de rompimento na temporada foi a eliminação vexaminosa na Libertadores. Até ali, o Flamengo somava alguns bons desempenhos, embora pecasse frequentemente com as mesmas peças de sempre. Mas não avançou. Era momento de afastar peças do elenco, cobrar resultados. O discurso de normalidade fez o Flamengo adiar para um eterno futuro seu compromisso com a necessidade imediata de ter um bom desempenho que tivesse como consequência resultados.

Há problemas a resolver em 2018, como a provável ausência de Guerrero e o baixo rendimento de Diego após a lesão no joelho e o de Everton Ribeiro sem uma pré-temporada. Há indicações de posições carentes de reforços, como a lateral direita, ataque e a zaga. Há jovens talentos como Paquetá e Vinicius Junior que mostraram ser confiáveis. Mas há, acima de tudo, a necessidade de o Flamengo admitir que são necessárias mudanças e reflexões para tentar reagir em 2018. O ano mágico ficou pelo caminho. O que vem pela frente depende deste divã rubro-negro com seus demônios. Por pior que seja o reflexo, o momento de olhar o espelho é ao fim de uma temporada frustrante. Pois é agora, com a frustração final de um insucesso na temporada ainda em carne viva, que o Flamengo está completamente nu em 2017.


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