Futebol não está mais caro... a vida sim

Grafietti traz os dados da Série A e mais alguns exemplos de jogos e preços praticados por Flamengo, Corinthians e São Paulo.

OLHAR CRÔNICO: “O futebol antigamente era bem mais barato, além de ser melhor!”

Será?

Sobre ser melhor já passei batido, cada época terá sempre seus melhores de acordo com a realidade presente de preparação física, equipamentos, gramados, concepções...

Quanto a ser mais barato já é outra história, que ouvimos e lemos frequentemente, e vamos ver agora se isso é verdadeiro.

O futebol não está mais caro... a vida sim

Desde a entrada em operação dos estádios construídos para a Copa e mais os novos estádios do Grêmio e do Palmeiras, todos eles chamados de “arenas”, houve mesmo um aumento significativo nos preços dos ingressos para ver futebol.

Esse aumento tem lógica e é o que se pode chamar de justo, pois as arenas, ao contrário dos estádios, são muito mais confortáveis e seguras, o que tem um custo e que é, naturalmente, repassado ao consumidor.

Um ponto importante a ser pensado é que a vida hoje é mais cara que outrora, porque o número de “necessidades” para uma pessoa viver está maior. Por exemplo: telefone celular, algo que só passou a existir em meados da década de 90 e que se popularizou nos últimos anos. Isso, obviamente, tem um custo, assim como muitos outros produtos da modernidade

Mesmo com a variável nova das arenas, será que o futebol está mesmo mais caro que no passado? Vamos conferir...

Os leitores deste OCE já conhecem o Cesar Grafietti, que é o responsável pela Análise Econômico-Financeira dos Clubes Brasileiros de Futebol, presente aqui desde sua primeira edição no já distante ano de 2011.

Dias atrás, depois da trabalheira para terminar a 7ª edição da Análise, Cesar debruçou-se sobre o passado para conferir se o futebol então era mesmo mais barato que hoje. O estudo – “Elitização do Público nos Estádios de Futebol” – é muito bom, completo, inclusive com preços de jogos de diversos campeonatos, além de uma feliz comparação com os preços dos cinemas, uma outra forma de diversão bastante comum e apreciada pelos brasileiros. Para quem tiver interesse, ele está disponível no Linkedin (aqui).

Análises desse tipo são difíceis de serem feitas no Brasil, pois à inexistência de muitas informações soma-se o comportamento caótico da economia brasileira. Esse caos é exemplificado com perfeição no fato simples de termos tido em 52 anos – entre 1942 e 1994 – nada menos que 9 – nove! – diferentes moedas. No período coberto pelo estudo foram 6 moedas diferentes e mais a URV. Vamos dar uma rápida olhada nessa história.

Uma curta história do sumiço de 15 zeros de nossa moeda

Vamos recordar: em 1967 foi criado o Cruzeiro Novo, com três zeros a menos (2ª) que o velho cruzeiro (criado em 1942 com três zeros a menos que o réis) (1ª).

Em 1970, no ano do Tri, “renasceu” o Cruzeiro, mas sem cortes de zeros – apenas mudou o nome.

Dezesseis anos depois, outro ano de Copa e novamente no México, nasceu o Cruzado: 1 cruzado era igual a 1.000 cruzeiros e assim lá se foram mais três zeros (3ª).

A novidade durou somente 3 anos e foi substituída pelo Cruzado Novo, emagrecido em três zeros (4ª).

Essa era a receita mágica: a inflação engordou? Corte os zeros e continue mantendo todo o resto errado na economia...

Em 1990, mais um ano de Copa, o cruzado novo morre e o Cruzeiro (olha ele aí de volta mais uma vez) é ressuscitado com todos os zeros do recém-falecido, mas com as nossas contas bloqueadas por 18 meses. Sem comentários...

Em 1993 (sem Copa, ufa...) nasce o Cruzeiro Real, que valia mil cruzeiros. Mais uma vez os pobres três zeros foram pra cucuia (5ª), no processo que levaria, com o apoio da URV, à criação do Real em 1994 – opa, olha a Copa aí, com o Brasil campeão nos Estados Unidos. O real nasceu com o valor de 2.750 cruzeiros reais, que equivaliam a 1 URV.

Complicado, não?

Entre 1942 e 1993 nossa moeda de plantão perdeu três zeros nada menos que 5 – cinco! – vezes. Quinze zeros foram para a lata de lixo da história e da economia, não sem antes infelicitarem as vidas de muitas e muitas dezenas de milhões de brasileiros, vítimas, todos eles, das inflações galopantes.

E, de quebra, mas menos importante, complicar a vida dos futuros analistas de nossa economia.

Salário mínimo como base comparativa

Essa bagunça absurda de moedas e planos econômicos dificulta extremamente qualquer análise e impede, simplesmente, uma visão rápida e objetiva que nos permita saber se algum bem ou serviço ou salário ou imposto está mais alto ou caro, igual ou mais baixo ou mais barato.

Nessa barafunda toda, o único parâmetro razoavelmente seguro para ser usado em análises comparativas passou a ser o Salário Mínimo.

Foi o que o Cesar Grafietti fez em seu estudo, permitindo, dessa forma, que tenhamos uma boa visão comparativa para os preços dos ingressos no futebol. Transcrevo um trecho de seu estudo:

“Se temos que relativizar e comparar comparáveis, logo, precisamos das referências.

Quando falamos de preço de ingressos para jogos de futebol, uma das formas de analisá-lo é o comparando com a renda disponível na época. E a melhor referência de renda disponível em qualquer época, é a medida de Salário Mínimo.

Desta forma, o que seria recomendável fazer é relacionar valor do ingresso com valor do Salário Mínimo. Em outras palavras, quanto um ingresso médio de futebol onerava o salário mínimo da época? Isto é uma medida de comprometimento de renda e deveria ser uma referência para qualquer ação de consumo...”

Nesse trabalho, Grafietti traz os dados da Série A do Campeonato Brasileiro – 2005 a 2016 – e mais alguns exemplos de jogos e preços praticados pelos três times de maior torcida: Flamengo, Corinthians e São Paulo.

No estudo do Cesar há um foco maior sobre o Corinthians em função, justamente, da grande quantidade de dados sobre os diferentes espaços, preços e os públicos que frequentam a Arena Corinthians desde sua entrada em operação, graças ao trabalho de monitoramento realizado para o clube por uma empresa especializada, a Armatore Market + Science, em caráter permanente. Vale a pena dar uma lida.

Voltemos, então, ao tema desse post: o futebol está mais caro que no passado?

Na Série A ingresso e salário mínimo vêm mantendo a proporção

A tabela abaixo mostra os valores do ingresso médio para os campeonatos brasileiros da Série A desde 2005, terceiro ano dos pontos corridos.


O primeiro ponto a chamar a atenção é, como sempre e desde sempre, a baixíssima média de público, no caso aqui o público pagante. Pior que os números baixos, muito menores relativamente que na década de 70  (nossa população mais que dobrou), quando começou o Campeonato Brasileiro, é o fato de boa parte desses pagantes terem entrado com a brasileiríssima “meia entrada”.

O segundo ponto a chamar a atenção é o pulo no valor nominal do ingresso a partir de 2013, justamente o ano em que as novas arenas entraram em cena com seus preços mais elevados. Essa mudança, entretanto, não foi suficiente para alterar o quadro geral, exceto por três temporadas.

Chegamos agora à última coluna da tabela, a que mostra quanto de um salário mínimo consumiu o ingresso médio...

Depois de um pulo no preço que chegou perto de consumir 5% do valor de um SM, houve uma queda em 2016 e o preço voltou a 4,0%.

Nessas 12 edições do Brasileiro, o comprometimento médio do SM foi de 4,0%, com valores significativamente menores em 2006 e 2007 e maiores em 2013, 2014 e 2015.

O retorno à média de 2016 foi seguido pelo índice de 2017 – de acordo com o levantamento de público e renda feito pelo portal Globoesporte (aqui), o ticket médio foi de R$ 34,00 nessa edição recém-finda do Brasileirão, ligeiramente abaixo do valor do ano anterior. Com isso, o comprometimento de um SM com um ingresso para o futebol da Série A em 2017 foi de 3,6% de 1 SM nacional.

É bom destacar que esse percentual foi ainda menor em SP, RJ, PR, SC e RS, estados que têm valores próprios de salário mínimo.

Isso mostra que o impacto inicial das novas arenas sobre os preços já foi absorvido.

Jogos decisivos alteram o quadro

É natural que haja uma diferença de valores entre um campeonato por pontos corridos e outro com jogos eliminatórios para definir o campeão, o “mata-mata”.

O levantamento de público do portal Globoesporte da Temporada 2017 mostra isso com clareza no valor do ingresso médio, que de R$ 34,00 no Brasileirão passou para R$ 37,00 na Copa Sul-Americana, R$ 41 na Copa do Brasil e deu um pulo de 61,8% na Copa Libertadores, cujo ingresso médio custou R$ 55,00. Como curiosidade, o ticket médio no Campeonato Paulista também foi superior ao do Brasileiro: R$ 40,00.

Essas variações nada têm de novas, pelo contrário, sempre fizeram parte da rotina dos clubes, pelo menos desde a década de 70 do século passado.

As tabelas que vêm a seguir, explicadas detalhadamente no estudo do Cesar Grafietti (link acima), mostram claramente esse ponto, como também mostram que o ingresso para um jogo regular de campeonato sempre esteve num patamar entre 3% e 4% do Salário Mínimo. Os valores e percentuais mais altos referem-se a jogos decisivos e finais de campeonatos.

Jogos do Corinthians
Jogos do Flamengo
Jogos do São Paulo
 Outra visão interessante que essas tabelas proporcionam: a diminuição nas lotações dos estádios, motivada por novas legislações de segurança e só por isso (ou alguém imagina que os gestores de nossos clubes iriam, por livre e espontânea vontade, reduzir as lotações pensando em segurança e, inimaginável, conforto do torcedor?), não afetou o comportamento dos torcedores, que, verdade seja dito, já estão historicamente acostumados a pagar mais caro por jogos mais interessantes, ou melhor, mais decisivos.

Alguém hoje imagina estar num maracanã com mais de 150.000 ou 160.000 pessoas?

Num Morumbi com mais de 100.000?

Apesar de ter vivido isso muitas vezes no Morumbi e uma no Maracanã, asseguro a vocês que minha saudade disso é zero. Um zero absoluto. Ir ao estádio hoje, mesmo em jogo de alta lotação, é muito melhor, mais tranquilo e confortável que há 20 ou 30 anos...
E o preço... Não causa espanto.


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