MP acusa o Flamengo de fornecer ingressos à Organizada

GLOBO ESPORTE: Uma operação policial no Rio de Janeiro desnudou a relação entre clubes e torcidas organizadas: torcedores foram presos, dirigentes foram convocados a depor, escutas telefônicas expuseram a intimidade entre cartolas e líderes de grupos proibidos de frequentar estádios. Reportagem do Esporte Espetacular traz novos detalhes sobre a investigação e amplia o debate: até onde vai a relação entre o clube para o qual você torce e suas organizadas?

No Rio, a situação tem preocupado as autoridades. Investigação conjunta da Polícia Civil, do Ministério Público e do Juizado do Torcedor aponta que dirigentes de Fluminense e Botafogo estão envolvidos com a cessão de ingressos para grupos banidos.

Eduardo Bandeira, Presidente do Flamengo, e integrantes da torcida Organizada Raça Rubro-Negra - Foto: Divulgação
Polícia e Ministério Público do Rio não têm dúvidas de que Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco fornecem ingressos que não podem ser comercializados para torcidas organizadas. Os chefes dessas torcidas, segundo a investigação, vendem os bilhetes para cambistas - que os revendem a preços bem mais altos.

No caso do Fluminense, escutas telefônicas autorizadas pela Justiça constataram a relação de dirigentes com representantes de três torcidas organizadas, todas proibidas de frequentar arenas esportivas.

Em entrevista após depoimento à polícia no início da semana, o presidente do Fluminense, Pedro Abad, admitiu que dava ingressos para as organizadas.

- Em setembro, depois do jogo contra o Grêmio, com o time em situação complicada, chamamos as organizadas e fizemos um pacto pela união delas em prol do time. Nós nos propusemos a ajudá-los com uma quantidade bastante pequena de ingressos, 200 por jogo, para ser distribuída a todas as torcidas apenas e tão somente para que eles entrassem no estádio e frequentassem. O Fluminense nunca teve nenhum conhecimento de os ingressos serem repassados ou terem destinação diferente.

De acordo com as investigações, esses ingressos eram desviados para cambistas. Tal situação gerou até discussão entre os representantes das organizadas, como mostram as gravações.

Segundo as autoridades, foi justamente a quantidade de ingressos dada pelo dirigente que gerou uma disputa entre chefes de torcidas organizadas do Fluminense. No último dia 23 de outubro, Carlos Roberto de Almeida, o Carlinhos, presidente da torcida Fiel Tricolor, pegou 200 entradas na sede do clube e seguiu para o Maracanã. Nos arredores do estádio, ele encontrou um cambista que receberia parte dos bilhetes. Porém, no momento da entrega, foi preso em flagrante pela polícia.

Numa das gravações a que o Esporte Espetacular teve acesso, Carlinhos conversa com Luiz Carlos Torres Júnior, o Fila, vice-presidente da Young Flu, logo após deixar a delegacia.

Carlinhos: Fui preso, preso, preso, preso.
Fila: Mas por quê?
Carlinhos (chorando): Eu não sei, cara, não sei, fui preso, pô!

A prisão gerou um grande mal-estar com outro membro de torcida organizada do Fluminense. Ao encerrar o contato com Carlinhos, Fila procurou Ricardo Alexandre Alves, o Pará, presidente da Força Flu.

Fila: O Carlinhos me retornou a ligação. Perdeu todos os ingressos para a polícia.
Pará: Jura? Vai me f... isso aí, parceiro. Vai me f.... Dois mil e 800, dois mil e 800. Pô, parceiro, eu tô bolado agora.
Fila: Eu tava contando com isso... Eu tava contando com 15 ingressos pra mim (sic) dormir hoje tranquilo... Quinze ingressos, Pará, 600 conto. Quinze ingressos a 40 reais... Não sei nem como é que eu vou fazer.
Pará: A gente tem que ir pro clube, sabe por quê? O clube vai ter que dar outros ingressos pra gente.

Uma das escutas mostra que a perda dos ingressos que estavam com Carlinhos gerou até ameaças. Em conversa com Fila, o presidente da torcida Young Flu, Manuel de Oliveira Menezes, fez uma ameaça caso os bilhetes perdidos não fossem recuperados.

Manuel: Se ele não pagar, eu vou tacar fogo no material todinho dele lá nas Laranjeiras. Vou entrar lá de noite e vou tacar querosene lá dentro e vou tacar fogo, sem sacanagem.

O advogado Nélio Machado, que está trabalhando para o Fluminense no caso, deu a posição oficial do clube.

- Essa relação de clubes com torcidas organizadas já existe há muito tempo, mas é uma relação saudável, não é uma relação promíscua. Excessos que torcidas organizadas eventualmente possam ter feito, elas são atribuíveis a essas pessoas dessas torcidas que tenham se excedido. Incendiários são criminosos, quem vai chamar a polícia é o Fluminense – afirmou advogado.

Essa é outra prática entre os clubes: manter espaços dentro das sedes destinados às organizadas. Em nota divulgada pela assessoria, o Fluminense confirmou ter espaços destinados dentro da sede do clube às organizadas.

"Há espaços nas dependências da sede para armazenar materiais que são utilizados em dias de jogos (baterias, bandeiras e faixas). Essa prática já acontece há décadas, não tendo sido instituída durante essa gestão."

Outro indício que mostra a relação próxima dos dirigentes do Fluminense com torcidas organizadas se deu no jogo contra o Cruzeiro, em Belo Horizonte. Em depoimento à polícia, o gerente executivo de ações e jogos do clube, Filipe Ferreira Dias, afirmou que o clube pagou o aluguel de dois ônibus para levar torcedores a Minas Gerais.

Em nota, o Fluminense afirmou:

O clube, conforme dito em depoimento, contribuiu com dois ônibus para uma partida nessa temporada visando dar apoio ao time num momento importante do campeonato. A partir de setembro, o clube doou 200 ingressos para jogos como mandante, que eram divididos por três organizadas, visando estimular o apoio ao time na reta final da temporada. O Fluminense nunca teve nenhum conhecimento de os ingressos serem repassados ou terem destinação diferente."

Mas não é apenas o Fluminense que está envolvido com as organizadas. Em uma das escutas autorizadas pela Justiça, Anderson Simões, então vice-presidente de estádios do Botafogo, fala com Luís Felipe Fonseca da Silva, conhecido como "Canelão", sobre o repasse de ingressos para a torcida Fúria Jovem.

Anderson: Olha aqui. Cara... isso é mega off, eu consegui dar um jeito meu aqui, entendeu?
Canelão: Correto.
Anderson: Consegui 150 ingressos, que não vão para o check-in. Eu travei eles.
Canelão: Entendi.

A delegada Daniela Terra, responsável pela investigação, não tem dúvidas sobre a intimidade da relação.

- Posso afirmar com total certeza que é, sim, uma relação promíscua. Hoje, com essa operação, com toda essa investigação, ficou claro que eles dão ingressos para torcidas, sejam elas banidas ou não do futebol. É uma relação promíscua, coloca em risco. Fomenta a violência nos estádios, fomenta qualquer outro tipo de atitude, fomenta o cambismo. Então, não tem mais espaço para isso.

Em outro áudio gravado com autorização da Justiça, Anderson Simões é procurado por outro integrante da mesma torcida organizada banida – Felipe Ferraz de Souza, conhecido como Fill. A conversa é sobre ingressos para o jogo entre Botafogo e Grêmio, em Porto Alegre, no dia 20 de setembro, pela Libertadores.

Fill: Fala, meu amigo Anderson. Vê se pode me ajudar. Tem um pessoal aqui que responde pra você que tá vendendo ingresso. E tem uma galera da Fúria querendo comprar. Ele falou que tem que falar contigo para liberar a venda.
Anderson: Quem tá falando isso?
Fill: O Pedro.
Anderson: Deixa eu falar para ele aqui.

Mas nem sempre Anderson Simões resolvia as negociações sozinho. Em uma escuta, ele diz que precisará recorrer a outra pessoa, a quem identifica como Padilha. O vice de comunicação e marketing do Botafogo se chama Márcio Padilha.

Anderson: O Padilha, o Padilha, o Padilha já tá chegando aqui... Quando ele chegar aqui, foi ele que me arrumou isso... E aí, você acha que ele vai trocar no sócio-torcedor? Eu falei: “Padilha, dá o jeito, me ajuda aqui.” Aí ele: “Ah, mas não é correto com os outros”. Eu falei: “É um pedido meu, é um pedido meu, porra! Vamos resolver isso”.

Em nota oficial, o Botafogo afirmou não repassar ingressos para as torcidas organizadas e saiu em defesa de Anderson Simões.

O Botafogo de Futebol e Regatas reforça a plena confiança no Vice-Presidente de Estádios Anderson Simões e permanece à disposição do Poder Judiciário, do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, bem como da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, para esclarecer qualquer questão e fornecer às Autoridades tudo aquilo que for solicitado, visando a colaboração nas investigações e consequente elucidação dos fatos.

Apesar de o Botafogo defender Anderson Simões, o vice-presidente já se mostrava preocupado com a relação que mantinha com as torcidas organizadas.

Anderson: Fala, meu querido! Cara, outra coisa... Seguinte: não vou responder ninguém pelo Whatsapp. Ninguém, tá?
Canelão: Acabei de falar isso aqui com a galera aqui.
Anderson: Sabe por quê? "Nego" pega um Whatsapp desse sem querer, brincando e, porra, envia para alguém... o Ministerio Público vem e pune o Botafogo, cara.
Canelão: Tá errado.
Anderson: Porr*, como o vice-presidente tá interagindo com os caras, bicho?

No caso do Flamengo, a Polícia Civil quer ouvir dirigentes do clube para saber qual é a relação deles com integrantes da torcida Raça Rubro-Negra. Em escutas autorizadas pela Justiça, é possível perceber a relação de um representante da empresa que confecciona ingressos para os jogos do time rubro-negro com representante de uma das principais organizadas do clube. Em nota, o clube afirma:

"O Flamengo não tem qualquer tipo de participação em esquemas de repasse de ingressos para cambistas ou para qualquer pessoa que queira se beneficiar, ilicitamente, da venda de entradas para nossos jogos. Pelo contrário: em todos os momentos em que o clube tomou ciência de práticas contra a lei no que diz respeito ao assunto, notificou a polícia e colaborou com investigações para sempre defender os interesses dos rubro-negros. Nossos esforços são sempre aplicados para que toda colaboração dos torcedores com venda de ingressos, programa de sócio-torcedor ou qualquer tipo de interação com o clube vá para os cofres do mesmo e não para terceiros. Esse dinheiro é reinvestido em reforços esportivos, melhores serviços para sócios, sócio-torcedores e torcedores em geral, além de infraestrutura. O Flamengo valoriza muito a colaboração dos órgãos públicos no combate a qualquer tipo de fraude nessa ou em qualquer outra área"

O Vasco nega manter relações com torcidas organizadas, diz que não dá ingressos e afirma que apoia as investigações da Polícia Civil e do Ministério Público.

Em São Paulo, proximidade para distanciar

No dia 3 de dezembro, Lugano se despediu do São Paulo, e o São Paulo se despediu com alívio de um campeonato que trouxe ameaças de rebaixamento. O dia foi de festa no Morumbi. Ao lado do campo, o presidente do clube, Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, trocou abraços e posou para fotos com líderes de organizadas – uma cena que, na metade do ano passado, seria impensável.

Em julho de 2016, Leco anunciou rompimento com as organizadas depois de episódios de violência no Morumbi. Meses antes, em janeiro, ele admitira, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, que o clube repassava dinheiro (para o carnaval) e ingressos para os grupos.

Em agosto, um mês depois do rompimento, o CT da Barra Funda foi invadido por torcedores. Jogadores foram agredidos, e objetos foram furtados. A polícia identificou, e a Justiça puniu alguns dos invasores. Entre eles, estava Henrique Gomes de Lima, o Baby, líder da Independente – condenado por violação de domicílio (regime aberto) e furto qualificado (multa e serviços à comunidade). Ele está à esquerda na foto abaixo, posando com Leco, em mensagem replicada em uma rede social da torcida organizada.

A reaproximação foi gradativa e resultou, em setembro e novembro deste ano, em encontros entre jogadores, diretores e torcedores de diferentes setores – não apenas organizados. O clube entende que a torcida ajudou no processo de luta contra o rebaixamento.

A pacificação teve o dedo do Ministério Público de São Paulo, que pediu, ainda no ano passado, que a diretoria cortasse o fornecimento de ingressos e agiu com a Independente para que ela cessasse os episódios de violência. O promotor Paulo Castilho, do Juizado do Torcedor, elogia a atual relação entre o clube e suas organizadas.

- Vejo um relacionamento muito saudável entre o São Paulo e as torcidas organizadas hoje, depois de muitos percalços, com prisões, invasões, problemas. Hoje, tenho certeza de que as torcidas do São Paulo mudaram a filosofia. (...) O que mudou foi que a torcida organizada foi investigada como jamais tinha sido, foram denunciados líderes como jamais tinham sido, foram afastados dos estádios e foram penalizados com a proibição de tudo relacionado a festa no estádio. Eles mesmos sentiram o aperto, procuraram o Ministério Público, e conseguimos passar o recado: mudem a filosofia.

O presidente do São Paulo disse à reportagem, via assessoria de imprensa, que o clube não financia suas organizadas. Esta semana, em evento de direito esportivo na capital paulista, ele esteve em uma mesa ao lado dos mandatários de Corinthians, Palmeiras e Santos e falou sobre a relação com as torcidas.

- Hoje, o São Paulo vive uma experiência diferente porque conversou com as suas organizadas e seus torcedores em geral, representando os mais diferentes segmentos há três meses, com a presença de todos os jogadores, diretores e tudo isso, abordando aspectos fundamentais da equipe de futebol, mas que certamente contribuiu para que o comportamento, a atitude do torcedor se transformasse de ameaça em apoio. A torcida do São Paulo abraçou a equipe. Foi importante e fundamental para que ela se reerguesse e pudesse sair da situação angustiante em que se encontrava.

Os presidentes de Corinthians, Palmeiras e Santos disseram à reportagem que não bancam as organizadas de seus clubes. Veja o que afirmou cada um:

Roberto de Andrade, presidente do Corinthians:

- Temos a relação com a torcida como temos com qualquer torcedor. Se tiver que conversar, converso. Isso não me faz ser bandido, nem faz eles serem bandidos. Não tem relação nenhuma com o que acontece no Rio de Janeiro.

Maurício Galiotte, presidente do Palmeiras:

- Temos um tratamento único em relação a todos os torcedores. De maneira igual. O torcedor familiar, o sócio-torcedor, a torcida organizada, todos cumprem a regra, compram o ingresso. A gente respeita a todos e espera que se comportem adequadamente no estádio. Quando tem um jogo fora de São Paulo, trazemos o ingresso para vender em São Paulo para que todos os torcedores possam fazer a viagem com os ingressos em mãos.

Modesto Roma Júnior, presidente do Santos:

- Temos que dividir torcida organizada de crime organizado. Com as torcidas organizadas, a relação é boa; com o crime organizado, não existe. Isso é problema de polícia, não é problema de futebol.

Para o promotor Paulo Castilho, não há paralelo em São Paulo com o que acontece no Rio.

- Não vejo uma relação tão promíscua em São Paulo. Isso foi trabalhado ao longo dos anos, cortando ingressos, buscando a identificação dos compradores, fazendo um cadastramento dos principais líderes, a legalização das torcidas. (...) Acho que é uma relação mais saudável. A torcida tem que entender que é preciso cortar esse cordão umbilical. Essa proximidade levou a uma relação promíscua. A relação pode ser boa, desde que saudável, dentro da lei.

Minas Gerais e Rio Grande do Sul

Atlético-MG, Cruzeiro, Grêmio e Internacional também negam que façam repasses financeiros às organizadas.

O diretor de marketing do Cruzeiro, Marcone Barbosa, diz que o clube vende uma cota de ingressos às organizadas, com preço de meia-entrada, que pode chegar a 2 mil bilhetes nos jogos de maior procura. As torcidas revendem as entradas entre seus associados.



Além disso, o Cruzeiro negociou com a administradora do Mineirão a cessão de duas salas para que as torcidas guardem seus materiais - instrumentos, bandeiras - no estádio. De acordo com Barbosa, há uma cartilha com regras de conduta que prevê punições às organizadas que não seguirem as determinações.

A diretoria do Inter informa que os torcedores organizados são automaticamente associados ao clube e passam a comprar ingressos como os demais sócios. O clube diz que eventualmente contribui com material usado em recepções ao time – como papel picado e bobinas.

O Grêmio diz que não faz qualquer tipo de aporte financeiro às organizadas desde a gestão passada. O clube estuda mecanismos para poder vender, em suas lojas, produtos com as marcas das torcidas para que elas possam ter uma fonte de renda mais sólida.

O Atlético-MG, por meio de sua assessoria de imprensa, afirma que não tem qualquer tipo de relação financeira com suas organizadas.


A Polícia Civil quer ouvir dirigentes do clube para saber qual é a relação deles com integrantes da torcida Raça Rubro-Negra.


Postar um comentário

[facebook]

FlamengoResenha

{facebook#https://www.facebook.com/FlamengoSouRubroNegro} {twitter#https://twitter.com/FlamengoResenha} {google-plus#https://plus.google.com/u/0/107993712547525207446} {youtube#https://www.youtube.com/channel/UCiHkjDj2ljgIbiv_zUvdG6g/videos}

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget