Flamengo é tudo ou nada

Sem contudo esquecer de jogar bola. Porque quando a fé é cega a faca tem que estar bem amolada.

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Viajantes experientes costumam dizer que existem três coisas que um turista jamais deve fazer na capital argentina. Uma é tentar fazer dieta, a outra é trocar dólares pelo câmbio oficial e a mais desautorizada de todas: se deixar intimidar pelo injustificado complexo de superioridade cultivado pelos hermanos da margem direita do Prata.

Não sei se o Flamengo precisou trocar umas doletas, até porque dinheiro não tem sido um problema atualmente e tenho certeza que a delegação rubro-negra se alimentou muito bem durante sua permanência na Ciudad Autónoma de Buenos Aires. Por isso lamento bastante que em campo o Flamengo tenha ficado de cócoras, em posição subalterna diante de um Independiente que já não faz qualquer jus ao seu megalômano epíteto.

Foto oficial do time do Flamengo na final da Sul-Americana 2017 - Foto: Gilvan de Souza
Seguindo à risca o esquema de time pequeno proposto por Rueda, que até funcionou em Barranquila, o Flamengo alternou momentos durante o jogo. Esteve nitidamente exultante com a magra e inesperada vitória parcial, depois pareceu conformado com o empate e só não digo que ficou satisfeito com a derrota porque depois que o Independiente botou meio palmo de língua pra fora o time se viu meio que constrangido a aproveitar os espaços deixados pelo adversário. Mesmo no final o Flamengo não correu qualquer risco de empatar o jogo. Faltou pegada, vibração e chutar como homem. Defeitos graves que, admitamos, precedem a chegada do treinador.

Ainda assim, muita gente ao fim da partida, e gente de boa formação rubro-negra, ficou satisfeita com o resultado. Não sei que jogo essa boa gente rubro-negra viu, mas decididamente não foi o mesmo jogo que passou na televisão. Na minha visão leiga, de torcedor de um time que não vence uma partida em Buenos Aires desde 2001, o Flamengo, além do cansaço natural de uma equipe que jogou 83 vezes no ano, ganiu de humildade tática diante dos diablos como o mais reles dos vira-latas e por isso perdeu.

Se pelo menos houvesse alguém jogando ali naquele pedaço do campo ocupado por Everton Ribeiro a história poderia ser outra. Mas o mineiro manteve a regularidade e além de não jogar absolutamente nada no ataque ainda encontrou tempo para fazer cagadas lá atrás. Não chegou a levar um embaraçoso vareio como Trauco levou do ponta-direita deles, mas soube garantir sua vaga na Pensão da Cremilda junto com seus companheiros de meio campo, todos em uma jornada especialmente infeliz. Mas é muito sem raça esse cara. Não tenho nenhuma maturidade pra entender porque o Vinicius Júnior fica no banco e ele em campo. Acho logo que o Rueda tá de sacanagem. Mas relevem, além de imaturo sou um leigo.

Por outro lado, a surpreendentemente positiva reação de muitos torcedores rubro-negros à derrota para o Independiente é uma coisa boa. A diferença mínima no placar faz com que muitos daqueles que fecham com o certo considerem o saldo que trouxemos de Buenos Aires administrável e até augurem uma tranquila reversão do placar no jogo de volta. Uma reação bacana e evoluída, que denota uma extrema confiança nos poderes do Flamengo. Meio oba-obística, é verdade, mas que pelo menos deu uma mudada no baixo astral quase botafoguense das reclamações sem fim, que vinha sendo a tônica da torcida nas redes sociais. E toda mudança, quando é pra melhor, deve ser louvada.

Despedindo-me agora de qualquer racionalização e entrando com tudo no terreno místico do patrimônio intangível das seitas rubro-negras não há como não considerar que a perda da vantagem do empate na finalíssima é benéfica para o Flamengo. Nossa inadequação às vantagens é proverbial e foi o ingrediente comum à todas as tragédias flamengas no século XXI. É um fato histórico que não admite contestação. Confiamos mais no Flamengo pressionado precisando de uma vitória do que no Flamengo tranquilão a que basta um empate. Flamengo é tudo ou nada, está na nossa essência.

Me desculpem por não ter a maturidade necessária para achar que uma derrota foi bom resultado. Sei que o otimismo é o combustível dos campeões e se a torcida já se convenceu que a Sulamericana será decidida na base da fé, quem sou eu pra contestar.  Nesses tempos de pragmatismo e algoritmos é tão maneiro ver os rubro-negros se agarrando à irracionalidade. Mais raiz impossível. Embarco nessa onda sem restrições. Esperando que na quarta-feira que vem o Flamengo saiba ser altivo, dominante e macho alfa. Sem contudo esquecer de jogar bola. Porque quando a fé é cega a faca tem que estar bem amolada.

Mengão Sempre

ARTHUR MUHLENBERG


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